Desgooglar: um imperativo de liberdade e soberania

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Quando adquirimos um produto valorizamos a qualidade, o preço, a funcionalidade, o estado de conservação e o prazo de validade, mas também, em escala crescente, vários parâmetros que refletem a preocupação com o ambiente, com a saúde humana, com o trabalho, com a privacidade, com a saúde da vida empresarial e mesmo com a política. Chamar-lhes-ei decisores culturais.


Usar ou não o nosso soft power

Créditos: Miguel Bruna (Unsplash)

Temos relutância crescente em adquirir, por exemplo, um têxtil que utiliza mão-de-obra escrava ou infantil na Índia, no Paquistão ou na China. Este têxtil, por outro lado, dá a volta ao mundo e produz mais CO2 do que um produto do Vale do Ave; e utiliza corantes que são descarregados nos aquíferos locais, matando a fauna e pondo em risco a saúde dos humanos; e alimenta a economia de estados autoritários, com ou sem democracia formal, ao mesmo tempo que penaliza a nossa. Sabemos que podemos utilizar os decisores culturais para exercer o soft power que poderá influenciar o mundo, se assim quisermos.

Contudo, ao adquirir serviços e tecnologia tendemos a ser menos exigentes. Assumimos, um tanto levianamente, que não conseguiremos preparar o relatório para amanhã se não utilizarmos o word da Microsoft (MS); que não poderemos fazer cogumelos picantes com molho de açafrão-da-índia sem googlar a receita no Chrome; que não poderemos convocar a reunião de condomínio se não o fizermos por Gmail (também da Google); e que não conseguiremos armazenar e gerir as nossas faturas, artigos e e-books sem recorrer ao Access da MS. A lista poderia continuar.


Produtos alternativos viáveis e amigos

E, no entanto, as alternativas não só existem como, em muitíssimos casos, já alcançaram um estado de desenvolvimento e sofisticação que as converte em fortíssimas concorrentes da tecnologia das multinacionais. Não era assim há uns anos, mas é assim agora.

O Chrome é utilizado por 62% dos europeus, de acordo com o statcounter. O browser Firefox, por outro lado, desenvolvido pela organização amiga da internet e dos internautas que dá pelo nome de Mozilla Foundation, um projeto de código de fonte aberta sem fins lucrativos, faz tudo o que o Chrome faz bem feito ao mesmo que dá cartas no plano ético (não vende e utiliza abusivamente os dados dos consumidores), da verdade e da confiança (não distorce os resultados das pesquisas em função do perfil do utilizador), da segurança, da funcionalidade e mesmo da estética.

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Estados dentro de um estado

O Firefox é compatível com qualquer sistema operativo e pode descarregar-se com um click, mas só é utilizado por 7% dos europeus. O poder de lobbying e a política de eliminação da concorrência da Google são tão fortes que nem mesmo o Edge (o browser da MS) escapa. A Google é um estado dentro do estado. E os estados têm medo.

A MS “vinga-se” com o sistema operativo dominante para PCs (quem não utiliza o Windows?) e, de forma não menos significativa, com o software de escritório Office, que instala na maioria dos computadores, através de parcerias com fabricantes e vendedores. Mas o Office paga-se bem, explícita ou implicitamente.

Créditos: Konstantin Dyadyun (Unsplash)

Quem conhece o LibreOffice, desenvolvido e distribuído grátis pela Document Foundation, outro projeto de código de fonte aberta sem fins lucrativos?

Poucos, mas deveriam conhecer. Faz o mesmo que o MS Office e provavelmente melhor, de forma simples, prática e amiga do utilizador. O seu Math é um poderoso editor de equações, que incorpora em qualquer documento. É totalmente compatível com o MS Office, tanto do ponto de vista da importação como da exportação de ficheiros. E é divertido. Ao utilizá-lo, temos a impressão (a certeza ao fim de algum tempo) de fazermos parte de uma comunidade, à qual desejamos continuar a permanecer.


Poupanças, boicotes e soberania

Não se percebe facilmente por que razão não existe uma política de migração massiva para o LibreOffice, pelo menos em escolas e noutras instituições públicas, incluindo departamentos da administração central e local. Ou talvez se perceba: talvez a razão seja novamente o medo. Mas o medo pode ser domesticado pela organização, planeamento e exposição, como bem sabem os psicólogos.

O software é de simples utilização e não requer qualquer aprendizagem especial. Poupar-se-iam centenas de milhões de euros em contratos, individuais e institucionais. E, não menos importante, evitar-se-ia a dependência estrita em relação a uma transnacional hegemónica, o que já é definido por vários estados como uma questão de soberania nacional.

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Qualquer estado, hoje, pode ser paralisado em pouco tempo pelo eventual boicote ou chantagem da MS ou da Google, por iniciativa própria ou de terceiros. Veja-se a subserviência de várias multinacionais americanas em relação à política do Governo dos EUA sobre a companhia de telecomunicações chinesa Huavei. Não dobrou a China mas foi um aviso.

Não se percebe bem, mas no fim percebe-se. Quem já percebeu foram inúmeras autarquias, cidades, agências policiais, governos regionais e ministérios de pelo menos dez países europeus, que promoveram a migração massiva para o LibreOffice nos últimos anos. Barcelona tem soberania digital plena desde 2018. Em Portugal, que se saiba, só o município do Seixal o fez no ano passado.


Mais abusos e alternativas

Não se pense que o problema reside somente na supressão da concorrência pela MS, ou que o problema se restringe à dicotomia MS Office-LibreOffice. Para além do confronto Chrome-Firefox acima referido, coloca-se nitidamente a questão do abuso de posição dominante doutro produto da Google, a plataforma de email Gmail, que já tem pelo menos uma alternativa de código de fonte aberta viável, desta vez por iniciativa europeia.

Trata-se do ProtonMail, criado por cientistas e engenheiros do CERN, a organização europeia para a pesquisa nuclear sediada em Genebra. O ProtonMail é claramente superior ao Gmail nos planos técnico, estético, ético e de segurança, incluindo a política de privacidade. Não será violável pela CIA ou por qualquer outra agência do estilo. Isto explica, em parte, o boicote que ainda lhe é movido, apesar do crescimento exponencial.

E outros exemplos existem. O MS Access, por exemplo, pode ser substituído com muitíssimo proveito pela incrível plataforma Mendeley, para organização de todo o tipo de documentos e, no caso de cientistas, professores e estudantes, para a gestão sistemática de referências bibliográficas em todas as suas fases. Neste caso é o produto de uma empresa, mas não tem fins lucrativos diretos.

A internet proporciona-nos, hoje, alternativas grátis e de excelente qualidade para a quase totalidade do software proprietário. Não há praticamente recurso que não seja possível obter free of charge na internet, satisfazendo um sonho de gerações.


Escassez de soluções made in EU

Muito embora com honrosas exceções, a União Europeia (UE) ainda está longe de atingir o máximo do seu potencial de oferta de sistemas para a internet, amigos dos utilizadores e das organizações, capaz de anular a situação de abuso de posição dominante de várias multinacionais, principalmente americanas.

Créditos: Hannah Wei (Unsplash)

Esta insuficiência é particularmente notória no setor vital das aplicações de software (browsers) que permitem o acesso a informação na internet, baseadas em motores de busca, em que a hegemonia do MS Windows é flagrante. Muito embora a UE tenha feito alguns avanços, a primeira tentativa de criação de um private browser europeu (Cliqz) falhou e a nova tentativa (UR) ainda não ganhou notoriedade.

A UE tem tentado afirmar a liberdade de escolha de browser no ato de aquisição de um computador, opondo-se política e judicialmente à MS, mas os esforços têm sido tímidos e insuficientes.


Não permitiremos

Não se pretendeu, neste artigo, avaliar sistematicamente a razão por que sistemas amigos dos internautas e das organizações, como o Mozilla Firefox, LibreOffice, ProtonMail ou Mendeley, entre muitos, ainda não ganharam vantagem sobre os seus congéneres das multinacionais, como o Chrome, MS Office ou Gmail. Tão pouco se avaliou profundamente a razão de ser última da lentidão e timidez de resposta das organizações, com particular destaque para os organismos da UE e dos estados nacionais, incluindo o estado português. Esse poderá ser o tema nuclear de um próximo artigo.

Uma coisa, no entanto, é certa. Não poderemos continuar a pagar fortunas para alimentar o abuso de posição dominante de multinacionais do software, desbaratando recursos públicos e alimentando superbilionários como Larry Page e Bill Gates. Não poderemos continuar a assistir, impunemente, à interrupção da visualização de sites por publicidade cirúrgica, baseada em resultados de pesquisas Google e na venda dos dados a terceiros. (A sistemática violação das regras anti-monopólio por parte da multinacional é tão grave que a UE tem sido forçada a impor-lhe pesadas multas, embora insuficientes face à extensão dos lucros e dos danos causados. A última, ainda quente, foi de 1,49 mil milhões de euros.)

E não poderemos continuar silenciosos face à tibieza da atuação da UE e dos estados nacionais, incluindo Portugal, relativamente ao hard power das tecnológicas, colocando a soberania em risco. Teremos que saber usar o nosso soft power, utilizando os decisores culturais que determinam as nossas escolhas de produtos físicos.

Teremos que aprender a desgooglar. Teremos que desgooglar.

4 thoughts on “Desgooglar: um imperativo de liberdade e soberania

  1. Concordo. Mas é mais fácil dizer do que fazer. Embora eu concorde com a maior parte do que aqui é dito, é um facto que nesta altura já devia haver uma resposta europeia credível. A Europa pode e deve investir nisso, e libertar-nos de neo-liberalismos provincianos (de esquina). É uma prioridade. Serão “peanuts” dos mais baratos, numa união económica em que se gasta a sério em inovação (de um muito particular tipo…). É preciso insistir na independência de meios quando se usam fundos comunitários. Usar os nossos impostos para isso. Não deixar infiltrar privados.
    A informação é uma arma, sim, mas pode e deve ser de paz e concórdia. Só desinformados não vêm que a Europa de Jean Monet está a ser apunhalada. É preciso pensar em informação como quando em 1949 se pensou em carvão e ferro e efectivamente se impediu um continente inteiro de repetir a entrada em conflitos internacionais. Informação independente mas regrada pelos mesmo princípios que “informaram” e formaram o continente europeu, é disso que precisamos. Motores de busca desconectados dos neo-liberalismos baratos mas afinal caros e criminosamente invasivos.

  2. Pingback: Desgooglar

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