Desgooglar

Créditos: Sherise (Unsplash)

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sinalAberto lançou o desafio: a partir do texto provocador de Luís Martinho do Rosário publicado há dois dias, sob o título, “Desgooglar: um imperativo de liberdade e soberania”, que houvesse quem se chegasse à frente e prolongasse a discussão.  Eis a primeira das reações que recebemos.

Por muito que o neguemos, por muito visionários que queiramos parecer, nunca nos passou pela cabeça que atingiríamos um ponto em que todos e cada um de nós dependesse em tão elevado grau das tecnologias da informação e comunicação (TIC). É impossível encontrar uma área de atividade que não dependa – direta ou indiretamente – de ferramentas computacionais, do processamento de informação, da comunicação entre sistemas. Apesar do seu caráter crítico, até setores como a segurança nacional, a governação, a energia, a saúde e a proteção civil de muitos países dependem das TIC. Nunca a informação e a comunicação tiveram tanta importância, sobrepondo-se a interesses económicos, fronteiras ou governos.

Por si só, tudo isto já seria bastante para nos preocuparmos, para tecer longas considerações sobre o impacto de tais questões nas nossas vidas, na nossa liberdade de decisão – cada vez menor porque cada vez mais estamos dependentes de tantos outros – e na nossa sociedade. No entanto, centraremos a nossa atenção em algo muito mais microscópico, mas não menos importante: o impacto das TIC na nossa capacidade para pensar, para investigar e procurar soluções, para analisar de forma crítica o que nos rodeia, em suma, para sermos humanos.

Falo, concretamente, da hiperabundância de informação que caracteriza o nosso ambiente, decorrente, naturalmente, da generalização das TIC. Talvez fosse melhor falar em hiperabundância de dados, já que informação a mais deixa de ter caráter informativo e passa a ser, meramente, um extenso conjunto de dados, quando não um extenso conjunto de lixo do qual nada se consegue extrair. Mas dêmos-lhe o benefício da dúvida e chamemos-lhe informação.

Com as TIC, com a Internet e com o quase inimaginável repositório de informação disperso por incontáveis servidores, cremos que passámos a ter ao nosso alcance imediato um conhecimento inesgotável. Tudo está ali, no ecrã de qualquer dos nossos dispositivos, cada um destes com um poder computacional milhões de vezes superior ao de um supercomputador de há três ou quatro décadas. De repente, deixou de ser preciso, estudar, investigar, analisar, raciocinar. Para quê, se alguma ‘inteligência superior’ já fez isso por nós? Entregamo-nos, assim, ao ditame de um qualquer motor de buscas, que conhece melhor que qualquer pessoa a verdade absoluta, inquestionável, objetiva e inapelável. Rendemo-nos. Deixamos de nos interrogar, de colocar hipóteses, de defender teses, porque o motor de buscas tudo sabe.

Não há dúvida que os extremos se tocam. Ter acesso a catadupas de informação parece fazer de nós ignorantes, quando deveria ser, precisamente, o contrário. Mas o problema não está nas TIC nem no manancial de dados que disponibilizam, mas sim na forma errada na qual os usamos. As tecnologias são um meio indispensável para nos permitir ter acesso a elementos sobre os quais pensar, não para nos impedir de pensar. Por isso, “googlar” é importante, mas muito mais importante – e difícil – é “desgooglar” logo em seguida, ou seja, pensar pela nossa cabeça, identificar os erros próprios e alheios, tirar conclusões e, mais importante ainda, aprender. Só assim poderemos tirar verdadeiro proveito das TIC.

2 thoughts on “Desgooglar

  1. Interessante e importante a perspectiva do meu caro amigo de não nos podermos deixar levar roboticamente pelo expansionismo descerebrado das TIC (palavras minhas) e de, portanto, devermos proceder com larga autonomia e “pensar pela nossa cabeça”, isto é, desgooglar.

    O significado deste neologismo, que os dicionários seguramente registarão, é obviamente diferente do do meu artigo, que ainda não parece ter atraído a atenção dos mesmos mas que, provavelmente, mais tarde ou mais cedo, deverá seguir o mesmo caminho.

    Talvez mais cedo do que tarde, já que os acontecimentos e a pressão da cidadania não parecem dar tréguas.

    Deixo-lhe pois uma questão muito concreta, encorajado pela tolerante abrangência do nosso sinalAberto, sobre a qual poderá querer reflectir e partilhar opinião, como cidadão mas possivelmente também na qualidade de profissional e académico com elevada responsabilidade e influência na definição da estratégia da política das TIC na Universidade de Coimbra:

    Para quando a substituição do MS Office pelo LibreOffice na UC? Que vantagens poderia ter a UC? Alguma desvantagem?

    Com pequeninos passos se constrói o mundo… Quererá a UC?

    Aceite um abraço muito cordial deste seu companheiro de lides cívicas.

    1. Muito obrigado pelo seu comentário e, também, antes de mais, pelo seu interessantíssimo artigo, do qual ‘roubei’ uma palavra para título deste.

      A questão que coloca é muito pertinente, mas muito complexa. É difícil e, até, indesejável, tomar decisões que imponham uma solução em detrimento de outra. Acho que o caminho mais viável será o de chamar a atenção para as vantagens de soluções abertas e deixar que as pessoas decidam. Por outro lado, há muitas entidades decisoras dentro da UC, algo que, infelizmente, conheço bem dos muitos anos que estive à frente das TIC na UC e durante os quais travei muitas guerras (com poucas vitórias, diga-se de passagem).

      Um abraço amigo.

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