Diálogos literários no espaço de língua portuguesa: realidades, limites e alternativas

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A comunidade de língua portuguesa é afro-europeia e não euro-africana (basta olhar os números populacionais para atestá-lo). Do ponto de vista cultural, é obviamente mestiça, sendo os traços africanos dessa cultura cada vez mais evidentes.


As memórias, trânsitos e convergências são um dado adquirido das relações entre as diferentes literaturas produzidas em língua portuguesa, por força da história, a qual, entre outras consequências, nos legou um idioma comum. Tais relações vão da influência de uns sistemas literários sobre outros à intertextualidade observável nas obras de numerosos autores dos nossos países, sem ignorar manifestações mais recentes, que começam a ser engendradas pela globalização, sobretudo mercadológica, e que teorias como o pós-modernismo ou o multiculturalismo se esforçam por justificar do ponto de vista intelectual.

No primeiro caso – a influência de uns sistemas literários sobre outros -, o mais comum e natural é que os sistemas mais antigos e mais consolidados influenciem os sistemas mais recentes, pelo menos nos períodos de formação destes últimos. Isso sucedeu, por certo, entre as literaturas portuguesa e brasileira. Quanto à literatura angolana, ela não seria o que é sem o neo-realismo português e o romance nordestino brasileiro, de Jorge Amado, Lins do Rego e Graciliano Ramos, além da poesia de Bandeira e do movimento modernista inaugurado pela Semana de 22.

O inverso, entretanto, é uma possibilidade que não pode ser descartada ab limine. Duas comunicações apresentadas em 2009, no XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portugal, em Salvador, chamaram-me a atenção nesse sentido: “Uma polémica esquecida: pode a literatura brasileira influenciar a literatura portuguesa?”, do professor Luís Bueno, e “A dupla consciência tropical na Angola colonial: leituras de Yaka, do professor Jesiel Oliveira Filho, que se apropria do romance do festejado autor angolano Pepetela para iniciar uma discussão, sob uma nova luz, acerca da problemática étnico-racial brasileira. Menciono ainda a hipótese do professor Mário Lugarinho, da USP, segundo o qual a nova narrativa angolana pode suscitar uma natural empatia com o público brasileiro, por abordar temas e problemas muito semelhantes aos vividos diariamente por numerosos segmentos da população, em especial nas periferias (virtualidade de que as principais editoras e a grande imprensa local estão a demorar a dar-se conta).

As marcas e jogos intertextuais entre vários autores que escrevem em português, menos do que uma consequência do peso institucional dos sistemas literários a que cada um pertence, são escolhas rigorosamente (ou quase) individuais. A literatura comparada pode facilmente identificar numerosos exemplos desse tipo entre autores portugueses e brasileiros, entre africanos, portugueses e brasileiros ou entre africanos entre si. Na literatura angolana, o caso mais exemplar e paradigmático é o de Luandino Vieira em relação a Guimarães Rosa. Mas também é possível reconhecer pistas de Herberto Hélder em Ruy Duarte de Carvalho, de Drummond em João Maimona ou de Manoel de Barros em Ondjaki. Por outro lado, Mia Couto também já reconheceu ter sido influenciado por Guimarães Rosa e por Luandino. De qualquer forma, não conheço casos de autores portugueses ou brasileiros que se digam influenciados pelos escritores africanos, o que não deixa de ser sintomático.

Mais recentemente, começam a manifestar-se outros tipos de trânsitos e convergências, justificadas ou, em alguns casos, estimuladas pela globalização. Posso mapear três delas: a utilização de cenários e personagens dos países que compõem a nossa comunidade linguística por parte dos escritores; a elaboração de tramas que se desenrolam simultaneamente em vários dos nossos países e nações; e até a produção de obras sobre realidades e factos de países diferentes do estado originário dos respetivos autores, como dois livros recentes de escritores brasileiros integralmente decorridos em Angola. 

Essa nova possibilidade corresponde às transformações do mundo, desde meados dos anos 80, em particular à diluição das fronteiras imposta pela chamada pós-modernidade. Um risco, entretanto, ronda-a permanentemente: a sujeição da obra aos ditames do mercado e às prioridades da mídia (cada vez mais vinculada aos interesses económicos, apesar da sua persistente retórica liberal), o que tem feito irromper na cena literária obras que parecem viver num mundo permanentemente em trânsito, virtual, ou seja, um entre-lugar assético e perfeito, talvez para desviar os leitores das desgraças do mundo real (ou para estetizá-las, o que dá no mesmo). O caso mais emblemático que me ocorre é o de certos “romances-safári”, como Equador, do português Miguel de Sousa Tavares.

Não posso deixar de mencionar, enfim, uma série crescente de obras literárias que começam a surgir em Portugal acerca da realidade dos países africanos de língua portuguesa e que correspondem a uma tendência a que vou chamar; à falta de melhor, “literatura colonial de novo tipo”. Trata-se, em regra, de obras prenhes de saudosismo da vida nas antigas colónias portuguesas no continente africano, o que, salvaguardadas as diferenças, constitui operação idêntica à das obras que tentam hoje negar o holocausto.



Quanto à presença de África na literatura brasileira, distingo duas situações. Em primeiro lugar, a “porção” africana do Brasil, embora maioritária, tem ainda uma visibilidade menor nas obras locais, embora autores fundamentais, como Jorge Amado ou João Ubaldo Ribeiro, para citar apenas estes, a tenham mostrado sem rebuços. O facto é que, apesar da situação estar a começar a mudar, o espaço da literatura especificamente afro-brasileira é ainda bastante limitado. Em segundo lugar, as referências ao continente africano nas obras produzidas por certos escritores brasileiros, entre eles Adonias Filho, correspondem, de um modo geral, a uma visão romântica de uma África ancestral que já não existe mais.

Em suma, todos estes trânsitos e convergências, afinal, acontecem naturalmente desde há muito, sob os fluxos da memória e, como é óbvio, das suas atualizações estratégicas. As incompreensões, ambiguidades, mistificações, preconceitos e esteriótipos não lhe retiram, de modo algum, o caráter concreto e efetivo.

O tema do texto de hoje possui, inevitavelmente, um aspeto institucional que não pode ser ignorado. A pergunta que é impossível calar é a seguinte: como reforçar, ampliar e clarificar esses trânsitos e convergências, no campo da literatura, mas não só, se os livros e as pessoas não circulam no nosso espaço alegadamente comum?

É imperioso – diga-se – exigir aos poderes dos nossos países, nomeadamente governos, mas também a mídia e a indústria cultural, medidas para facilitarem e promoverem essa circulação. Questões como vistos migratórios ou a tramitação necessária para a importação e exportação de livros e bens culturais não deveriam funcionar como entraves ao nosso conhecimento mútuo. A indústria cultural tem de demonstrar mais competência para identificar mercados reprimidos, ansiosos por ter acesso, por exemplo, aos livros produzidos nos oito países de língua portuguesa, mas que as editoras não oferecem, pois mantêm-se prisioneiras de uma lógica mercadológica conservadora, entre o best-seller e o cult, de preferência anglo-saxónicos. A mídia só teria a ganhar, em termos de empatia com o público, se deixasse de priorizar, no campo da literatura e da cultura, o que acontece em Nova Iorque, Londres ou Paris e passasse a valorizar o que ocorre à sua volta.

Talvez (estou a ser gentil) exista, por detrás de tudo o que disse ao longo deste texto, uma questão incómoda: qual a natureza e a ideologia da comunidade de língua portuguesa? O que eu defendo é que a nossa comunidade não pode ser pensada como a anglofonia e muito menos como a francofonia, pois o país lusófono originário, Portugal, não tem peso específico para jogar um papel de potência líder da comunidade. Quanto ao Brasil, não deveria o maior país de língua portuguesa repensar o processo de americanização em que está envolvido desde meados do século passado, procurando harmonizá-lo com a sua origem indígena, europeia e africana?

A verdade é que a comunidade de língua portuguesa, pelo menos em termos demográficos, é afro-europeia e não euro-africana (basta olhar os números populacionais para atestá-lo). Do ponto de vista cultural, é obviamente mestiça, sendo os traços africanos dessa cultura cada vez mais evidentes, como já acontece na música. Os ritmos brasileiros, profundamente africanos, há muito que se universalizaram. A cabo-verdiana Cesária Évora pode também ser considerada, com toda a justiça, um produto global. O kizomba e o kuduro, dois ritmos urbanos angolanos, já tomaram conta da maioria dos países de língua portuguesa, incluindo Portugal (os portugueses, finalmente, começam a aprender a remexer os quadris), começando, igualmente, a conquistar outras partes do mundo. A literatura não pode, pois, continuar a ignorar essa nova realidade.

Afinal, Santo António de Lisboa (e de Pádua), na umbanda de Angola, é Ogum.   


*Adaptado de uma comunicação ao XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Língua Portuguesa (Salvador, BA, 13 a 18 de setembro de 2009)

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