Diário de um doente no covidário: “perdi seis quilos e venho impressionado com a malta da Saúde”

Mufid Majnun (Unsplash)

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Digo-vos: venho de lá impressionado e sei que é esta malta da saúde que está a vencer a pandemia. Duas semanas de imobilidade fizeram-me perder massa muscular. Quando cheguei a casa vindo do internamento hospitalar havia perdido seis quilos, que ainda não recuperei (nem faço muito por isso, verdade seja dita), e o reflexo é a fraqueza de pernas, dou agora conta. Tive de me deslocar devagar. Prova positiva, contudo. Estou satisfeito.


sinalAberto desafiou um dos seus leitores a contar, na primeira pessoa, a sua experiência hospitalar, durante o período de internamento, por Covid-19 — primeiro no S. Francisco Xavier e depois no Egas Moniz. Antes, tentara o hospital da Luz, por sua conta e risco, mas não foi admitido. O relato começa por dar conta de como lidou com os primeiros sintomas, a que por vezes se não dá a devida atenção. Mais do que o sensacionalismo gratuito — ainda estamos para saber em que hospital do mundo o serviço de Urgências em tempo de pandemia é um lugar tranquilo — interessa-nos o relato em torno da experiência humana, sem exploração de emoções. É o relato dessa experiência, em formato de diário, que aqui deixamos.


1. Boca aberta

Cruzei-me com dezenas de pessoas como eu que foram surpreendidas pelo bicho. Ponto em comum: ninguém sabe como foi contagiado. No meu caso, saí do refúgio algarvio para vir votar no dia 24 a Lisboa. Antes lá ficara! Deu nisso. E acabei por não poder ir votar!

Depois ainda cometi um erro. Fui abrir a boca. Literalmente. Sempre de máscara e só tomando refeições em espaços abertos, andei sempre seguro e com uma inefável certeza que o bicho não me apanharia. Mas há sempre um erro que a gente comete.

Às voltas com um problema dentário, que até já nem era urgente, fui à consulta. Tudo muito bem equipado e protegido, claro. Salvo para o paciente que tem ali uma linha de tempo demasiado longa e perigosa a expô-lo completamente.

Diz a auxiliar do médico:

– Posso abrir uma janela para arejar?

Olhei espantado:

– Ó minha senhora, já devia estar aberta e a arejar de há muito!

E foi assim, no pouco tempo que estive de boca escancarada, desprecavido, o «carcará» dos tempos modernos aproveitou.

Claro que ninguém o pode garantir. Amigo meu, cirurgião em Portimão, garante-me que as evidências não apontam para aí: «pouco provável que o dentista seja o ponto zero da contagem. Está cientificamente provado que o contato aí é de baixo risco.» Mas todos nós sabemos de que massas somos feitos, certo? Na minha cabecinha, foi assim que tudo começou…


(Jonathan Borba – Unsplash)

2. PRAY

No dia 17 de janeiro comecei a sentir-me afetado e meio febril. Nunca passou dos 38º e qualquer coisa, ia controlando, seguindo indicações do meu médico assistente.

Porém, lá para o dia 19, comecei a sentir-me fraco, sem vontade nenhuma de comer, rodeado de livros de folhas abertas quais cãezinhos de línguas esticadas à espera da carícia do dono. Pior: comecei a ter vivências de perceção falsa da realidade que se mesclavam com a realidade do meu sítio!

Raides por florestas misteriosas e coisas assim. De uma das vezes, pelas 4h da manhã, dei-me conta de uma fonte maravilhosa de água de onde saía água arrebatadora, pujante, tonificadora. Levantei-me e fui para a banheira colocar-me debaixo dessa fonte juvenil… que de repente, claro, de fonte já não tinha nada, mas parecia…e não me dava prazer nenhum!

As minhas queixas eram que a febre tinha passado, mas que estava muito cansado e sem apetite. Eu, lambareiro confesso, sem apetite? Comecei a preocupar-me. Não conseguia ler, ver tv, comer, o meu espírito arrojava-se à vontade do meu corpo, que fenecia sem eu dar por isso…

Alguém do outro lado do Atlântico me perguntou o que poderia fazer por mim. Textuei apenas:

– PRAY!


Autor do livro, “Camões em Macau. Uma verdade historiográfica”, Eduardo Ribeiro conta: “a admissão no São Francisco Xavier foi rápida e feita pelo meu médico-assistente a prestar as informações da minha situação clínica, pois eu já não sabia às quantas andava, nem quase conseguia articular som e muito menos explicar como me sentia. Tiraram-me logo um rx ao tórax que confirmou infeção pulmonar”.

3. O Maestro e o compositor

Sintonizei a Mezzo, um dos meus canais preferidos, que naquele momento estava a dar uma série de concertos de Beethoven dirigidos pelo saudoso Herbert von Karayan.

Aquela imponência do maestro, os sons melodiosos da orquestra, a solenidade com que se rezava aquela «missa», isso sim me encantou, ficando finalmente preso a qualquer coisa que me prendia a atenção e me fascinava. Pensei: é assim que me vou, direto ao paraíso.

Quando acabou, tudo o resto tornou a ser desenxabido. Nada me interessava: nem comida, nem tv, nem livros. A coisa era grave. Perante as queixas, o meu médico assistente resolveu vir a casa auscultar-me à porta. Eram 20h. Ele de um lado, bem protegido, e eu do outro, de tronco nu.

Mal começou a auscultar-me não gostou nada do que ouvia rugir nas minhas entranhas pulmonares. Perguntou-me se respirava bem, e eu na minha inocente ignorância, respondi-lhe que sim, que «só estou cansado».

Mandou-me esperar e foi ao carro buscar um oxímero, de que eu nunca tinha ouvido falar! Mediu-me o oxigênio, e disse-me logo:

– Eduardo, vamos já para o Hospital e sem demora.

Ainda tentou meter-me na Luz, chegámos a ir lá mesmo, mas nada feito: a articulação com os privados ainda estava na forja.

Contactos feitos, informação daqui e dali, voltámos ao básico: hospital da área de residência. Óbvio! – e lá foi ele levar-me: encafuou-me no carrinho dele, cá atrás, janelas todas abertas, máscara especial com que ele logo me aprovisionou, e ala que se faz tarde!!!! Destino: Área de Emergência Respiratória do São Francisco Xavier.


(CDC – Unsplash)


4. O oxigénio dos Alpes

A admissão no São Francisco Xavier foi rápida e feita pelo meu médico-assistente a prestar as informações da minha situação clínica, pois eu já não sabia às quantas andava, nem quase conseguia articular som e muito menos explicar como me sentia. Tiraram-me logo um rx ao tórax que confirmou infeção pulmonar.

Deixados os contactos dele, foi-se e entrei no pavilhão Covid. Não sei que horas eram, talvez umas 22 horas. Haveria de sair dali quase vinte e quatro depois… mas isso eu ainda não sabia. Pensava que era para dali a umas horas voltar a casa!

A sala tinha umas trinta pessoas, todas sentadas. Destinado o meu assento, dali a pouco estava um exímio enfermeiro a fazer-me um cateter numa das mãos, por onde passaria a entrar todos os corticóides e antibióticos em solução aquosa apropriados ao combate da bicheza.

Simultaneamente, colocou-me à volta do pescoço uns tubos de plástico com dois tubinhos pelas narinas adentro e presos às orelhas. Era o famoso oxigénio essencial para que fôssemos esperando, e esperando, até à reversão do que naquele momento era uma hipóxia silenciosa. Vi há uns dias a entrevista de dez minutos da Isabel do Carmo ao Vítor Gonçalves na RTP3 e ela explica bem isso.

Nunca, porém, havia ouvido falar disso e tenho verificado nos últimos dias que as pessoas começam a ter, finalmente, a noção da importância dessas exalações vitais de oxigénio.

Como os meus níveis estavam muitos baixos, puseram a fasquia do valor a ser ministrado nos 4l. Mal senti a frescura e os repiques desse precioso bem nas narinas, disse-me para comigo: é isto que me vai salvar! E pegando no telemóvel, textuei para o meu médico-assistente, provavelmente já em casa: «Pedro, já estou a receber oxigénio diretamente dos Alpes italianos!». Foi o que me saiu da cabeça. Eu estava contente, ele achou piada. Foi o início de uma longa recuperação.


Eduardo Ribeiro, já no interior do hospital Egas Moniz, depois de transferido do S. Francisco Xavier.

5. A caxemira de Macau

O estar atado à botija de oxigénio tinha, claro, um inconveniente: obrigava cada um a ficar resignado e sentado a receber a sua «ração» de oxigénio ”dos Alpes”. A autonomia era de cerca de três metros, o que mal dava para ir ensaiando uns passos de aquecimento.

Lá fora a noite deslizava e a temperatura entrava pelo covidário adentro. Um horror. Mantas foram distribuídas, mas Deus sabe como eu sou muito cioso das minhas coisas e da higiene delas, não gosto de usar a de outros, sabia lá já o quanto tempo aqueles cobertores não eram lavados!

Assim, no meu caso, lembrei-me dos exercícios físicos a que estava habituado a fazer naquelas longas viagens non-stop entre a Europa e HK e pu-los de novo em prática, acelerando o sangue em circulação e distribuindo uniformemente o calor pela carcaça.

De uma das vezes veio de lá de fora um regelo que me deixou aflito. Lembrei-me que tinha vestido umas das calças de caxemira mandadas fazer pela minha Belinha em Macau e de que em Portugal tenho tirado pouco proveito. É verdade: saí de casa deixando as luzes acesas, não trazendo a nova chave da porta da rua que a Administração do Condomínio havia entregue nesse dia, deixando o carregador do telemóvel para trás, mas a caxemira, na hora da verdade, foi escolhida criteriosamente em detrimento da ganga.


(Mufid Mijnun – Unsplash)

6. A hipóxia feliz

Num dos frequentes contactos para administração da medicação (corticóides, antibióticos, Paracetemol, o diabo a sete), um dos enfermeiros mais veteranos das equipas, que simpatizou comigo, disse-me:

– Não se distraia com os cordões no nariz, não pode deixar de ter sempre um fluxo de oxigénio nos pulmões. No seu caso está no máximo, a 4l/h, tem de ser, esteja atento.

E acrescentou-me:

– Sabe, a maior parte morre em casa de morte feliz. Nem dá por que está a morrer. Uma morte santa!

Eu olhava em redor e confirmava que nem ali as pessoas tinham noção do valor do oxigénio! Ficavam zangados com os profissionais de saúde que metiam, insistiam, ralhavam, tornavam a meter, a suplicar-lhes, e eles nada, completamente desorientados sem perceberem nada daquilo. Alguns nem sabiam onde estavam, pois sem fluxo de oxigénio a desorientação adensa e não há milagres. Muito menos ali… no sítio certo!!!!!!

As equipas de profissionais (médicos, enfermeiros, assistentes técnicos), extremamente jovens mas eficazes, simpáticas e extremosas, acabavam por desistir. Eles eram poucos, os doentes eram muitos e, literalmente, muitos deles de ‘pacientes’ nada tinham! Bem pelo contrário.

Acrescentou ele:

– Você vá observando. Aqui fazemos o máximo, mas na verdade cada um deles é que vai escolher o seu próprio destino. Nenhum de nós, de facto, temos de fazer escolhas. A escolha está na capacidade de resiliência de cada um.

Verdade: a sobrevivência no estado puro, ao vivo e em direto, diante dos meus olhos!



7. O estrondo adivinhado

Numa recomposição do pavilhão Covid, motivado por saídas de doentes e de outras tantas entradas, destinaram-me um lugar mais interior, mais resguardado do frio, numa cadeira que me permitia recostar e estender as pernas! A minha postura resiliente e resignada começou a dar nas vistas.

Foram colocados dois homens ao meu lado, um à esquerda, outro à direita. O da esquerda olhava a enfermeira com cara de poucos amigos, não queria o oxigénio, embora ainda fosse tolerando a máscara (que aliás ajudava a manter nas narinas os tirantes de plástico que, colocados ao pescoço e ligeiramente apertados nas orelhas, ali eram muito razoavelmente mantidos sem problemas).

Mal a funcionária se levanta, ele inquieta-se, desobedece, levanta-se, e dirige-se para nenhures. Tem cerca de três metros de autonomia. Não se apercebe do fio. Cambaleia, estico-lhe a perna esquerda a tempo de lhe evitar a queda. Nem cinco minutos depois, lá quer ele ir de novo para junto da mulher que também lá estava, em frente dele. Só tenho tempo de lhe dizer, moderadamente, três vezes:

– Cuidado! Cuidado! Cuidado!

Qual quê! Foi até ao limite, apercebeu-se do puxão, voltou para o lugar. Pensei: este homem ainda hoje vai parar ao chão.

Passada meia-hora fui à casa de banho e à distância de 20 metros ouço um estrondo: aí tínhamos o homem a cumprir com estrondo o seu destino!

O pavilhão estava cheio de gente desta; sem resiliência, sem estoicismo, à deriva completa, desnorteamento total. Mas também tive ocasião de admirar o porte de outros que, com dignidade, ali se mantiveram tesos e disciplinados nesta borrasca decisiva da vida deles. O caso de uma senhora muito bela, por exemplo, que ali se mantinha silenciosa, resignada a esta chapada da vida, fazendo tudo como lhe mandavam! Até bem cuidada foi no seu trajar (tal como eu tive esse cuidado). A dignidade é um bem por demais precioso. Pijamas, robes, chinelos? Ná! Havia ali de tudo, porém, como cá fora: uma amostra da nossa sociedade.


(Isaac Quesada – Unsplash)


8. Mancha de sangue

O caso do homem à minha direita foi bem mais estranho e desconheço o desfecho. Ao fim de tantas horas e horas acordado, ao frio e sob tensão, fazendo por me manter sempre à tona do adequado oxigénio, consigo finalmente adormecer qualquer coisita.

Nessa altura, madrugada de domingo a adivinhar-se, já eu sabia que não ia para casa, mas que tinha indicação para ser internado. Havia que esperar para saber quando e para onde! Talvez por isso, mais tranquilo quanto ao meu destino, me tenha deixado finalmente adormecer…

Acordei com uma médica que se aproxima pressurosa da minha direita, pega-lhe nas mãos, angustiada, e pergunta-lhe:

– Como se sente? Sente o quê neste momento? Senhor F, diga-me, o que sente?

O homem tremia por tudo o que era corpo e só dizia que estava gelado. Olhei de esguelha e fiquei a olhar para a lividez de um homem vivo… mas pouco!

A médica, genuinamente preocupada, aflita mesmo, nada mais conseguia dele, agarrada às suas mãos gélidas.

Impressionante. Deixa-me fugir! Fechei os olhos e adormeci de novo. Mecanismos de defesa. Dali a pouco (quanto tempo?), já nem homem, nem médica, mas o vazio do lugar à espera de ser preenchido. Olho, porém, para uma mancha vermelha no chão, e o que vejo? A mancha, claro, mas com uma cabeça de galo com sua crista no meio da mancha!

O quê? Abano a cabeça a não querer acreditar e penso de novo dos desfoque entre a fantasia e a realidade que já estava tendo em minha casa e defendo-me tornando a fechar os olhos e tentando continuar a dormir.

Por pouco tempo. De novo acordo e olho de novo. A mancha de sangue ainda lá está, mas desta vez com um caco de garrafão de vinho tinto no meio! Oh Deus, é demais!

Tirem-me daqui! Torno a fechar os olhos e sinto então um toque de regresso à normalidade: uma auxiliar a limpar a sangrada toda que ainda lá estava. Agora sim, era real! Alívio.

Cumprida a tarefa, ignorante do destino do homem, sequer o que se terá passado em relação àquela cena de sangue de um qualquer cenário de crime de investigação, fico a matutar nos incomensuráveis mistérios do cérebro humano.


(Mufid Majnun – Unsplash)

9. A doente que foi para casa

No pavilhão havia uma grande consola de onde era controlado todo aquele movimento covidário, no meio daquela trintena de ‘pacientes’. Andavam à procura de uma senhora. Ninguém, porém, respondia. Nada. Ninguém! Mistério…

Na consola a funcionária decide ligar para o número de telefone da utente:

– É a senhora D. ….?

– Sim, sou eu!

– A senhora está onde?

– Em casa. Acabo de chegar a casa!

Silêncio! – percebi que a funcionária absorvia atónita a informação. Reagiu:

– Mas a senhora não estava aqui no pavilhão do São Francisco Xavier?

– Estava, mas vim-me embora! Não estava aí a fazer nada!!!!

– Ó minha senhora, a senhora vai ser internada no Santa Maria, agora! Tem de estar aqui. Tem de voltar…

Agora o silêncio era do outro lado. Parece que meio comprometido… Insiste a funcionária:

– Tem aí alguém com quem eu possa falar?

– O meu filho!

– Então passe-lhe o telefone, por favor!

Eu ouço isto e fico de boca espantada. Há mesmo gente estranha…

Lá se negociou o regresso da doente ao covidário. Pensei para comigo: mais valeria ela ir ter convosco ao Santa Maria! Poupava-se uma viagem. A insanidade das pessoas não tem mesmo limites!!!!!!!


(Fusion Medical Association – Unsplash)


10. O fofo

Um dos meus focos de atenção era a logística montada para fazer movimentar aquele microcosmos. O espaço era pequeno, com uma trintena de internados, todos sentados, com autonomia limitadíssima atados às botijas de oxigénio; porém, ali no covidário, havia muita coisa a mexer, em sede de maquinaria tecnologicamente avançada que ia medindo valores e fazendo exames de paciente em paciente e em grupos humanos especializados que multidisciplinarmente iam cumprindo suas tarefas profissionais: médicas, enfermeiras, assistentes-técnicos, limpeza, auxiliares, e até alimentação.

Por volta das 4 da manhã de domingo, 31, perguntam-me se queria comer. Eu, que praticamente andava há dias sem comer, por fastio absoluto, decido aceitar uma sopa pastosa, quentinha, que comecei a comer e a gostar, com ligeiro sabor a peixe, pensando para comigo:

-Não tenhas dúvidas, Eduardo, para estares a comer isto é porque estás a recuperar. Bom sinal!

A seguir deram-me uma maçã amarela, ouvi que para diabéticos, e comecei a comê-la deliciado e surpreendido. Que coisa boa!

Entretanto, chegou a altura da mudança de giro das médicas, que faziam a passagem do testemunho visitando cada doente e indo caraterizando a situação pessoal de cada um.

Acercando-se de mim, a médica que estava a liderar a ronda aproxima-se e diz:

– Ah! Este senhor é um fofo!

Não me surpreendi. Sou mesmo. E claro que sei porquê. Disciplinado, cumpridor, sem ondas nem ais, sem protestos nem reclamações (e até a comer a sopa pastosa quentinha!), eu era ali o doente ideal que não tugia, não mugia, não berrava, não exigia, dizia que sim a todas as «maldades» (picadelas, medições, controlo do oxigénio, da máscara, etc., etc.) que me faziam. Evidente que eu era mesmo um fofo. Diria mesmo… um fofinho!

É claro que eu, observando bem aquelas estóicas garotas, escondidas em protetoríssimas indumentárias que, queixou-se-me uma delas, eram quentíssimas e pesadas, bem nas via lindas e cheias de força, corajosas e simpáticas.


(Irwan – Unsplash)

11. O da Brandoa

A certa altura trazem-me para a minha direita um senhor que vinha da Ortopedia. Uma queda no Lar tinha-o levado até àquelas paragens do Restelo.

– Não o ponhas aí, não está infetado.

Mas pô-lo, ao lado da botija de oxigénio, que não iria usar…

Ali ficou. A certa altura vêm da Ortopedia com todo o processo dele, com alta clínica, recomendam-lho vivamente e metem-no num dos bolsos. Fica então o homem à espera que a ambulância do Lar da Brandoa o venha buscar. Que bom!

Porém, o tempo passa e nada… e nada…

Eis que uma enfermeira decide que precisa daquele lugar junto ao oxigénio para um senhor acabado de chegar, que bastava olhar para ele para ver que tinha acabado de sair das profundezas do Planeta-Mãe da Bicheza, num tom esverdeado-rosado que não lhe ficava nada bem.

Agarram no pobre homem da Brandoa e querem-no mudar mais para o centro, a uns três metros.

O problema é que o homem era deficiente, não se mexia mesmo. Por alguma coisa teria dado a queda no lar… A decisora e uma ajudante agarram nele e lá o vão puxando, empurrando, sem qualquer colaboração dele para a locomoção, tentando sentá-lo numa cadeira a três metros. O homem aflito a queixar-se, que não se movia.

– Então e lá no Lar, como faz?

– Tenho apoios, suportes.

Debalde, foi sendo levado à força (Ah meu Deus que não sou paga para isto!), e lá ficou sentado… à espera da viatura da Brandoa. Nunca mais o vi. Quanto tempo terá ele ficado – sem covid – pela ambulância? Nem quero pensar.

Alô, Brandoa!


(Mulyadi – Unsplash)

12. Ardor, paixão, entrega

Ainda estou a escrever estes apontamentos da minha experiência de pouco menos do que 24 horas na Unidade de Emergência Respiratória do São Francisco Xavier (HSFX) de 30 a 31 de janeiro. Ainda tenho mais umas relativas a este período.

Depois da minha transferência para o Egas Moniz na noite de 31, fiz aqui uma recuperação extraordinária de que, a exemplo do HSFX, irei fazer a minha narrativa aligeirada. Mas muitas menos. Irei para casa continuar a lamber as feridas…

Aqui e agora, quero relevar uma coisas extraordinária que observei no SFX: a tranquilidade daquelas equipas, com um sentido de saberem bem o que faziam, a competência, o olhar compassivo e simpático. Tudo equipas jovens (médicas, enfermeiras), bem como as outras (economato, limpeza, auxiliares de diagnóstico) sem as quais é impossível a gestão de um espaço como aquele, cheio de gente aflita e sofredora, tensa e desnorteada.

Digo-vos: venho de lá impressionado e sei que é esta malta da saúde que ESTÁ a vencer a pandemia, designadamente aos mais jovens que iniciaram (muitos já durante a pandemia) a sua novel carreira profissional.

Estou muito orgulhoso de ser português!…


13. Eu! Eu! Eu! (Anúncio de internamento para «breve»)

Eram umas 15h de domingo, 31, e eu continuava sentado a ser picado nas artérias (medição do oxigénio), injetado através do cateter (antibiótico e corticóides), a respirar o «dito dos Alpes», a inalar de seis em seis horas dos pufs (inaladores ou bombas), sabendo já que tinha indicação de internamento, mas continuando à deriva no alto mar, pois o meu telemóvel tinha deixado de ter carga, não tinha levado carregador, e continuava numa ansiosa expetativa.

Eis senão quando… aparece-me a médica a dizer-me que já tinha estado com o meu Pedro (o meu médico assistente), a quem eu tinha indicado desde o início como o meu único ponto de contacto fosse para o que fosse. Que ele estava ao corrente de tudo e que já tinham a indicação de que eu ia ser internado no Egas Moniz.

Um alívio maravilhoso: saber-me localizado, não perdido, e que a passagem pelo covidário estava a chegar a seu termo!

Bom, mas ainda foram mais umas seis horas. Só lá para a noite, de facto, saí dali. Ouço alguém a chamar:

– Francisco Ribeiro para o Egas.

Levanto o braço:

– Não será Eduardo Ribeiro?

Era. A médica aproxima-se de mim, sorridente, e diz-me:

– Como é tão bom verificar que certos doentes funcionam ainda melhor do que nós da cabeça.

Um desabafo mais do que natural; só não percebe a tensão em que trabalham aqueles profissionais quem é burro ou desatento.


(Olga Konokenko – Unsplash)

14. Simbad?

Com quase 24 horas de convidário sempre sentado e a fazer uma gestão criteriosa das necessidades e ocorrências, quando entrei pelas 22h no Egas descomprimi finalmente.

Felizmente, por uma noite, e mais que traçado o meu perfil, a médica que fazia a articulação entre o HSFX e o HEM decidiu (obrigado!) colocar-me no único quarto com cama disponível, um misto com casa de banho privativa.

A senhora que lá estava denotava atitudes estranhas, não podia sair da cama, não lhe podiam dar água e gritava muito, ora querendo o mundo ou o seu contrário. Mal entrei e olhou para mim, enroscou-se nos lençóis, enquanto olhava fixamente para mim, e começou a dizer que «sim», que «sim», num tom repetitivo deveras estranho a fazer lembrar o canto das sereias que tentaram Ulisses.

A médica tentou dar-me umas palavrinhas introdutórias ao problema da senhora, mas eu já tinha percebido tudo e não quis saber de mais nada, fazendo, com um gesto subtil de mão direita, um movimento de quem está-se mesmo nas tintas para a senhora. O que eu queria era a volúpia dos lençóis, ficar finalmente deitado, estender o esqueleto, esparramar-me de Seca a Meca à minha vontade, libertando-me das forças tensoras que me haviam até então constrangido, restringido, manietado. Oh liberdade!

Quando me apanhei no vale dos lençóis, oh Deus!, eu soube o que é a verdadeiríssima volúpia do estar só e do ser livre.

Na cama ao lado, a outra paciente pensaria o mesmo, pois continuava a clamar que «sim», que «sim»… E eu com isso?

Talvez pensasse não em Ulisses (claro!), mas no SIM…BAD, o Marinheiro, um dos meus heróis dos anos 1950’s…


15. Rio Jordão

Se a do lado pensava em Simbad o Marinheiro ou não, o problema era dela. O que eu sei é que acordei bem cedo, por volta das cinco da manhã a atravessar o rio Jordão. Era tanta água, Deus meu!

Toquei o botão e lá veio alguém pressurosamente de dentro (para quem teve de acordar e vestir aquela vestimenta farfalhuda de proteção e acorrer, achei bastante rápido). Vieram encontrar-me inundado, corpo e cama, lençóis, pijama, numa leveza despertada pela redução da temperatura que me deixara de espírito alvoraçado a clamar por evocações bíblicas.

Porque, não sei porquê, apesar de ter ali bem perto a fluir o Tejo ibérico, o que me ocorreu é que acabara de ser abençoado em terras santas da Palestina em pleno rio Jordão. Imagem bíblica salvífica que tinha de ter algum significado: o de que a salvação vinha a caminho!


19. Orquestra afinada

Mal me passaram, bem cedo, para o quarto com o cavalheiro da minha idade, já há uma semana internado, a minha preocupação passou a ser restabelecer imediatamente o contacto com o exterior.

Consegui arranjar um carregador e conectei-me com o ciberespaço. Liguei logo ao meu médico-assistente que, a rir com gosto, disse-me logo:

– Bom, vejo que conseguiste o carregador. Voilà!

E à minha pergunta ansiosa, respondeu-me:

– Sim, sei exatamente onde estás e como estás!

Um alívio de todo o tamanho. Tinha apostado tudo nele para contactos com o exterior, e dera certo.

A partir daí, a rotina diária do internamento na unidade simples do Covid (havia mais duas, uma intermédia e uma intensiva): exames, medicamentos, comer, dormir, ser paciente, sem história.

Mais uma vez dei comigo a apreciar a intensa logística para manter aquele espaço, fechado a sete chaves para o bicho dali não escapar, tudo mantido com equipas multidisciplinares muito jovens, e eu a pensar:

– A calma destes jovens, cientes de que é deles que depende a vitória final desta guerra! O rigor, o profissionalismo, a abnegação, o empenho! Ainda há um ano encaravam o inimigo com receio, agora a gente percebe que eles SABEM que vão vencer. Eles. Mais ninguém.

Nesta multidisciplinariedade, eu tinha de os envolver a todos, começando nos médicos, enfermeiros e assistentes técnicos, acabando no pessoal dos transportes, da alimentação, da limpeza, do asseio dos doentes… tudo ali articulado que nem uma orquestra. Fiquei varado quando, de dois em dois dias, me entram quarto adentro dois mocetões com uma pequena unidade móvel autónoma, da qual sacam um dispositivo quadrado rijo, mo encostam às costas e tiram-me, comigo na cama, uma radiografia aos pulmões!!! Com esta é que eu não esperava!

Ocorreu-me a mesma dúvida de quando assisto a um concerto sinfónico ao vivo e me interrogo sobre a valia da mais insignificante componente da orquestra:

– Aquele contrabaixo faz mesmo falta ali? E aquele oboé? Ah, vejam, e aquele fagote! Será? tudo faz falta e de todos depende a harmonia e a beleza sincronizada das partes.

É claro que notei que ainda há arestas a desbastar, mas…. meus amigos, com muita sinceridade, o essencial tinha sido bem aprendido e estava lá! Que orgulho, Deus meu! Esta malta da saúde sabe o que faz e vai vencer!

Façamos nós a nossa parte!


20. Livre

Ao fim de uns dias em casa, a lamber as últimas feridas, vejo finalmente lá fora o esplendor do sol alfacinha. Tempo de deixar de dar à língua e de prosseguir.

Após três dias de confinamento doméstico imposto, subo à grande superfície perto de casa, vencendo degraus, devagar, como que a tatear a solidez do chão.

Os pulmões correspondem na totalidade, enchem-se sem tibieza de oxigénio, sinto que não perderam quaisquer dos créditos para os quais os preparei ao longo de anos.

Donde vejo fragilidade é nas pernas. Duas semanas de imobilidade fizeram-me perder massa muscular. Quando cheguei a casa vindo do internamento hospitalar havia perdido 6 quilos, que ainda não recuperei (nem faço muito por isso, verdade seja dita), e o reflexo disso foi a fraqueza de pernas, dou agora conta. Tive de me deslocar devagar. Prova positiva, contudo. Estou satisfeito. Anseio por 2ª feira para fazer a prova real.

No Hospital as garotas alertam-me: «Não se fie com a imunidade, continue a proteger-se. Há mais estirpes a circular». Ouço agora que já fiquei com anticorpos e que, por isso, só vou precisar de uma toma da vacina. Ela que venha, continuo à espera.

Entretanto, quase-quase no mesmo dia, duas das pessoas que mais amo, uma no Reino Unido (a mana Dé), a outra nos Estados Unidos, a amiga B., acabam de ser vacinadas! Aleluia!


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