“E tudo era possível”: ensaio fotográfico sobre um poema de Ruy Belo

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A revisitação de um tempo antigo, já passado, situado na infância do escritor, esse sujeito poético que cresceu primeiro a ler, a viajar através dos livros, antes de partir, finalmente, para o mundo, dialoga aqui com imagens que se entrevêm, numa espécie de jogo às escondidas. A fotografia, mais do que mostrar(-se) parece esconder(-se). Coexiste, então, a memória sobre um passado com que a escrita foi desenhada e o presente com que a imagem procura resgatar esse tempo longínquo, que, no instante da leitura poética, não é mais que o presente enquanto narrativa do passado.


E Tudo Era Possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido



Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido



E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer



Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer



“Homem de Palavra(s)”, Ruy Belo, 1970

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