Efeitos colaterais da covid-19

Stefan Heesch (Unsplash)

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Entre Janeiro e Julho deste ano fizeram-se menos cerca de 4,6 milhões de consultas presenciais face a igual período de 2019, e o mesmo se passa com as cirurgias. Só na região Centro, ficaram 90 mil mamografias por fazer e, segundo prevê o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), Vítor Rodrigues, “a médio prazo, haverá um aumento da mortalidade e diminuição da sobrevivência e qualidade de vida”. Os efeitos colaterais da covid-19 são impressivos e silenciosos, quando comparados com a obrigatoriedade do uso de máscara e demais recomendações determinadas pelo Governo.

É claro que os registos de pessoas infectadas com covid-19 são assustadores e a barreira dos quatro mil novos casos diários em Portugal já não é uma extravagância estatística: o website da Direcção-Geral da Saúde (DGS) conta que, em finais de Outubro, Portugal tenha uma taxa de 240 casos por 100 mil habitantes, e anuncia que os testes rápidos começam a ser usados a partir de 9 de Novembro. Perante este quadro, importa perceber como está o lado menos visível (e menos mediático) da prestação dos cuidados de saúde, que riscos estão aí que não os vemos e não fazem notícia – apenas são sentidos e vividos pelos próprios.


Alin Luna (Unsplash)

“É preciso reagir e construir um plano operacional, para os hospitais e centros de saúde, capaz de responder ao problema imediato da pandemia e continuar a tratar os doentes não-covid com patologias crónicas e agudas”, adverte o representante regional da Ordem dos Médicos (OM), Carlos Cortes, julgando que “a actuação do Ministério da Saúde esteve muito aquém daquilo que era exigido para este momento em que os casos estão a aumentar e em que é preciso manter toda a actividade normal para os doentes não-covid”.

“A pandemia está a deixar muitos doentes para trás e é urgente mobilizar os recursos do sistema nacional de saúde para se resolverem os problemas das pessoas», foi uma das principais mensagens que o bastonário da OM, Miguel Guimarães, levou a Belém, no dia 21 de Outubro, numa audiência convocada pelo Presidente da República, em que também estiveram os antigos bastonários, depois de terem publicado uma carta aberta à ministra da Saúde sobre as dificuldades do SNS e os doentes sem acesso aos cuidados de saúde.


Carlos Cortes, presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (CRCOM)

“Com a evidência científica actual e a experiência destes últimos meses, percebemos que a hiperfocalização dos serviços de saúde na resposta à covid-19 foi exagerada e que teria sido importante a concretização de um plano para que os doentes não-covid pudessem ser acompanhados”, expressa o presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (CRCOM).

Em declarações ao sinalAberto, Carlos Cortes argumenta que uma das principais dificuldades na gestão da resposta à covid-19 “está relacionada com a falta de evidência científica robusta que, assim, introduz um grau de incerteza nas medidas que são adoptadas”. No entanto, critica não ter existido “qualquer antecipação” relativamente à covid-19, parecendo-lhe que “o Ministério da Saúde está a lidar com esta pandemia como se ela tivesse surgido agora em Portugal”. 

“Como é sabido, o facto de o Ministério da Saúde ter obrigado ao cancelamento da actividade normal das instituições de saúde terá tido graves repercussões sobre os doentes, nomeadamente os portadores de patologias cardiovasculares, oncológicas e qualquer outra patologia crónica, tal como a diabetes”, insiste o mesmo responsável.

No entanto, foi a própria Ordem dos Médicos que pediu o adiamento de consultas. Mais concretamente, recomendou que se ponderasse o adiamento de “consultas presenciais não essenciais”, tendo em vista a protecção dos doentes e a disponibilização de profissionais para outras tarefas mais urgentes na assistência sanitária, atendendo ao novo coronavírus.


Menos episódios de urgência nos hospitais

Um comunicado assinado, em Março, pelo bastonário Miguel Guimarães e pelo gabinete de crise da OM lembrava que ainda continuava “por publicar e divulgar o Plano de Contingência Nacional”. Refira-se que, no mesmo documento emitido por essa organização profissional, era sublinhada a concordância com as medidas de contenção então anunciadas pelo Governo, sobretudo centradas na região Norte, para “reduzir ou atrasar a disseminação da doença na comunidade”.

No entender de Carlos Cortes, “existiu, por outro lado, um receio dos doentes em se dirigirem aos hospitais e centros de saúde, particularmente os mais idosos, que são os mais desprotegidos e os que mais sofrem de doenças crónicas”. Constata o mesmo dirigente regional que, “ainda hoje, muitos doentes portadores de patologias crónicas só recorrem aos serviços de urgência quando as suas patologias atingem um grau de descompensação já bastante avançado, o que obriga a uma percentagem de internamento maior que em anos anteriores”.

O presidente do CRCOM refere, a propósito, dados recentes nacionais do Ministério da Saúde que revelam que, de Janeiro a Julho de 2020, em relação ao período homólogo do ano passado, nos cuidados de saúde primários (CSP), foram realizadas menos quatro milhões e 663 mil consultas presenciais (4.663.066), ao passo que as consultas não presenciais aumentaram em perto de quatro milhões (3.808.212); nos mesmos sete meses deste ano, foram feitas menos 40 mil consultas médicas ao domicílio (40.393).


Carlos Cortes, representante regional da OM

Atendendo à sua globalidade no país, o representante regional dos médicos reconhece que foram feitas cerca de um milhão a menos de consultas, “o que representa uma diminuição de cinco por cento”. O aludido estudo também indica que, a nível nacional, “os contactos de enfermagem diminuíram em quase dois milhões”. Ou seja, verifica-se uma diminuição relativa de 16%.


Diminuição de 24% nos actos cirúrgicos

Para Carlos Cortes, a nível hospitalar, a realidade, no que respeita a consultas externas, “é muito sobreponível, em termos de valores absolutos, mas a diminuição relativa representa uma descida de 14%”. No que concerne à produção cirúrgica, incluindo os actos urgentes e programados, “houve uma diminuição de 24% de actos”, correspondendo a “um valor absoluto de 99.095 cirurgias que não foram realizadas, comparando com os primeiros seis meses do ano anterior”.

Outra observação retida no dito estudo é a de que as idas às urgências hospitalares diminuíram 27%, implicando menos 990.005 registos. “O que é mais preocupante é que se verificaram diminuições importantes nos doentes triados como vermelho e laranja”, manifesta o presidente do CRCOM, explicando que “os casos mais graves à entrada da urgência” decaíram, respectivamente, em 18% e 21%.


Jafar Ahmed (Unsplash)

O mesmo dirigente da Ordem dos Médicos conclui que estes dados sobre as urgências “espelham muito bem o receio que os doentes tiveram em utilizar os serviços de saúde”. “Se pensarmos que os primeiros casos de covid-19 apareceram somente em Março e que, em Janeiro-Fevereiro, as pessoas utilizaram normalmente os serviços de saúde, percebemos facilmente que os meses de pandemia foram ainda mais catastróficos em termos de resposta do Serviço Nacional de Saúde [SNS]”, comenta Carlos Cortes, dando-nos conta de que, relativamente aos meios complementares de diagnóstico, foi efectuado “menos de um terço dos actos” na totalidade do país.

Na região Centro, ao considerarmos um estudo concretizado pela Secção Regional da OM, tendo como referência os registos do MS, “os dados são sobreponíveis aos nacionais, em termos relativos”. Assim, nos CSP, foram realizadas 1.352.664 consultas nos primeiros seis meses de 2020. Porém, no mesmo período de 2019, tinham sido efectuadas 2.203.673 consultas. Isso corresponde a uma diminuição de 5% no número de consultas a nível dos cuidados de saúde primários.


Consultas externas decaíram em 14%

Na actividade hospitalar, as consultas externas diminuíram em 14%, já que foram registadas menos 187.529.


Quanto às intervenções cirúrgicas programadas, Carlos Cortes confirma que foram realizadas menos 19.690 e também menos 1.496 intervenções urgentes. No total, a diminuição foi de 21.186 cirurgias, o que sugere uma descida de 28%.

Confirmando-se ainda menos 181.109 episódios de urgência hospitalar, houve também a este respeito uma descida de 28%. Ou seja, “mais de um quarto das pessoas decidiram não ir aos serviços de urgência”, comparando com o ano precedente.

Por isso, o presidente do CRCOM insiste que estes dados, na sua globalidade, nos dizem que “houve uma diminuição importante da actividade na prestação dos cuidados de saúde e que os doentes tiveram receio em dirigir-se aos hospitais e centros de saúde”. Todavia, o representante regional dos médicos mantém a mesma impressão: “Sabemos que ainda hoje existe receio, por parte dos doentes, em utilizar os serviços de saúde, mesmo em casos clinicamente urgentes.”

Carlos Cortes corrobora que a “actividade médica tem aumentado exponencialmente, nestes últimos meses, fruto dos múltiplos dispositivos criados pelo Ministério da Saúde e pela Direcção-Geral da Saúde [DGS] no acompanhamento dos doentes covid-19 positivos e dos seus contactos”. Nessa conformidade, “os profissionais de saúde são obrigados a passar horas, diariamente, em contactos telefónicos e com múltiplos registos de seguimento destes doentes”.

“A título de exemplo, o acompanhamento, por um médico de família, de um doente com covid-19 que se encontra no domicílio pode demorar uns vinte minutos”, nota o presidente do CRCOM, frisando que o acompanhamento de uma dezena de doentes, “o que é frequente, demorará mais de três horas em telefonemas múltiplos e registos informáticos”. Este dirigente regional da OM, em tom crítico, diz que “tem sido evidente que os programas informáticos desenvolvidos pelo Ministério da Saúde não estão adaptados às necessidades desta pandemia e que impedem os médicos de desenvolver adequadamente a sua actividade”.


Alberto Barbarisi (Unsplash)

E Carlos Cortes reforça que também ”tem sido evidente” a falta de organização e de liderança, “em toda a linha”, no combate a esta pandemia. “Os hospitais estão desarticulados entre si, não existe nenhuma tradução no terreno do plano Outono-Inverno do Ministério da Saúde e não há um plano concreto de recuperação das listas de espera”, declara ainda o nosso entrevistado, em 28 de Outubro.


“Existência inicial de uma forte liderança técnica”

A 27 de Setembro, a DGS informava que a pandemia covid-19 já era responsável por 1.953 mortos e por 73.604 infectados, os números de hoje são outros, porque acrescidos com o evoluir da situação nacional. No entanto, retomando aqueles valores de finais do mês de Setembro, convidámos Pedro Lopes Ferreira, do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra (CEISUC) a reflectir sobre esses dados e a acção do Governo.


Pedro Lopes Ferreira, director do Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra (CEISUC)

Segundo o director do CEISUC, esses valores correspondiam, respectivamente, às taxas de 192 e de 7.224 por milhão de habitantes, o que colocava, então, Portugal nas 43.a e 53a posições em relação aos 215 países monitorizados pelo sítio electrónico worldometers. Como constata Pedro Lopes Ferreira, tais valores colocam-nos “à frente” de países como  Bélgica, Espanha, França, Luxemburgo e Suécia. Nesse quadro, a Itália, a Irlanda, os Países Baixos (Holanda), o Reino Unido e a Suíça registavam mais mortos do que o nosso país. E no que se refere à Islândia e à Rússia tinham mais infectados por milhão de habitantes.

Até 27 de Setembro e desde o início da pandemia, tinham sido recuperados 47.647 doentes, correspondendo esse número à 48.a posição na mencionada lista de países.

No entender deste catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), esses “relativamente bons resultados do combate à pandemia em Portugal demonstraram a existência inicial de uma forte liderança técnica baseada na evidência e na ciência, e uma forte liderança política por parte do Ministério da Saúde” (MS). “Foram também consequência do bom comportamento, em geral, dos cidadãos e das organizações locais e informais que acataram as indicações que iam sendo emitidas pelo MS, ficando em casa e mantendo o necessário distanciamento físico”, reconhece Pedro Lopes Ferreira.

Para este co-coordenador do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) e do Observatório Português dos Cuidados Paliativos (OPCP), “é justo realçar o papel de uma parte significativa de profissionais de Saúde do Serviço Nacional de Saúde [SNS], determinante para o êxito inicial do combate a esta pandemia”. “Devemos-lhes o tempo que dedicaram à profissão, aos cidadãos suspeitos de infecção e aos doentes infectados, às ansiedades e ao medo de serem infectados e poderem infectar as suas famílias mais próximas”, reconhece o catedrático da FEUC que, entre outras responsabilidades no domínio da Saúde, coordena o mestrado em Gestão e Economia da Saúde e a pós-graduação em Economia e Gestão nas Organizações de Saúde da FEUC.


Crescem valores do impacto da covid-19

“Mais recentemente, eventualmente como resultado do cansaço de mais de quatro meses de confinamento e da pressão da economia, os portugueses começaram a relaxar um pouco as suas guardas e, coincidindo com o começo da época de férias, da praia e das festas, os valores do impacto da covid-19 começaram a crescer”, confirma Pedro Lopes Ferreira, declarando ao sinalAberto: “Infelizmente, prevê-se que esta situação possa piorar com o início das aulas no ensino secundário e no ensino superior, associadas a uma utilização mais intensa dos transportes públicos.”   

Embora admita que o SNS tenha cumprido a sua missão, dando “conta do recado”, o director do CEISUC apercebe-se de que “nem tudo correu bem”. “Houve situações que nos devem obrigar a repensar muito e a tomar novas decisões relativamente aos sistemas de segurança social e de saúde de que os portugueses usufruem”, sublinha.

Em seu entender, uma das primeiras situações que teve consequências directas e colaterais na vida das pessoas “começou com o cancelamento, por parte das unidades de saúde e dos serviços prestadores de cuidados da actividade não-covid”. Isso porque não houve, em muitos casos, “capacidade das organizações em criar áreas não-covid onde os utilizadores das consultas externas ou dos exames e testes laboratoriais mais urgentes e necessários, ou mesmo alguns internamentos e cirurgias, pudessem continuar a receber cuidados”. “Mesmo que fosse através de um contacto não presencial!”, releva este co-responsável pelo OPSS.

Daí que, como verifica, o resultado tenha sido “a redução de milhões de consultas em cuidados primários e hospitalares e uma diminuição muito significativa de cirurgias”. “Verdade se diga que, em algumas unidades do SNS, isto não aconteceu e que, após o pânico inicial (perfeitamente compreensível), conseguiram retomar grande parte da sua actividade assistencial”, observa Pedro Lopes Ferreira, comentando que “estes também fazem parte dos profissionais de saúde a quem devemos agradecer eternamente, mesmo não tratando de doentes infectados”. 


Organizações sem supervisão nem contrato com o MS

Outra situação que merece a atenção do catedrático da FEUC é a que se tem passado em lares e instituições particulares de solidariedade social (IPSS) nacionais em relação aos mais velhos. Na sua opinião, “seria muito importante garantirmos que as unidades que recebem estas pessoas mais velhas têm condições estruturais de equipamento e de recursos humanos para as acolher”. “E não estou a falar dos lares clandestinos. Estou-me a referir a todas aquelas organizações que não têm qualquer supervisão nem contrato com o Ministério da Saúde. Será que faz sentido estarem abertas ao negócio?”, interroga.

“Além deste aspecto, seria importante que estes lares ou IPSS fossem obrigados, pelo menos, a contratar apoio médico e de enfermagem”, recomenda Pedro Lopes Ferreira, declarando ao sinalAberto que, “na maioria dos casos, recebem utentes idosos com a multimorbilidade que é inerente a estes grupos etários”. Assim, acusa: “É um crime e uma falta de respeito para com os utentes não disporem de um acompanhamento clínico. Se nos lembrarmos de Reguengos de Monsaraz, nem sequer um processo clínico, por pequeno que fosse, existia com a referência das tais morbilidades!”

Por isso, este responsável alerta para a necessidade de se alterar a legislação que não obriga à existência de tal acompanhamento. Até porque, como salienta, “a solidariedade social e a saúde têm de interagir para bem dos utentes destas organizações”.

Ainda a propósito das consequências directas ou colaterais do novo coronavírus neste período atípico, Pedro Lopes Ferreira repara, novamente, na forma “como os mais velhos de nós, acolhidos pelos lares e IPSS, têm sido tratados durante a pandemia”. A seu ver, a solução tomada foi, quase sempre, a de “prendê-los” nas instituições, “organizações estas que permitiam a entrada e a saída dos profissionais”, os quais poderiam ser portadores do vírus. Porém, “as visitas foram imediatamente canceladas, não sendo, na maioria dos casos, criadas formas, com acrílico ou com tecnologia, para que o afastamento físico a que estavam obrigados não se tornasse num afastamento social”. “Não teria sido necessário que tivesse acontecido desta maneira e a solidão e a percepção de que foram ignorados pela família reinasse!”, critica o académico e investigador.

Sete meses decorridos desde o início da pandemia e, certamente, “muito o SNS e os seus profissionais aprenderam neste período”. No entanto, “a incerteza mantém-se quanto à segunda (ou terceira) vaga da covid-19”, supondo-se que “esta vaga ir-se-á confundir, necessariamente, com os sintomas gripais”. Assim, “os momentos maus ainda não passaram”, adverte Pedro Lopes Ferreira.


Rastreios de base oncológicos suspensos

Um comunicado de imprensa, em 9 de Setembro, a alertar para o facto de o adiamento do diagnóstico ao cancro digestivo elevar as taxas de mortalidade, comprova a atenta e intensa actividade por parte da Europacolon Portugal – Apoio ao Doente com Cancro Digestivo, instituição particular de solidariedade social (IPSS) com sede no Porto e criada em 2006.

No mesmo documento, esta associação que integra a organização pan-europeia Europacolon informa que, desde Março, foram adiadas mais de quatro milhões de consultas em centros de saúde (CS), bem como um milhão de consultas das várias especialidades médicas e mais de 100 mil cirurgias. Situação que, conforme sustenta a ex-Associação de Luta Contra o Cancro do Intestino, contribui para que os 50 mil diagnósticos anuais de doenças oncológicas não se tenham concretizado na sua plenitude.

“Os rastreios de base também estão paralisados há meses, entre os quais o do cancro do intestino, que é o de melhor custo-benefício”, denunciava a Europacolon Portugal, num texto assinado por Vítor Neves, anotando que quanto “aos poucos [rastreios] que se realizam e testam positivo ficam meses à espera da consequente colonoscopia total”.

No referido comunicado de imprensa, afirma-se que, em alguns hospitais, “o prazo de realização deste exame ultrapassa os 12 meses”. “E esta situação é muito grave!”, expressa o presidente desta associação de apoio aos doentes oncológicos do aparelho digestivo, antecipando o Dia Nacional do Cancro Digestivo, assinalado a 30 de Setembro.

Vítor Neves, que entrevistámos na tarde de 16 de Setembro, voltou a manifestar preocupação “com a falta de resposta e o atraso do diagnóstico e de tratamento do cancro digestivo”. “E, pior do que isso, a ausência de resposta estratégica e transparente do Ministério da Saúde para resolver este problema, pois, se nada for planeado, teremos um futuro com taxas de mortalidade ainda mais elevadas no que diz respeito a estas patologias”, acentua o dirigente da estrutura associativa que visa contribuir para a diminuição do número de mortes por cancro intestinal, além do apoio que dispensa aos familiares, no sentido de melhorar a respectiva qualidade de vida.


“Desorganização” dos cuidados nos doentes crónicos

A Europacolon Portugal verifica que a “atitude de desvalorização” e a “desorganização dos cuidados nos doentes portadores de doenças crónicas” estão “a avolumar danos na população portuguesa, nomeadamente a causar diminuição da sobrevivência e perda de qualidade na estabilização das várias doenças oncológicas”.

Em entrevista ao sinalAberto, Vítor Neves recorda que, “já desde Abril, os especialistas desta área começavam a avisar dos prejuízos nas pessoas que não estavam ligadas nem atingidas pela pandemia, os quais iriam ser muito mais graves do que propriamente os directamente relacionados com a covid-19”. Nesse sentido, o dirigente associativo esclarece que os cancros digestivos – que abrangem um conjunto de vários tumores malignos no intestino, no pâncreas, no estômago e no fígado – “quando não diagnosticados nem tratados atempadamente, reduzem significativamente a qualidade e a esperança de vida dos doentes”.

Ao considerar o cancro digestivo como um problema de saúde pública, Vítor Neves defende que, “para evitar problemas maiores”, é necessário um rastreio atempado” em pessoas com idades compreendidas entre os 50 e os 74 anos, podendo ser antecipado quando há antecedentes familiares directos ou a presença de sintomas relacionados com a doença.

Confirma o presidente da Europacolon Portugal que, por ano, surgem cerca de 17 mil novos cancros digestivos no nosso país, dos quais 10 mil não sobrevivem. “Se a este número adicionarmos a falta de diagnóstico que estamos a viver, teremos um valor ainda mais elevado”, adverte. Fundamentando-se nos dados estatísticos, o engenheiro Vítor Neves sustenta: “Não podemos ficar parados por causa da pandemia. Existem outras doenças que matam e em número mais elevado que a pandemia”. Assim, julga que a tutela “devia ter uma estratégia para retomar e continuar com a prevenção de doenças oncológicas, pois só no caso do cancro digestivo é a saúde de muitos cidadãos portugueses que está em causa”.


Vítor Neves, presidente da Europacolon Portugal

“Com a covid-19, nas estruturas dos hospitais e dos centros de saúde, tudo foi reestruturado, vocacionado e direccionado para o tratamento da pandemia, parando o que não tem a ver com ela, excepto nos casos muito urgentes”, contesta o dirigente associativo, não aceitando que, até à data da entrevista ao sinalAberto, os centros de saúde ainda continuassem praticamente “fechados”, excepto nas situações mais graves.


800 novos casos de cancro digestivo por mês

Com as dificuldades de acesso aos CS, pela interrupção da sua actividade regular, “as pessoas não podem, normalmente, queixar-se ao seu médico de família de alguns sintomas que possam ter e deixam, assim, de ser direccionadas para as consultas de especialidade nos hospitais”. Ou seja, os diagnósticos das doenças oncológicas entretanto realizados “estão a aparecer pela via da urgência e não através da consulta de especialidade”, clarifica Vítor Neves, lembrando que, nesta área das doenças oncológicas digestivas, são detectados “800 novos casos por mês”, de acordo com os registos até 2019.

Casos esses que, “por causa da covid-19, não são agora diagnosticados, mas também não desaparecem”. “Aquilo que vai acontecer é que aparecerão tarde demais! Em Oncologia, embora a ciência tenha avançado muito e a taxa de sucesso seja muito grande, temos de tratar dos tumores o mais cedo possível”, reafirma o presidente da Europacolon Portugal, advertindo para a consequente “diminuição da sobrevivência” e para o “aumento do sofrimento das pessoas, bem como dos custos sociais, com reflexos no orçamento nacional da Saúde, porque os tratamentos de cancros em fase avançada são todos muito mais caros”.

Recuperando o texto do aludido comunicado, Vítor Neves diz que existem “dois factores que têm de mudar urgentemente”. “Se, por um lado, o Ministério da Saúde tem de garantir as consultas, os rastreios e os tratamentos, por outro, os portugueses não podem ter medo de ir ao hospital, têm de confiar no sistema e perder o medo de sair à rua”, repara este dirigente associativo, assegurando que “a Europacolon está disponível” para apoiar a comunicação com a população e com o MS, visando “delinear uma estratégia de retoma aos diagnósticos e tratamentos do cancro digestivo”.

Vítor Neves propõe três acções estratégicas que, na sua opinião, devem ser desenvolvidas a curto prazo. A primeira prende-se com a criação e a divulgação de um programa excepcional de recuperação das listas de espera para cirurgias, consultas e exames complementares de diagnóstico, “com divulgação pública das respectivas métricas”. A este respeito, o dirigente associativo reconhece que as unidades assistenciais do Instituto Português de Oncologia (IPO) “estão a funcionar bem”. Contudo, “as listas dos exames complementares de diagnóstico estão muito atrasadas”.


Centro Regional de Oncologia de Coimbra – Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil

A segunda sugestão da Europacolon Portugal aponta para a implementação dos rastreios de base populacional ao cancro do intestino, com a publicação mensal do número de testes efectuados e das médias de adesão, de forma transparente. “Morrem diariamente mais de 12 pessoas com cancro do intestino. E há um método de rastreio para o prevenir!”, recomenda, alegando: “O diagnóstico precoce é o modo mais barato que existe… É bom que o Governo pense nisso!”

A concluir, Vítor Neves enfatiza que “é necessário que o Ministério da Saúde, em especial, olhe para as necessidades dos portugueses, doentes ou não”. Assim, em torno de uma concertação de objectivos e de organizações (assistenciais ou não), o presidente desta associação recomenda “uma acção multidisciplinar”, atendendo “à ineficácia e à incompetência que estão subjacentes a muitas funções”. “Há coisas que, agora, a covid-19 já não justifica!”, comenta, acusando a necessidade de se aumentar o investimento em recursos humanos e equipamentos, no SNS, “em verbas equivalentes às dos vários países europeus”.


A covid-19 “pôs a nu” as fragilidades

O presidente da direcção nacional da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) confirma, por seu lado, que durante vários meses, se atrasou o diagnóstico e a orientação de pessoas que, eventualmente, tinham cancro mas que ignoravam tal situação, em resultado da pandemia. “Os números são brutais!”, declara Vítor Rodrigues, doutorado em Saúde Pública e professor da Faculdade de Medicina de Coimbra, ao final da manhã de 23 de Setembro, quando nos recebeu nas instalações da instituição que dirige.


“A parte hospitalar esteve um pouco à deriva”, constata Vítor Rodrigues

Para este responsável, “em termos epidemiológicos oncológicos, o SNS já estava debilitado”, mas a covid-19 “pôs a nu” as fragilidades. “A parte hospitalar esteve um pouco à deriva”, corrobora o Vítor Rodrigues, constatando que a Norma 9/2020 da DGS sobre a Reconfiguração dos Cuidados de Saúde na Área da Oncologia, assinada pela directora-geral da Saúde, Maria da Graça Freitas, em 2 de Abril de 2020, “introduziu circuitos que se traduziram numa reorganização relativamente rápida”.

“Esta norma foi extremamente útil porque reorganizou o trabalho através de circuitos, aferindo o que havia de ser feito, o que havia de parar e o que havia de continuar”, explica o presidente da LPCC. Por conseguinte, a Norma 9/2020 da DGS visa reorganizar os recursos humanos e materiais afectos à prestação de cuidados no sistema de saúde e no SNS para dar resposta à avaliação e tratamento dos doentes covid-19, em especial, aos grupos mais vulneráveis como o são os doentes oncológicos. “Com efeito, houve situações em que foi possível retomar e até recuperar”, confirma o epidemiologista Vítor Rodrigues, verificando que, perante a pandemia, “o doente oncológico em doença activa corre mais riscos do que o doente oncológico em controlo”.


A referenciação para diagnóstico diminuiu

A seu ver, “esta norma permitiu ao que era urgente continuar”, enquanto “ia sendo feito o acompanhamento por telefone do que poderia, de certa forma, esperar”. “A própria dispensa de medicamentos hospitalares foi rapidamente estabelecida nas farmácias dos hospitais, que os enviavam por Express mail”, exemplifica o médico, adiantando que a nível dos CSP “as coisas estão a ser retomadas com grande dificuldade”. Assim, “a referenciação para diagnóstico e tratamento oncológico diminui bastante”.

Outro ponto que falha no contexto dos cuidados de saúde primários “é o dos atestados e das juntas médicas, que estão virtualmente parados, por mais esforços que a pessoa faça”. “E isso vai-se acumulando. Aliás, já havia atrasos de meses”, comenta o presidente nacional da LPCC, chamando a atenção para o que se passa nos cuidados continuados, os quais, “dependendo dos centros de saúde, estão igualmente com problemas”. “Aqui, a diminuição de actividade é brutal!”, reforça o médico.

No que respeita aos rastreios do colo do útero, a situação é similar, porque são efectuados por citologia, convencionalmente pelo teste de “Papanicolau”, e são tidos como rastreios oportunistas realizados nas consultas de ginecologia e nos centros de saúde, ou seja, não

fazem parte da prevenção como rastreio organizado. Por sua vez, quanto ao rastreio do cancro colorrectal, “embora possa ser enviado o kit de pesquisa de sangue oculto nas fezes, temos depois o problema da colonoscopia”.

Relativamente às actividades de prevenção do cancro da mama, destaca-se, desde 1986, o Rastreio de Cancro da Mama iniciado na região Centro do País, o qual tem permitido o diagnóstico de centenas de cancros em fase inicial e, consequentemente, curáveis ou controláveis. O mesmo se verifica no Norte e no Sul. “No Algarve, a responsabilidade é da Administração Regional de Saúde; e nos Açores e na Madeira cabe aos governos regionais”, elucida Vítor Rodrigues, salientando que, “basicamente, estes rastreios estiveram parados durante três meses (de 16 de Março a 16 de Junho)”.


Para o presidente da LPCC, a Norma 9/2020 da DGS foi útil na reorganização de recursos

Ficaram 90 mil mamografias por fazer

“Neste momento, na região Centro, regista-se menos 40% dos rastreios, de Janeiro até ao final de Agosto. Estamos a recuperar, mas parcialmente. E, se fizermos as contas, a nível nacional, em rastreio organizado, temos normalmente 330 mil mamografias por ano. Ou seja, cerca de 30 mil por mês, em 11 meses de actividade. Por isso, nesses três meses parados, ficaram 90 mil mamografias por fazer”, apura o dirigente da LPCC.

Prosseguindo o seu raciocínio, o epidemiologista – atendendo a uma taxa de detecção de 2,5 cancros por mil mulheres diagnosticadas – chega a cerca de 225 doentes com cancro mamário cujo diagnóstico foi atrasado em três meses, no mínimo. Todavia, “alguns desses cancros estão já a ser apanhados, gradualmente”.

Numa visão genérica das doenças oncológicas, “se pensarmos que em cada mês são expectáveis 4500 casos e que a diminuição da referenciação foi de 25%”, os dados empíricos levam-nos a concluir que, em situações de suspensão, há mensalmente 1125 cancros com atraso de diagnóstico.

“A mortalidade, a curto prazo, não vai aumentar praticamente nada. Em magnitude, serão ainda poucos casos oncológicos por dia. Se estamos a adiar, por dois ou três meses, os diagnósticos precoces, apesar de não ser o que gostaríamos, não haverá grandes problemas”, informa o médico.

No entanto, se falarmos em atrasos nos tratamentos, isso já é grave. “Porque há tempos óptimos de tratamento que devem ser cumpridos. Caso contrário, há avanço no estadio da doença. O que quer dizer que, a médio prazo (de um a dois anos), no geral, haverá diminuição da sobrevivência, bem como da qualidade de vida e aumento da mortalidade”, esclarece Vítor Rodrigues, reparando que aparecem casos de cancros em fases mais avançadas do que o expectável, porque os respectivos tratamentos já iniciados foram atrasados, também pelo facto de as pessoas recearem ir aos hospitais nesta altura. 

Uma coisa é certa, frisa o nosso entrevistado, “aqueles doentes que não têm possibilidades de tratamento vão perder uns meses largos de sobrevivência”. Por isso, o presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro aconselha planificação, organização e implementação diferenciada das várias medidas que têm de ser aplicadas no Serviço Nacional de Saúde.


 “Os efeitos colaterais são muito preocupantes”

Na manhã de 22 de Setembro, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Rui Artur Nogueira, não disfarça também a sua preocupação. Em declarações ao sinalAberto, a caminho de nova viagem de comboio, o clínico não faz, no entanto, um balanço negativo “tendo em conta a circunstância desta pandemia e o facto de não estarmos habituados a lidar com uma pandemia há mais de 100 anos”. Contudo, constata que “os efeitos colaterais são muito preocupantes”, pelo que alerta: “A nossa maior preocupação actual é a não-covid!”.


Rui Artur Nogueira, presidente da APMGF (Direitos reservados)

“Podemos dizer que, grosso modo, há um aumento de mortalidade. Dos seis mil óbitos além do expectável, cerca de dois mil são atribuídos à covid-19. Ou seja, por cada óbito de covid há dois não-covid”, refere Rui Nogueira, elucidando que, de acordo com as estatísticas, em Portugal, morrem 310 pessoas por dia, em média. As variações dão-se no Inverno, quando aumenta a mortalidade, e no Verão, em que a mortalidade diária diminui. “Esta linha é muito semelhante em todos os anos. É um padrão que conhecemos e que é confirmado na plataforma SICO-eVM [Sistema de Informação dos Certificados de Óbito], não havendo grande variação de região para região. As curvas são muito semelhantes em todas as regiões e também por grupos etários, o que é muito curioso”, salienta o médico.

“O grande problema da covid-19 e do efeito covid é a mortalidade acima dos 70 anos. Podemos dizer que, abaixo dos 70 anos, o efeito covid não é perceptível”, anota o clínico geral e dirigente da APMGF, advertindo: “Não podemos deslocalizar o efeito covid e a covid-19, que têm proporções completamente diferentes. O efeito covid é o dobro da covid, mas admite-se que seja mais. E é um problema terrível!”


Registo ou vigilância electrónica de mortalidade em tempo real

Sobre os sentimentos dos médicos de família relativamente a esta situação de pandemia e de se verem confrontados com o atendimento de doentes à distância, por telefone, Rui Nogueira aponta dificuldades sobretudo na relação médico-doente, dada a importância da consulta presencial, “insubstituível”.


Convocar doentes pela sequência mais prioritária

“Embora o telefone nos facilite o trabalho em alguns casos, bem como o sistema informático para a emissão de receitas electrónicas, a presença do doente é muito importante. Porém, eu nem quero pensar no que sucederia se não tivéssemos a possibilidade de acompanhar os doentes com os meios tecnológicos que hoje temos. Neste período, teria sido dramático! Mas é imprescindível retomarmos as [regulares] consultas presenciais”, expressa o representante nacional dos médicos de família.

Rui Nogueira clarifica que “as consultas essenciais são as das grávidas, das crianças e dos doentes crónicos que têm imprescindibilidade de seguimento e de acompanhamento”. “Estes são os doentes que mais nos preocupam. Contudo, são precisas medidas políticas, como as que já foram adoptadas na primeira vaga, que têm a ver com o adiamento da renovação das cartas de condução”, exemplifica o presidente da APMGF, dando conta de várias alterações provocadas pela pandemia que devem manter-se relativamente à marcação de exames complementares e à renovação de receituário. “São actos para os quais não necessitamos da presença dos doentes. Nestes casos, podemos melhorar a organização e as funções a nível do secretariado”, alega.

No que respeita às listas de espera, para Rui Nogueira, “a estratégia é a de convocar os doentes pela sequência mais prioritária”. Isto é, os diabéticos, os hipertensos e as pessoas com problemas de saúde mental. O que já está a ser realizado desde Julho, no sentido de “recuperar algum atraso” nas consultas presenciais. Quanto aos doentes oncológicos, o nosso entrevistado coloca-os em “dois grandes grupos”. O daqueles que já têm diagnóstico e que continuam a ser acompanhados, quer nos hospitais quer nos centros de saúde, com as medidas de segurança adequadas. E o dos utentes que, sem consultas presenciais, não podem ser inicialmente diagnosticados pelo médico de família. “Estes diagnósticos são, muitas vezes, ocasionais. Outras vezes, resultam dos rastreios, que foram interrompidos, como o da mama”, manifesta ainda o clínico.

“É uma área que nos preocupa bastante, porque, com um acesso muito restritivo, estes doentes não têm, na sua maior parte, situações tão evidentes que eles próprios reconheçam como suspeita de cancro. É no decorrer de uma consulta, quase sempre por outra razão, que acabamos por identificar ou suspeitar de um cancro, confirmado em estudos subsequentes”, prossegue Rui Nogueira, sustentando que “o adiamento de consultas presenciais pode, em relação à doença oncológica, pôr em risco o diagnóstico ou a prova de diagnóstico”.

No que concerne à anterior recomendação da OM para adiar consultas presenciais ditas não essenciais, o presidente da APMGF argumenta que, em determinadas circunstâncias, é difícil saber “quais são as boas e as más decisões”. “Estamos a aprender em cada dia que passa, mas o nosso alvo é sempre defender os doentes. Todavia, temos de fazê-lo com a melhor técnica e disponibilidade de decisão, em segurança e oferecendo os cuidados possíveis, segundo as leis da arte [médica]”, reforça Rui Nogueira. Neste sentido, o clínico confessa que nunca trabalhou tanto como agora. “Triplicamos os actos porque eles não são síncronos. Acabamos por trabalhar mais horas, atendendo menos doentes, com muitos telefonemas pelo meio. Nós estamos sempre ao telefone!”, sublinha, no dia a seguir à publicação do Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21, que está disponível para consulta pública.


Conferência de imprensa em que foi apresentado o Plano de Saúde para o Outono-Inverno

Na opinião do médico Rui Nogueira, este plano (apresentado pelo secretário de Estado adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, na conferência de imprensa de balanço sobre a pandemia da covid-19 em Portugal e da estratégia para os próximos meses) não atende “a todas as expectativas, nomeadamente na organização da resposta aos doentes não-covid”. Para o nosso entrevistado, este documento – embora vise “dar resposta à evolução da pandemia covid-19 e à necessidade de saúde da população noutras áreas”, como então declarou o secretário de Estado, com o objectivo de “preservar vidas humanas e proteger os mais vulneráveis” – carece de “orientações mais precisas e ligadas à realidade”.


DGS reagenda cirurgias e consultas adiadas

Na primeira quinzena de Setembro, a DGS informava (através do portal https://covid19.min-saude.pt) que iriam ser reagendadas, “nos próximos dias”, as cirurgias e consultas que foram adiadas devido à covid-19, “dando prioridade aos casos que têm indicação para tal”, conforme tinha adiantado a ministra da Saúde, Marta Temido, na conferência de imprensa de actualização dos dados sobre a pandemia, realizada no sábado (12 de Setembro).


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A própria responsável pela tutela confirmou que houve uma quebra “muito significativa” na actividade assistencial no SNS por causa da covid-19 e que, ao nível dos cuidados de saúde primários, a diminuição do número de consultas foi de 3,9 por cento (o que equivale a cerca de 300 mil consultas a menos), enquanto nas consultas hospitalares essa “queda” atingiu os 5,7% (ou seja, aproximadamente menos 180 mil consultas).

Em relação às cirurgias programadas para o Serviço Nacional de Saúde, verificou-se uma diminuição de 5,3% (o que corresponde a nove mil cirurgias adiadas). Por sua vez, nos serviços de urgência esse decréscimo foi ainda mais acentuado, na ordem dos 11,5%.

Em face de tais circunstâncias, a ministra da Saúde, declarou estar “na altura de invertermos esta lógica de que precisávamos de responder aos casos urgentes e emergentes, e de suspender actividade programada”. Por conseguinte, Marta Temido divulgou que seria efectuado “um reagendamento da actividade assistencial não realizada”, tendo garantido um começo que priorize os casos que têm indicação clínica para isso.

Aproveitando a aprendizagem dos últimos tempos, a governante deu conta da necessidade de “manter o incentivo à realização da actividade assistencial não presencial, nomeadamente para renovação de receituário, atendimento por meios de comunicação alternativos, utilização de respostas de tele-saúde e encaminhamento de situações triadas como verdes, azuis e brancas ao nível dos serviços de urgência para os cuidados de saúde primários”. Nesse sentido e atendendo ao “normal” funcionamento das unidades de saúde, o MS aposta na adopção de um conjunto de medidas, a exemplo do “reforço de equipamento de protecção” dos profissionais, da adequada higienização e da reorganização das estruturas locais, como as salas de espera. 

Na mesma conferência de imprensa, Marta Temido declarou aos jornalistas que o despacho de 16 de Março, ao abrigo do qual foi decidida a diminuição da actividade assistencial, seria suspenso na semana seguinte.


Reclamações dirigidas ao sector da Saúde

A 15 de Setembro, em nota de imprensa, uma agência de comunicação informava que, numa altura em que o País regressava ao “estado de contingência”, o Portal da Queixa (https://www.portaldaqueixa.com/), tido como a “maior rede social de consumidores”, divulgou “um estudo analítico sobre as reclamações dos portugueses dirigidas ao sector da Saúde”.


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Conforme os dados do aludido estudo, desde o início da pandemia (em Março) e até ao final do “estado de alerta” (a 14 de Setembro), “a maior rede de consumidores de Portugal recebeu mais de três mil reclamações (3012)”, evidenciando um “aumento de 77%”, em comparação com o mesmo período de 2019 (em que se registaram 1703 reclamações).

A mesma nota informativa assinala que, de acordo com estudo desenvolvido pela equipa do Portal da Queixa, “as farmácias, os hospitais públicos, os centros de saúde e os hospitais privados são as entidades maior alvo das reclamações, com destaque para as farmácias que, comparativamente com o período homólogo, registaram o maior crescimento do número de queixas, uma subida de 284%”.

No sector público, a insatisfação incidiu em situações relacionadas com a dificuldade de marcação de consulta e, entre outros aspectos, também nos casos de mau atendimento. “Os centros de saúde registaram como principal motivo de reclamação a dificuldade de contacto para a marcação de consultas”, em 56% das queixas. Todavia, no “topo das insatisfações dirigidas aos hospitais públicos, o mau atendimento e o serviço prestado representaram 21% das reclamações dos consumidores” ou utentes.

No que concerne às farmácias, “no início da pandemia, verificou-se que o principal problema reportado foi a venda de máscaras (58%), devido ao enorme tempo de espera e [à] escassez do produto, seguindo-se o exponencial aumento dos preços praticados do álcool-gel desinfectante, que geraram 37% das queixas”.

Considerando a geografia do país, o Portal da Queixa “identificou que os distritos em que os portugueses mais reclamaram do sector público da Saúde foram Lisboa, Porto e Setúbal”.

Numa consulta, em 7 de Outubro, às estatísticas gerais do mesmo portal electrónico, que possui “actualmente mais de 7200 marcas registadas”, verificámos que, “nos últimos 30 dias”, o Serviço Nacional de Saúde aparecia na nona posição relativamente às marcas com mais reclamações recebidas. No entanto, no quadro ao lado, o SNS já não se encontrava entre as dez marcas com maior taxa de resposta.

Quanto ao sector privado da Saúde, a análise do Portal da Queixa “permitiu identificar que o principal problema relatado” pelos consumidores ou utentes, no que se refere a hospitais e clínicas privadas, está relacionado com a facturação errada de valores indevidos (correspondendo a 43% das queixas) e também com a cobrança de “taxas de kits de protecção” da covid-19, o que motivou 23% das reclamações geradas. O “alegado mau atendimento” esteve na origem de 12% das queixas apresentadas. Por outro lado, no que respeita às situações de insatisfação que ocasionaram queixas dirigidas aos laboratórios de análises clínicas, 27% prende-se com os rastreios à covid-19.

A nível geográfico, na análise do sector privado da Saúde, os utentes que mais formalizaram o seu desagrado foram os de Lisboa, do Porto, de Braga e de Setúbal.


Impacto social da covid-19 em pessoas com diabetes

Uma nota informativa, de 20 de Outubro, dá-nos conta da intenção manifestada pela Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) de avaliar o impacto social da covid-19 em pessoas com diabetes, através do projecto “Diabetes no Bairro”.

Esta iniciativa envolve os bairros lisboetas Quinta do Lavrado, Alto da Eira e Horizonte, na freguesia de Penha de França, pretendendo-se, recorrendo à versão 2.0 do referido projecto, identificar os residentes em risco de desenvolverem diabetes, bem como avaliar o impacto social da pandemia do novo coronavírus nos “fregueses com diabetes diagnosticada”.

O projecto “Diabetes no Bairro 2.0”, dirigido à população adulta residente nos três bairros de Lisboa, além de avaliar o risco de diabetes nesses agregados urbanos, visa garantir a melhoria da qualidade de vida da população com pré-diabetes, assim como realizar o diagnóstico, o acompanhamento e o encaminhamento das pessoas com diabetes que apresentem também problemas sociais, procurando minimizar o impacto destes na sua saúde.


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Como observa o presidente da APDP, “vivemos um momento de verdadeira sindemia”. Ou seja, de acordo com um artigo publicado, no final de Setembro, na revista científica “The Lancet”, os seus autores (o texto é assinado pelo editor-chefe da revista, Richard Horton) propõem que se defina a covid-19 como uma sindemia, atendendo a que “a doença alcançou um patamar diferente de qualquer outra pandemia já enfrentada pela humanidade na História”. A nova designação surge da fusão das palavras “sinergia” e “pandemia”, querendo significar que diversos impactos da covid-19, como os factores socio-económicos correlacionados com a doença e outras morbilidades, tornam o “cenário” pior.

Retomando as suas declarações, o representante da APDP diz que, depois de meses de quarentena, “a pandemia trouxe consequências que vão para além da covid-19”. “Não só agravou outros problemas de saúde, pela falta de acompanhamento, como acentuou as desigualdades sociais e prejudicou a economia de muitas famílias”, sublinha José Manuel Boavida, notando que todos estes aspectos precisam de ser considerados. “São problemas que se cruzam e que requerem uma abordagem e intervenção social mais eficientes”, sustenta o presidente desta estrutura associativa de apoio aos doentes diabéticos, com cerca de 15 mil associados.

Como lemos na dita nota informativa, a partir de Novembro, “será realizado um diagnóstico social com identificação das áreas com necessidade de intervenção, tendo por base os dados que serão obtidos através da aplicação da ficha de avaliação de risco social, validada por profissionais de saúde e de serviço social”.

Num comunicado de imprensa posterior, a APDP, no âmbito do Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral (AVC) – que se assinala a 29 de Outubro – alerta para o facto de o AVC ser quatro vezes mais comum em pessoas com diabetes. Amplificando o contexto pandémico do novo coronavírus, a APDP releva que a doença coronária e o AVC também constituem uma “derradeira epidemia em ascensão”, atingindo “cada vez mais pessoas e cada vez mais precocemente”.

Por isso, José Manuel Boavida alega que “é fundamental uma gestão adequada da diabetes e de outras doenças associadas”, evitando cenários de risco como um AVC. No caso das pessoas com diabetes, o presidente da APDP explica que “atinge os pequenos vasos e, a longo prazo, leva a um maior sofrimento e incapacidade”.

Sabendo-se que 30 por cento dos internamentos por AVC acontecem em pessoas com diabetes, o director clínico da APDP (João Filipe Raposo) verifica, que o “processo aterosclerótico é potenciado pela diabetes, o que faz com que as pessoas com diabetes estejam cerca quatro vezes mais susceptíveis a sofrer um AVC”. Assim, é essencial controlar e monitorizar os níveis da glicemia, medida importante para reduzir este risco, complementando com adequados cuidados atinentes à covid-19.  


Gestão da osteoporose em tempos de covid-19

A 20 de Outubro, data que assinala o Dia Mundial da Osteoporose, as sociedades profissionais de saúde e associações de doentes alertaram para “os desafios na gestão da osteoporose em tempos de covid-19”, apelando a “que se retome o acompanhamento destes doentes e não se descure a prevenção das fracturas osteoporóticas, responsáveis pela morte de milhares de pessoas”.

Segundo um comunicado à imprensa, num documento de tomada de posição sobre a “Gestão da Osteoporose Durante a Pandemia da Covid-19”, a Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR), a Sociedade Portuguesa das Doenças Ósseas Metabólicas (SPODOM), a Associação Nacional Contra a Osteoporose (APOROS) e a Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas (LPCDR) avisam que “a osteoporose mata mais do que a covid-19” e, consequentemente, chamam a atenção dos serviços de saúde, das famílias, em geral, e dos cuidadores de idosos para “que sejam reforçados, ao invés de esquecidos, todos os tratamentos e cuidados que visam prevenir a ocorrência de fracturas osteoporóticas”. As mesmas estruturas associativas recordam que “o contexto de pandemia tem tudo para aumentar significativamente o número de vítimas de osteoporose”.

Na mesma nota distribuída à imprensa, o presidente da SPR diz estimar-se que, em Portugal, morram anualmente cerca de 1500 pessoas como consequência directa das cerca de 12 mil fracturas osteoporóticas da anca, neste período. “A semelhança deste número com o número de mortes por covid-19 na população idosa (cerca de 1353 óbitos), observado no nosso país até Junho de 2020, merece reflexão”, comenta Luís Cunha Miranda.

Por seu lado, o presidente da SPODOM salienta que, durante este período de pandemia, “não podemos descurar a avaliação clínica e o seguimento adequado dos doentes com osteoporose e com fracturas osteoporóticas”. Para António Torrado, é “urgente assegurar a recuperação dos recursos que foram suspensos devido à pandemia (consultas e exames), de forma a que esta população idosa e vulnerável possa ter acesso ao sistema de saúde”, impedindo a interrupção da terapêutica para a osteoporose e mitigando o isolamento social e a redução da actividade física. O mesmo responsável nota que “não podemos permitir que a covid-19 aumente assim, indirectamente, o número das suas vítimas”.

De acordo com informação do Ministério da Saúde (MS), acedida em Outubro, ficaram por realizar no SNS quase 1,4 milhões de consultas médicas devido à pandemia. E terão sido cancelados, “em equivalente proporção, procedimentos complementares de diagnóstico e terapêutica”, como se assinala no mesmo comunicado de imprensa, no qual também se afirma que, em paralelo, “foi registado um aumento de faltas dos doentes às consultas médicas agendadas, provavelmente pelo medo da contaminação por SARS-CoV-2”.

Ao considerar estes dados, o presidente da SPODOM sublinha temer-se que “muitos doentes com osteoporose tenham visto interrompido o seu seguimento e tratamento”. “O mesmo pode ter sucedido a doentes com fracturas, apesar do aumento de risco de morte que apresentam”, avança o especialista António Tirado, mencionando que, com efeito, entre 16 de Março e final de Abril de 2020, foram registados menos de 400 mil atendimentos urgentes, quando comparado com o mesmo período do ano anterior.

Por sua vez, a presidente LPCDR salienta que, devido ao isolamento social imposto pela pandemia, “muitos idosos têm-se visto obrigados a gerir a sua terapêutica e alimentação sozinhos e a reduzir a sua actividade física e de reabilitação”. Desse modo, como observa Elsa Frazão Mateus, estas pessoas assumem “actividades com maior risco de queda e de fracturas, o que poderá agravar os factores de risco de fragilidade óssea e de fractura em caso de queda, bem como prejudicar a adesão à terapêutica da osteoporose”.

Nesta conformidade, Viviana Tavares (na qualidade de presidente da APOROS) também lembra que “as fracturas osteoporóticas são uma das principais causas de perda da independência funcional, de morbilidade e de mortalidade na população idosa”, esclarecendo que, em cada ano, morrem mundialmente cerca de 740 mil pessoas em consequência de fracturas osteoporóticas da anca.

Em jeito conclusivo, no dito comunicado de imprensa, sustenta-se que, por “todos estes motivos, as instituições reconhecem ser seu imperativo ético apelar aos serviços de saúde, às famílias em geral e aos cuidadores de idosos para que sejam reforçados, ao invés de esquecidos, todos os tratamentos e cuidados que visam prevenir a ocorrência de fracturas osteoporóticas”. Consequentemente, recomenda-se que o tratamento da osteoporose não seja interrompido e “que se garanta o seu acompanhamento próximo, se necessário através de telemedicina”.


Reservas de sangue com níveis críticos

Numa nota enviada aos meios de comunicação social, em 27 de Outubro, a Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue (FEPODABES) chama a atenção para uma situação em que as reservas nacionais de sangue apresentam “níveis críticos” relativamente aos tipos O+ e A+.


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Segundo esta estrutura federativa de dadores de sangue, com a retoma das cirurgias e da actividade hospitalar, “o consumo de sangue tem vindo a aumentar e as reservas nacionais têm já dois tipos de sangue em falta”. Por isso, a FEPODABES apela aos portugueses para darem sangue, ajudando a salvar vidas.

“As reservas nacionais estão já a ressentir-se com o regresso da actividade hospitalar”, informa o presidente da FEPODABES, incentivando “mais uma vez à dádiva por parte de pessoas saudáveis, principalmente os dadores activos entre os 24 e os 45 anos”. “Apesar dos esforços realizados entre Julho e Agosto, há já falta de dois tipos de sangue: O+ e A+”, frisa Alberto Mota, comentando: “Esta falta recorrente justifica-se com o facto de a maioria dos portugueses serem dos grupos sanguíneos A e O.”

“A pandemia não deve ser motivo de medo. Estamos preparados para receber todos os que nos queiram ajudar, adoptando todos os cuidados necessários”, refere ainda o representante desta organização.


Hush Naidoo (Unsplash)

Em defesa dos cuidados de saúde primários

Dirigindo-se aos órgãos de comunicação social, o Partido Comunista Português (PCP) emitiu, a 27 de Outubro, um documento em que informa que está a desenvolver uma acção sob o lema “Combater a COVID-19, recuperar atrasos, garantir o acesso aos cuidados de saúde”. Nesse contexto, o PCP promoveu uma tribuna pública, em Coimbra, no dia 29 de Outubro, junto do Centro de Saúde Fernão de Magalhães.

No aludido comunicado, o PCP reconhece que, em Março, o SNS e os seus profissionais “deram uma excelente resposta às situações criadas pelo novo coronavírus”. “Não fosse o SNS e a situação teria sido muito grave!”, expressam os autores deste documento, adiantado: “É importante que o Serviço Nacional de Saúde assegure a capacidade de resposta no tratamento dos doentes com covid-19, tal como é importante que recupere a prestação de cuidados de saúde que ficaram por realizar e garanta o acesso à saúde aos doentes com outras patologias”.

No entanto, o PCP repara que, para “assegurar o combate à covid-19, recuperar atrasos e garantir o acesso aos cuidados de saúde a todos os portugueses, é preciso dotar o SNS, os hospitais e os centros de saúde dos meios necessários (financeiros, humanos, técnicos e materiais) para recuperar as consultas, as cirurgias, os tratamentos e os exames em atraso”.

Em face da “preocupante” situação que se vive a nível dos cuidados de saúde primários (CSP), os comunistas dão conta de milhões de consultas atrasadas, de novas consultas que não são marcadas, de exames de diagnóstico que não se realizam. E afirmam que, nesta realidade, faltam médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes técnicos e auxiliares de acção médica, confirmando que “os que estão em funções estão exaustos”. Além disso, constatam que os sistemas de telecomunicações e os equipamentos informáticos estão obsoletos, observando ainda extensões de saúde encerradas.

Para o PCP, “a recuperação da actividade nas extensões e centros de saúde tem de ser uma prioridade”. “Os cuidados de saúde primários tiveram e têm um importante papel no acompanhamento dos doentes com covid-19 que se encontram no seu domicílio, mas têm também um papel fundamental no diagnóstico precoce, no acompanhamento de doentes crónicos e na referenciação para a especialidade nos hospitais, quando tal se justifica, que não pode ser menorizado”, declaram os autores do comunicado.

Porque a saúde deve ser entendida como um direito e não como um negócio, o PCP nota que a “solução para os problemas que condicionam hoje o normal funcionamento do SNS não passa por transferir para os privados a prestação de cuidados com o pagamento de milhares de milhões de euros aos grupos económicos”.


Situação de “grande complexidade”

A ministra da Saúde, ao ser confrontada com uma situação de “grande complexidade”, aventou a possibilidade de doentes sem covid-19 serem encaminhados para as unidades privadas de saúde. Com o número de novos casos diários de infectados pelo novo coronavírus a aumentar e a aproximar-se dos quatro mil, o Governo não enjeita presumíveis medidas especiais para evitar uma ainda mais acentuada propagação viral.


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No mesmo dia (26 de Outubro) em que o Presidente da República promulgou o uso obrigatório de máscara na rua, por um período de 70 dias, sempre que não seja possível cumprir o distanciamento físico recomendado, Marta Temido também reconheceu que a situação é “grave e complexa”.

Ao saber das previsões que apontavam para 444 pessoas internadas nos cuidados intensivos, já a 4 de Novembro, e que, nos últimos 14 dias (até então), Portugal ultrapassou a barreira de 300 casos novos por 100 mil habitantes, a governante admitiu vir a ser necessário desmarcar novamente a actividade assistencial e, contingentemente, encaminhar os doentes que ficam sem resposta para os sectores privado e social.

Conforme acusa o PCP, o SNS está subfinanciado, mas os grupos privados estão “a crescer à custa dos dinheiros públicos”. “As despesas no SNS com transferência para o sector privado atingiram, em 2018, 5,7 mil milhões de euros”, averiguam os responsáveis pelo aludido comunicado de imprensa, acrescentando: “Se considerarmos tudo o que pode ser internalizado no imediato para o SNS – em serviços médicos adquiridos e fornecimento de serviços – [o que perfaz 912 milhões de euros] e somarmos o que é pago anualmente em média pelas PPP [parcerias público-privadas] na saúde, concluímos que estariam disponíveis para investir no serviço público cerca de 1500 milhões de euros.”

Para o Partido Comunista Português, a solução passa por “reforçar o SNS com mais financiamento, mais profissionais, melhores equipamentos”. Com este objectivo, o PCP propôs na Assembleia da República um Plano Nacional de Emergência (PNE), “cujas medidas aprovadas reclamam do Governo a sua concretização”. Nessa intenção, o PCP defende a criação de um plano de recuperação das actividades dos CSP que “garanta a realização de consultas presenciais com médico de família, de saúde materna e infantil, os rastreios e o acompanhamento dos doentes crónicos”.

Nesse PNE, os comunistas incluem a reabertura de todas as extensões e centros de saúde, “com a criação das condições necessárias, para que os utentes que não tenham espaço nas salas de espera, devido às normas de segurança sanitária e que por isso tenham de esperar fora dos edifícios, possam fazê-lo em condições de comodidade e segurança”.

Entre outras medidas, esse plano envolve a “modernização das redes de comunicações das extensões e centros de saúde, em particular das comunicações telefónicas e electrónicas, bem como dos equipamentos informáticos”. Além da criação de um “regime excepcional de incentivos à recuperação da actividade assistencial nos cuidados de saúde primários”, o PCP propõe o alargamento do horário de funcionamento das unidades dos CSP, assim como a articulação com as unidades hospitalares, “para a realização de exames complementares de diagnóstico e terapêutica prescritos pelo médico de família, a par da progressiva dotação dos centros de saúde de equipamentos para a realização de exames”.


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