Elegia para Armando Azevedo, “oficial” da Arte

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Armando Azevedo faleceu. Tinha 74 anos, faleceu no passado dia 14 de Junho. Faleceu alguém que tinha a Arte como ofício, não como ofício altivo e inatingível, mas como circunstância de um quotidiano. Um quotidiano no qual Coimbra, esta cidade de Coimbra, tinha um papel preponderante.

 Logo após o 25 de Abril, quando tudo fervilhava nas ruas, havia uma velha casa burguesa na Rua Castro Matoso que tinha a porta sempre aberta. Entrávamos e cheirava a gesso e a tintas. Distribuídos pelos vários andares, os compartimentos fervilhavam ainda mais que a rua. Viam-se as cores do acrílico no papel de cenário; os objetos do quotidiano transformados, engessados, revestidos, pintados; assistíamos em círculo às performances individuais ou coletivas; ninguém podia ficar indiferente ao movimento frenético de gente que subia e descia pela escada de balaústres brancos.

Foi lá que aprendi que devíamos ser iconoclastas, que a arte tinha um tempo, que esse tempo podia ser o mesmo da nossa existência, que não devia haver brechas entre a vida e as práticas artísticas, tal como não havia entre a rua e o interior da velha casa. Doutrinário, ou talvez não, lá ia vivendo o ateliê como quem vive a rua, ou o Café. Lá ia exercitando o gesto, sem me preocupar muito com o ofício e, sei agora, menos ainda com a obra estática, inerte, fechada. Interessava-me, isso sim, alcançar a celebração do momento sem o desvirtuar com essa mesma celebração. Era uma espécie de jogo de equilíbrio que frequentemente descambava. Por sorte, e pelo que me diz respeito, era quase sempre para o lado da celebração, da festa portanto.

Fui frequentando essa casa, sem muita assiduidade, diga-se, e lá prolonguei amizades, criei outras, conheci pessoas. Lá conheci o Alberto Carneiro que, pouco tempo depois, haveria de ser um dos meus mestres mais marcantes.

Foi lá que encontrei o Armando Azevedo. Foi com ele, e com a sua obra, que percebi que havia um ofício entranhado para além da vivência, um ofício de uma profundidade insuspeitada e perene, um ofício do qual o fato-macaco branco era apenas um mero e sintomático sinal epidérmico.

Via-o trabalhar, assistia às suas exposições, observava a sua obra mais intimista e tentava perceber as suas cumplicidades na criação coletiva.

Os objetos que cobria de gesso não eram só objetos do quotidiano, eram peças criteriosamente escolhidas que se amortalhavam em significante crueza volumétrica. Brancos, abandonavam de vez a cacofonia das formas e ficavam a sós consigo próprios, eram surpreendentemente belos. Mas havia outros objetos, que o Armando Azevedo revestia com folhas de jornal ou de revista. Nesses, desafiava também a rivalidade entre a sobrecarga dos significantes superficiais e a subsistência da pureza da forma, despida da função “alienante”, válida por si só. Os recortes traziam palavras que se liam, nunca de modo aleatório, antes em associação frutífera e dialogante com o volume da peça. Ambas, peça e palavras que a cobrem, procuram ansiosamente o todo coerente, esse Todo que é procurado desde há milénios pelos oficiais deste ofício. São objetos que se emudecem do seu significado instituído para se expressarem como formas mas, ironicamente, “falam” muito através da pele envernizada que as veste, são oxímoros sem qualquer concessão retórica, cristalizam naturalmente como obras de arte.

Nos desenhos, as palavras associam-se, em jogos de promíscua sedução, com outros códigos, com outras imagens. Os riscos sobre o papel desdobram-se em cores diversas, misturam-se com gravuras carregadas de significado, por vezes ganham volume. São sempre notas de interpretação, são sínteses articuladas que procuram enfrentar uma realidade viva e estimulante, mas simultaneamente fragmentária e indecifrável. Não, não creio que se possam codificar assim tão facilmente como poesia visual, são visões, sim, e são visões poéticas, mas a sua formalização transcende em muito a circunscrição tópica do poema e instala-se no vasto território do confronto direto com o mundo que nos rodeia. Não são, por isso, notas tomadas à margem, são tomadas a partir de pontos que se situam corajosamente no âmago da realidade com a qual dialogam.

Mas um ofício tem, por definição, um lugar onde é exercido. O lugar de Armando Azevedo era, obviamente, o mundo, permanentemente redescoberto nos recantos da cidade onde viveu. O seu EGO era um rio que fluía serenamente por entre as ruas e os jardins da Baixa em direção ao Le MONDE. Nunca abandonou essas referências.

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