Em Hulvik com Jane Hirsfield

Fotografia de Curt Richter

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Como surge o seu poema sobre Ulvik ou, melhor, o seu filho famoso Olav H. Hauge?

A epígrafe do poema, que vem de uma nota biográfica breve numa antologia, foi o catalisador. O fraseado acertou-me. “Working as a gardener in his own orchard” parecia uma construção estranha e levou ao conceito retórico do poema – uma vida dividida em duas pessoas, o dono do pomar e quem nele trabalha. Esta ideia de duplo, o doppelgänger, atravessa a literatura com muitas variações, abrindo uma janela para as nossas vidas e mentes. Há o famoso “Borges and I”. A história famosa de Stevenson sobre Jekyll e Hyde. Até as personagens metamorfósicas nas comédias de Shakespeare são duplas.

A mente de Hauge era dupla, como o era a sua vida. Vivendo de um pequeno pomar de maçãs, com oito acres, herdado da família, Hauge era também um poeta de estatura internacional, cuja biblioteca na casa da quinta foi descrita pelo poeta Robert Bly, após uma visita, como “a melhor biblioteca de poesia na Noruega”. O agricultor prático sabia podar árvores para as manter saudáveis e ter melhores colheitas e o poeta, no seu exercício, sabia dar à linguagem novas formas de sentimento e entendimento. E há uma outra duplicidade: de tempos a tempos, durante a sua vida, Hauge sofria de forte depressão e ficava internado num hospital psiquiátrico até recuperar.

O meu poema não descreve abertamente estas coisas, mas é o meu conhecimento delas que está por trás da exploração nele feita do modo como pensamos sobre, e experienciamos emocionalmente, a multiplicidade das nossas vidas. O dono do pomar oferece ao fruticultor benevolência e descanso. Tenho esperança que o Hauge do mundo comum tenha para com o Hauge do hospital a mesma gentileza. De novo, nada disto surge nas palavras do poema, eu sei. Mas, frequentemente, um poema nasce por causa de conhecimento anterior que é omitido. A função deste poema não era ser biográfico e eu espero que o que vive nos versos baste para evocar aquela sensação de superar o auto-alheamento pelo interesse amigável para com um vizinho no meio de vidas separadas, mas com destinos partilhados.

O poema, acrescentaria, é ainda sobre a nossa relação com o mundo natural, de que dependemos para subsistir, comer maçãs e ter lenha que nos aqueça. É sobre o reconhecimento mútuo dentro das condições da ordem social, capitalismo e assalariados. E é sobre aquilo que ele diz sobre que é. A separação não é uma divisão tão forte como pensamos com frequência. Mais: a ideia central do poema tem piada. Tenho notado, pelo menos, que o público se ri quando o leio.


Em Ulvik

He spent his whole life in Ulvik, working
as a gardener in his own orchard.
(of Olav Hauge)

Também eu gostaria de trabalhar
como fruticultor no meu pomar.
Pagar-me-ia todas as sextas-feiras
um salário digno,
em notas da minha própria carteira
e por vezes, se o tempo estivesse mau,
dar-me-ia o dia de folga,
agradecer-me-ia a gentileza
e responder-me-ia, Não é nada, nada, agora vá,
descanse, arranje um sítio confortável.
Entraria então em casa
e pensaria na minha generosidade,
interrogando-me se o meu fruticultor já não tinha frio
[também,
se estava certo permitir-me
afastar-me dos cuidados do meu pomar
mesmo que brevemente, os dois
podíamos ficar também a pensar nas maçãs,
frias e húmidas, penduradas ao vento,
crescendo sozinhas nas suas árvores,
e um de nós, primeiro, o outro depois,
talvez começasse a meditar um pouco
sobre a solidão e a separação, o que
existe em nós e fora de nós,
enquanto punha na fogueira um tronco seco de macieira.


Pequena nota biográfica

Olav H. Hauge, nascido em 1908, foi um grande poeta norueguês e, simultaneamente, fruticultor num pequeno pomar que terá herdado.

Traduziu autores importantes: Mallarmé, Rimbaud, René Char, Blake, Yeats, por exemplo.

Viveu sozinho a maior parte da sua vida tendo, em 1978, casado com a artista Bodil Cappele, que conhecera numa das suas raras sessões de leitura de poesia.

Faleceu em 1994.

Em inglês, o conhecimento do seu trabalho deve-se a tradutores como Robert Bly, Robin Fulton e Robert Hedin.


Francisco José Craveiro de Carvalho (poeta e tradutor; é professor jubilado de matemática)

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