Emanuel Cameira: Ler sem nada no estômago provoca dores de cabeça.

Margarida Araújo

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Ainda a pandemia não tinha chegado a Portugal, já uma nova editora andava a contaminar de curiosidade os mais atentos às coisas da poesia. Emanuel Cameira, sociólogo de profissão, foi buscar a Rimbaud o nome para a Barco Bêbado. Surgiu em Janeiro, com um livro de António Cabrita, e não mais parou. Entretanto foram publicados títulos de Paulo da Costa Domingos, Rui Baião, de José Manuel Pressler, de Luiz Pacheco e uma folha volante, intitulada “Calamidade”, com a colaboração de vários autores e os efeitos pandémicos do novo coronavírus em pano de fundo. Falámos com Emanuel Cameira após a sua passagem pelo Teatro da Rainha, em Caldas da Rainha, para mais uma sessão do ciclo de conversas “Diga 33”. Em boa verdade, as questões cujas respostas aqui são tornadas públicas dão continuidade a uma conversa interminável onde cabem também os hábitos, ou falta deles, de cultura, de consumo de cultura ou talvez e tão-somente de leitura dos portugueses. Livros já temos. Venham daí os leitores.

sinalAberto — São inúmeras as novas editoras que surgiram em Portugal nos últimos 20 anos. O que traz de novo a Barco Bêbado?

Emanuel Cameira — Creio que ainda é cedo para o dizer e nem sei se sou eu a melhor pessoa para identificar isso, no sentido de afirmar perentoriamente que a Barco Bêbado é mais assim, ao passo que aqueloutra editora é mais assado… até porque, tinha uma certa razão o António Maria Lisboa, «o percurso que não fizemos é sempre melhor». À partida traz a novidade do que vai publicando e nos moldes em que o faz. E isso é fatalmente diferente na medida em que eu próprio sou diferente, enquanto indivíduo, com um percurso de vida singular, com as minhas leituras e afinidades eletivas, com as minhas preocupações e amizades, com a minha visão da sociedade e da produção intelectual, etc., diferente, dizia, das demais pessoas que encabeçam projetos editoriais. Mas vivendo a Barco Bêbado do trabalho daqueles de quem me cerco para dar existência a esta ou aquela edição, ela é igualmente a materialização de uma energia coletiva sui generis (porque emanada de um grupo que não o é senão na minha cabeça) que começou a ganhar expressão a partir da publicação do primeiro título «A Kodak faliu. Também o Dick, o cão da minha infância», do António Cabrita.


Primeiro título publicado pela Barco Bêbado

SAA tua tese de doutoramento é sobre Vitor Silva Tavares, editor da & etc. Sentes que com o seu desaparecimento ficou uma lacuna por preencher?

ECÉ uma questão sensível, essa. Lembro-me que, pouco tempo depois de o Vitor Silva Tavares ter falecido, subi a Rua da Emenda, onde estava instalada a & etc, com uma angústia tremenda, num total desamparo. E que cheguei ao cimo da rua e enviei uma mensagem ao Paulo da Costa Domingos dizendo isso mesmo. Ainda hoje me recordo da resposta dele, de que nos cabia a nós, aos que cá estavam ainda, prolongar-lhe a ação. O Vitor é hoje uma figura tutelar de grande parte das experiências editoriais portuguesas de pequena escala e assumi-lo é admitir já que a sua missão não ficou totalmente por desempenhar. Acontece, porém, que seres humanos daquela cepa, hiperlúcidos, hipercultos, com uma coluna vertebral inquebrável e verdadeiramente abnegados, não abundam na atual paisagem das Letras e Artes, pelo que, nesse sentido, faz uma falta do caraças, até para pôr pontos em certos iis.

SA — Olhamos para os títulos da Barco Bêbado publicados até à data e notamos, desde logo, uma diversidade de formatos que vai da chamada plaquete ao livro, passando pela folha-volante. Ao contrário de outras editoras, com coleções em formatos fixos, optaste pela diversidade. É essa a identidade que pretendes para a Barco Bêbado?

EC — Sim, sendo que a Barco Bêbado jamais terá coleções. É uma partição, um espartilho que não me agrada. Mas quanto à diversidade de formatos, tal não significa que cada novo título publicado tenha necessariamente uma configuração distinta da anterior. Essa diferença que assinalas, e que é real, prende-se, muitas vezes, com razões que dizem respeito à própria dimensão e alcance dos textos. Alguns, mais curtos, implicam desde logo uma produção industrial que não chega a suportar a existência de lombada, pelo que acabam por cair no saco das chamadas «plaquetes» ou opúsculos e não dos livros tout court. E é certo também que, às vezes, determinados textos pedem uma apresentação específica, uma página maior que permita um diálogo particular com imagens, etc. Neste sentido, pode (e deve) ser o conteúdo da obra a ditar o formato da mesma. Estou por exemplo a pensar na «Calamidade», folha-volante de flagrante cunho político, cuja circulação se pretendia fácil, mas que perderia, e de que maneira, se fosse pensada enquanto livro, necessariamente mais caro para os leitores. Pese embora os custos de produção sejam sempre uma variável a considerar, é muito a ideia de que para dada mensagem interessa procurar o veículo que melhor a sirva. Independentemente dessas diferenças, procuro sempre retirar dos materiais uma mais-valia estética. No caso do «Paciente Zero», do Rui Baião, se se puser a mãozinha na capa até se sente uma certa propriedade táctil do livro. É isso aliás que, em certos aspectos, pode conferir ao objecto impresso uma espécie de atmosfera, assente em critérios materiais mas que têm muito de subjectivo. Mas não, não há aqui um cânone, o que não retira nenhuma propriedade à Barco Bêbado. Cabe aos leitores reconhecerem essa espécie de vibrato, de aroma (aqui no sentido metafórico, claro) que atravessa os vários títulos publicados. Algo que tem já a ver com questões de sensibilidade, mais ou menos apurada, e que vai depois também ajudar a definir a maior ou menor empatia pelo que se vai publicando.


“O caso do José Manuel Pressler é, a esse respeito, sintomático, não obstante o «Filipa» ser um livro tremendo, com vários poemas em tom maior.”

SA — O Paulo da Costa Domingos tem sido teu cúmplice nesta aventura. O livro mais recente da Barco Bêbado é do Rui Baião e o primeiro é do António Cabrita. São autores de uma geração que podemos identificar com a antologia “Sião”. Foram estes os autores que mais marcaram a tua aproximação ao universo poético português?

EC — Puro acaso objectivo, à Breton (risos). A minha aproximação, fora da esfera escolar, ao que chamas «universo poético português» começou, se não me falha a memória, com a leitura de um livro de Emanuel Jorge Botelho chamado «Cesuras», livro repleto de referências cruzadas a vários escritores e pintores e que me marcou profundamente. Dei com ele por volta de 2001, em Viana do Castelo. Curiosamente, à data, o Emanuel Jorge Botelho tinha já sido publicado quer pelo Vitor Silva Tavares quer pelo Paulo da Costa Domingos, nem eu sabia ainda quem era esta gente ou sequer que os viria a conhecer e, muito menos, a publicá-los. Depois foram-me chegando os nomes e obras de outros poetas, fruto de circunstâncias e encontros vários, ligados aos andamentos da própria vida e um pouco como quem come cerejas. Os já publicados na Barco Bêbado são, de facto, autores «muito lá de casa», como diria o Bénard da Costa, e não necessariamente pelas mesmas razões.


Emanuel Cameira com Henrique Fialho, durante uma recente sessão do ciclo de conversas “Diga 33”, no Teatro da Rainha, em Caldas da Rainha.

SA — Por outro lado, recuperaste um nome esquecido, diria mesmo perdido, do chamado grupo do Café Gelo, o derradeiro fôlego, por assim dizer, do surrealismo em Portugal. É algo que algumas editoras têm procurado fazer, recuperar esses nomes perdidos de um passado não muito distante. É algo que pretendes continuar a fazer? Esse trabalho de arqueologia é importante para ti?

EC — Sem dúvida, sempre que achar que faz sentido. Até porque, infelizmente, nem sempre a qualidade literária, que em si mesma é já fruto de uma construção social, foi condição suficiente para o conhecimento dos autores pelo público ledor. O caso do José Manuel Pressler é, a esse respeito, sintomático, não obstante o «Filipa» ser um livro tremendo, com vários poemas em tom maior. Proceder a essa recuperação visa também restaurar condições de julgamento crítico sobre um autor que muito prezo e que estava completamente esquecido.

SA — Por falar em surrealismo, a carta de Luiz Pacheco a Vitor Silva Tavares que acabaste de editar é precisamente sobre este tema. O que traz essa carta de novo? Qual a sua relevância para uma leitura da actividade surrealista em Portugal?

EC — Essa carta, intitulada «Intervenção (minha) surrealística?!!!!!», caracterizada pelo habitual acinte verbal de Luiz Pacheco, coloca, muito interessantemente, e por parte de alguém que foi editor com uma actuação prescritiva na definição dos contornos da acção surrealista no nosso país, várias discussões como a da afirmação geracional, a das divergências entre companheiros de grupo, a da própria origem social de alguns dos autores mais sonantes do movimento, no fundo é um Pacheco parasociólogo apostado em desconstruir muito do que Cesariny legitimou na sua «A Intervenção Surrealista», o que dá bem conta da elevada dose de subjectividade que presidiu a algumas das escolhas, dos eventuais equívocos ou enviesamentos que têm lugar quando se trata de arrumar nomes para a História. E tudo isto é dito, sem rodeios, a Vitor Silva Tavares, precisamente o editor de «A Intervenção Surrealista», sinal da consabida frontalidade que pontuava a relação entre estes dois titãs.


Capa da mais recente edição da Barco Bêbado

SA — Parece haver uma inclinação na Barco Bêbado para a poesia, mas também se nota, sobretudo na folha intitulada “Calamidade” e até nas plaquetes, uma intenção de participação política. Achas que ainda há passado por desenterrar? E esse gesto de exumação pode ser esclarecedor para o presente que estamos a viver?

EC — Essa ideia de um continuum significante agrada-me. De se poder ler o presente a partir dos textos, das criações doutrora. É algo que tem a ver com técnicas de leitura, é certo. Mas quando, por exemplo, se abre o «Pontas de Fogo», do Paulo da Costa Domingos, e se lê “Congelamento de salários” ou “Nação valente / Deus-Pátria-Autoridade”, eu, leitor, estou em 1977 mas também em 2020. E porque não dizer o mesmo de “A cidade está grávida de sangue”, verso do José Manuel Pressler, publicado originalmente em 1967? É sinal de que os textos se aguentam com a passagem do tempo e que o gesto editorial, enquanto ruptura de uma censura, tem de primar pela atenção.

SA — Uma última pergunta. Fala-se muito nos hábitos culturais dos portugueses, ou na falta deles, e mais ainda na escassez de leitores. Uma nova editora quando são tantas as queixas pode parecer uma afronta. Preocupa-te mais a ideia de que os portugueses não lêem ou a de que compram poucos livros, presumindo que alguma destas questões te preocupe? 

EC — Preocupa-me sobretudo que muitos portugueses tenham pouco dinheiro para comer. Ler sem nada no estômago provoca dores de cabeça.

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