Entre as ruínas e as memórias da aldeia perdida do Gavião

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A viagem faz-se a um ritmo lento, por um caminho estreito de terra batida. À volta encontramos olivais, vinhas e amendoais plantados. Cada vez mais para trás fica a aldeia de Seixo de Manhoses. Chegamos a uma encruzilhada e é aí que se ergue um cruzeiro sobre um soco quadrangular, constituído por uma cruz latina com imagem de Cristo. A aldeia do Gavião, situada a sete quilómetros de Vila Flor, está próxima. Mas está também deserta e arrisca-se a desaparecer, após ter caído no esquecimento. A desertificação passou por aqui antes do despovoamento que o interior vive hoje. Há 50 anos que as pessoas começaram a deixar esta aldeia transmontana e não voltaram. Partiram “acossados pela necessidade”, como diria Miguel Torga, metendo toda “a quimera numa saca de retalhos”. 

Drone – Olavo Evaristo

Ao longe, sentimos o barulho das máquinas que trabalham de forma intensiva na apanha da azeitona. Este ano mais cedo do que o habitual, mas o “tempo não ajudou”, segundo António Teixeira. “Aqui só costumamos apanhar a azeitona lá para os fins de dezembro, inícios de janeiro, mas este ano com o mau tempo ela tem caído toda para o chão”, refere o agricultor que trabalha nos terrenos agrícolas que compõem a paisagem do Gavião.

Abandonada há mais de 50 anos pelos últimos habitantes, a aldeia de Gavião é, agora, um local em ruínas visitado por aqueles que um dia deixaram lá as suas raízes, por os que trabalham ao seu redor ou por curiosos que querem conhecer a vida que lá existiu.

É em Seixo de Manhoses, no distrito de Bragança, que procuramos saber mais sobre o Gavião, porque foi para lá que os habitantes se deslocaram quando desistiram de viver sem condições. “Não havia água, nem eletricidade. Depois as pessoas começaram a emigrar para França e para África e outras vieram para o Seixo”, explica Isabel Ferreira. A proximidade à sede de concelho e a construção de casas pelos emigrantes tornam Seixo de Manhoses numa das maiores freguesias de Vila Flor. Por aqui, dos 469 habitantes, segundo os Censos 2011, são poucos os que não têm raízes ou familiares que habitaram no Gavião.

Dos últimos habitantes sabe-se o nome e detalhes da vida resiliente que levaram. Trabalhavam no campo e lá plantavam cereais, vegetais, leguminosas, consoante a época do ano. Também criavam animais em alguns terrenos próximos da aldeia. Ele, de nome José, era um grande contador de histórias, andava sempre com a guitarra pronto para cantarolar e animar a festa, apesar das adversidades da vida. Ela, Maria, tinha um grande coração, bondosa para aqueles que a rodeavam, sempre pronta a ajudar. Ambos são hoje recordados com saudade. Tinham 12 filhos e cinco ainda estão vivos.

Sr. josé e Dª. Maria, os últimos habitantes

Na memória, os filhos guardam histórias de tempos difíceis, em que se trabalhava muito e, muitas vezes, não havia comida em cima da mesa. “Era uma aldeia muito pequenina. Para ir às compras tinha de ser no Seixo”. Quanto à água, “tínhamos de ir à fonte do muro, que ficava da parte de baixo da aldeia. Os meus pais tiveram de vir embora porque não havia lá mais ninguém, foram os últimos a sair”, confessou Armindo Moura. 

Sr. Armindo com a mulher, Eugénia, e os dois filhos do casal, em África

Armindo passou a sua infância e adolescência no Gavião. A sua mulher Eugénia Roios nasceu em Seixo de Manhoses, mas foi viver para a aldeia da Senhora da Graça, no colonato do Limpopo com os pais. Casaram-se por procuração através de duas testemunhas, ele no Gavião e ela em Moçambique. Aos 21 anos, Armindo estava apurado para a tropa, mas movido pelo amor optou por emigrar. Durante sete anos assentou arraiais na aldeia da Senhora da Graça, no coração do vale do Limpopo, 200 quilómetros a norte da então capital Lourenço Marques. Em Moçambique nasceram-lhe dois filhos. Trabalhava numa machamba (terreno agrícola) de arroz e tinha uma boa casa, porém em 1967, após não se sentir confortável e seguro com os relatos sobre a guerra colonial regressou. Foi em Seixo de Manhoses que começou do zero e onde permanece até hoje, porque o Gavião já estava abandonado. 

“Sempre que aqui passo choro, diz com a voz a tremelicar sem conter a dor interior que o entristece. “Olhe, a casinha dos meus pais está tudo no chão. Nasci ali naquele quarto, agora nem porteira tem. E depois de um emocionado silêncio rematou: “o vento já deu cabo de tudo!”. 

Quem por aqui passa tem oportunidade de observar as casas de pedra, com estruturas de madeira e com telhados a ruir. Algumas casas ainda com cobertura e fachada têm dono, mas a maioria encontra-se ao abandono. Há vestígios de um lagar e da antiga capela de Santo António, que só já lhe resta o altar e as ruínas que compõem a fachada . A tempestade Leslie, que afetou Portugal em setembro de 2018, acabou por fazer ruir muitas estruturas e telhados.

No centro da aldeia do Gavião, encontramos uma amoreira, de grandes dimensões, que dá sombra para umas fragas. Emília Afonso, recorda saudosamente as tardes passadas naquele lugar. A época das amoras era a sua favorita. “Como eu comi amoras daquela amoreira, como elas eram docinhas!”, relembra feliz.

Hoje é Giovana Junqueira, natural de São Paulo, que ao visitar a terra natal de uma das suas amigas de faculdade, pinta as mãos ao apanhar amoras, pela primeira vez, da mesma amoreira. A sensação de liberdade é o que mais destaca. Só não gosta dos bichos e dos “dragões”, também conhecidos por lagartixas, que se cruzam no seu caminho.

Giovana na amoreira


A fonte do muro e as suas lendas 

Decidimos descer àquela que é, misteriosa e paradoxalmente, considerada uma das causas da desertificação da aldeia: a fonte de água. Aqui, só o som dos passos perturba o silêncio, a calma e a paz que se faz sentir. O caminho para a fonte do muro é íngreme. Conhecida por ser o único local onde existia água, a mítica fonte deu origem à principal lenda da aldeia abandonada do Gavião. Contam os mais antigos que no Gavião havia 13 moradores e 14 loucos. Um dos 13 habitantes, um lavrador, tinha um burro e dava-lhe água da fonte, consta-se por isso que até o animal era doido. Mas esta não é a única história que ilustra memórias da aldeia.

Adérito Moura conta-nos a história que o seu avô José, o último habitante do Gavião, lhe contava. “Segundo o meu avô, aquela fonte tinha um encanto! Ele estava sempre a dizer que na noite de S. João, tínhamos de ir sozinhos até à fonte, por volta da meia-noite. Quando lá chegássemos, haveria uma serpente que nos ia morder um dos dedos do pé. Se não estremecêssemos, a serpente transformar-se-ia numa bela jovem e quebraríamos o feitiço”, conta com um sorriso.


A desertificação antes do despovoamento

Situada no coração de Trás-os-Montes, a aldeia abandonada do Gavião é uma aldeia de provável construção baixo-medieval. As casas são de granito restando-lhes coberturas, sobrados e caixilharias. 

Apesar de os habitantes do Gavião se terem deslocado para Seixo de Manhoses, na procura de melhores condições, a verdade é que por ali ainda se davam, então, os primeiros passos no desenvolvimento. Como qualquer aldeia rural, não tinha uma rede de água, muito menos saneamento e eletricidade. 

Mas tinha outras vantagens que lhe davam uma posição favorável em relação ao Gavião. A proximidade à sede de concelho, as ruas empedradas, intercaladas com as de alcatrão que permitem melhores acessos, as pequenas mercearias com fruta e alimentos necessários, bem como as fontes e ribeiros que rodeiam a aldeia.

Hoje, Seixo de Manhoses é uma das maiores aldeias do concelho de Vila Flor, apesar do despovoamento que já se faz sentir. Aqui o passado e o futuro cruzam-se em cada fachada. Nos bancos do largo de Santo António tudo se passa, tudo se sabe. É ali que se reúnem os mais velhos que comentam vidas alheias e observam os mais novos que caminham em direção ao campo de futebol. A noite é embalada pelo som dos grilos solitários que se fazem ouvir sob o céu estrelado. Mas esse silêncio é quebrado pelos galos que cantam antes do sol acordar. Também o sino da Igreja Matriz perturba esse silêncio e rege a vida da aldeia airosa, que cheira a terra e a mato. Já o Gavião, encontra-se cada vez mais escondido pela natureza que toma de assalto as suas ruínas. As memórias e fachadas são tudo o que resta de uma aldeia que não é mais do que um ponto turístico, não explorado.


Paisagem de casas ao abandono

Estrada de passagem para quem trabalha nas quintas e prédios que compõem a paisagem, as visitas ao Gavião são diárias. Mas é no mês de agosto, que o número de pessoas duplica.

Os migrantes e todos os que um dia “acossados pelas necessidades” se fizeram à estrada e ao desconhecido, regressam pelo pino do verão. É no “querido mês” de agosto que se realiza uma festa no Santuário de Santa Cecília, bastante valorizada pela população de todo o concelho de Vila Flor. O Gavião não deixa de ser, por isso, ponto de passagem obrigatório para quem regressa.

São muitos os que vão ao Gavião visitar as casas das suas famílias, outros recordam a infância e alguns mostram a riqueza de um património imaterial aos filhos e amigos que consigo trazem. Também os campistas que enchem o parque de campismo de Vila Flor, movidos pela curiosidade, vão em busca da “aldeia perdida” e ficam fascinados.

Daniel Meireles é emigrante, mas nasceu e viveu no Seixo. Hoje, apanhou o autocarro que faz o trajeto Seixo de Manhoses – Vila Flor e ficou assustado. “Apanhei-o com duas crianças. Na minha altura (quando andava na escola), só a minha rua enchia quase o autocarro. É triste, ver isto morrer assim! Daqui a uns dias somos como o Gavião!”, confessou.

Do Gavião, temos uma vista privilegiada para o Vale da Vilariça. Tal como um quadro é pintado ao pormenor, parece que esta vista também o foi. A riqueza agrícola da região e o reflexo da água da barragem do Couquinho dão vida ao cenário.

Já do lado contrário, avista-se o cemitério de Seixo de Manhoses. Cada vez maior, este já acolheu os últimos habitantes do Gavião. Símbolo do fim, se a história da aldeia do Gavião fosse um livro, poderia este ser um presságio do seu final.

Se em tempos foram os habitantes do Gavião que saíram na busca de melhores condições de vida, hoje são os mais jovens que saem da aldeia de Seixo de Manhoses à procura de mais oportunidades. Quem sai pretende concretizar outros objetivos que esta zona não lhes permite. Não admira: sem políticas consequentes viradas para a descentralização e com impacto positivo no interior esquecido do país, estas vastas zonas têm na fuga das suas gentes o destino triste de uma vida que ali não tem futuro. Percebe-se, assim, a inquietação dos que resistem à fuga, a fazer-se ao caminho, e que, persistentes, teimam em se manter como varas na paisagem crescentemente despovoada e feita de casas ao abandono. Haverá razões para pensar que o destino de Seixo de Manhoses vai ser diferente do vizinho Gavião? Quanta necessidade e sonho cabem na resistência e nas “sacas de retalhos” desta gente?

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