Entre os Polos e a savana: o mundo selvagem na lente de um fotógrafo português

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Das calotes polares às savanas africanas, Pedro Rego, transmontano de gema, já fotografou animais um pouco por todo o mundo. Em 2012, trocou as sapatilhas e os fatos de treino pela fotografia, a sua paixão, que lhe permite aliar a “comunicação e a emoção”.  Conjugar este gosto com o fascínio pela natureza, permite que “ informe as pessoas acerca de perigos do ecossistema” e as alerte “relativamente a animais em via de extinção”. Agora, como tantos, a sua atividade está condicionada pelo coronavírus: o trabalho suspenso, e uma viagem às atlânticas ilhas Selvagens, confinada na agenda e sem data marcada. 

Apesar de admitir que ser fotógrafo, em Portugal, “não é fácil”, nada o apaixona mais do que passar três meses no polo norte, em busca do seu animal preferido: o urso polar. Os seus trabalhos tanto procuram sensibilizar as pessoas para as alterações climáticas, como são faróis na sinalização do necessário “equilíbrio entre a conservação e o turismo, para que ambas possam andar de mãos dadas”. Afinal de contas, apesar de ser um sonho, o seu trabalho é um sonho que fica caro; o que exige, dirá a certa altura da nossa conversa, a obtenção de financiamento com as dificuldades e limitações que isso implica. E pur si muove, o único e verdadeiro arrependimento foi não ter começado mais cedo. Por uma vez, dir-se-á com ironia que nunca o trabalho precário e mal pago de um professor deu frutos tão saborosos.

Como é que alguém do nordeste transmontano, um dos extremos mais pobres do país, foi parar aos dois polos do globo?

[risos] Acaba por ser uma das características principais de um fotógrafo de natureza: essa necessidade de ir e viajar muito por pontos diferentes, normalmente, onde estão os animais. Embora nós gostemos muito e tenhamos uma zona muito rica, em termos de fauna (Portugal tem cerca de 70% da fauna presente na Europa), o que é certo é que também tenho gosto de viajar lá para fora, conhecer novas realidades e de conhecer outros animais. No fundo, foi isso que me levou a iniciar um projeto fora de portas e que, em último caso, me levou aos dois pontos mais extremos do planeta: o polo norte e o polo sul.

E o que o levou a deixar a sua anterior profissão de professor de educação física, pela fotografia?

Em 2012 tive uma transformação grande na minha vida, quando decidi que era isso que queria fazer profissionalmente. Desde 1999/2000 que fazia fotografia, mas sempre de forma amadora e básica. Mas ia aprofundando os conhecimentos. Até que em 2012, cansado da falta de oportunidade na área do ensino (não conseguia colocação certa e quando a tinha era sempre com horários reduzidos), e sem um ordenado aceitável, disse para comigo — tinha 31 anos —, que era altura de mudar a carreira precária em que andava há anos.

Foi assim que decidi abraçar este novo projeto profissional, que passou pela fotografia de natureza. Começou por ser a resposta a uma necessidade, mas, é acima de tudo, um enorme prazer. Em todo o caso, não foi um tiro no escuro, nem um salto para o abismo, porque já tinha conhecimentos profissionais na área, que me ajudaram a fazer esta mudança.

E essa paixão pela fotografia, bem como pela viagem, veio de onde?

A paixão pela fotografia e pela natureza (acima de tudo, pela natureza) começou desde cedo. Como transmontano, a minha ligação com a natureza sempre foi muito forte. A ligação com a fotografia nasceu um pouco mais tarde. Não sou fotógrafo desde pequenino, como se costuma dizer na gíria (sorri), pois não nasci num ambiente fotográfico — acabei por construir esse gosto. Primeiro, a partir de filmes e, depois, a partir da era digital. A fotografia não foi nada que nasceu comigo, não foi logo desde início, infelizmente (hoje, já posso dizer isso [risos]), sendo uma transformação que ocorreu em mim. Comecei a descobrir a fotografia aos poucos e, depois, em meados de 96/97, comecei a fotografar; a partir daí, foi escalando o meu gosto por esta arte.

A viagem sempre foi algo de que gostei muito. Tive a sorte de ter um tio que me motivou sempre muito a viajar. Como ele tinha uma autocaravana, às vezes íamos seis, sete, oito primos com ele à descoberta dos Picos da Europa, Pirenéus, França, Mónaco…. E eu comecei a ganhar, assim, um bocadinho do gosto pelo que é viajar…

Nós estamos habituados ao nosso cantinho. Muitas vezes, apenas viajamos cá dentro, o que não é mau de todo. Portugal é um país fantástico e eu sou dos defensores que, antes de irmos lá para fora, devemos conhecer o que temos cá dentro. Também viajei muito internamente. Gosto de dizer que conheço praticamente tudo do nosso país! Mas foi a partir dessas viagens internacionais, que comecei a ganhar este gosto por viajar, conhecer culturas diferentes. E que, felizmente, já me levaram a vários locais do mundo.

Então, o que significa, para si, a fotografia?

Acima de tudo, comunicação. Para mim, desde sempre que defendo dois conceitos que, para nós, são básicos, mas que são difíceis de exprimirmos para os outros: comunicação e emoção. Quando conseguimos aliar isso numa fotografia, conseguimos comunicar com a pessoa e transmitir algo.

Com a fotografia tento, acima de tudo, na parte da comunicação, informar as pessoas acerca dos perigos dos ecossistemas e sobre os animais em via de extinção. Tenta-se comunicar algo que seja relativo a informações de biodiversidade e natureza. E, depois, há a parte da emoção, em que procuramos criar uma ligação afetiva entre a fotografia e o animal que estamos a retratar, bem como com a pessoa que está a ver as fotografias. Só assim é que, para mim, a fotografia faz sentido.

Existem várias formas de nos expressarmos dentro da fotografia, mas aquilo que eu escolhi como cunho pessoal é esse aliar da comunicação e da emoção.

“As redes sociais ajudaram na difusão da fotografia, mas também provocaram uma avalanche em termos económicos, porque as pessoas se acostumaram a ter a fotografia gratuitamente e não entendem que ela tem um custo e um preço”.

Apesar da vontade de mudar de percurso, quais foram as dificuldades que sentiu?

Muitas mesmo: se ser fotógrafo, em Portugal, já não é fácil, então ser fotógrafo de natureza… Os primeiros anos foram mesmo muito difíceis. Posso garantir que, entre 2012 e 2016/2017, vivi um período muito difícil. Primeiro, de adaptação; segundo, da construção de um portefólio e de um nome, para que as pessoas pudessem ter confiança no meu trabalho.

Períodos de adaptação

Admito que todas as profissões têm as suas vantagens e desvantagens, obviamente, mas, relativamente, à fotografia em si, nós passamos hoje tempos algo estranhos. As redes sociais e esta era digital vieram valorizar muito a fotografia. O problema é que a valorizou em termos de imagem e em termos do gosto das pessoas, mas não monetariamente. Ou seja, as redes sociais ajudaram na difusão da fotografia, mas também provocaram uma avalanche em termos económicos, porque as pessoas se acostumaram a ter a fotografia gratuitamente e não entendem que ela tem um custo e um preço. É-lhes muito difícil comprar uma fotografia. Se eu, por exemplo, pedir cinco ou dez euros por uma fotografia, que as pessoas não fazem a mínima ideia do trabalho que ali está, acham que sou maluco.

Esta é uma realidade completamente diferente daquela que vemos lá fora. Por exemplo, em Espanha, é comum vendermos fotografia ou os direitos comerciais por 100 a 200 euros e as pessoas não acham estranho.

Embora eu seja fotógrafo de natureza, sempre me preocupei em saber mais sobre fotografias de casamento, fotografia de casamento. Além disso, faço também fotojornalismo. Sou colaborador do Correio da Manhã, Jornal de Notícias, do Record, em termos desportivos, procurando saber sempre mais e procurar alargar a minha carteira de possibilidades em termos económicos. Se me focar só em fotografia de natureza, certamente, as dificuldades seriam muito maiores.

Com essa banalização e desvalorização monetária da fotografia, qual é o papel que um fotógrafo profissional tem, atualmente?

Nós não podemos menosprezar as redes sociais. Primeiro, porque elas também ajudam a divulgar o nosso trabalho, permitindo, gratuitamente, que ele vá mais longe. Portanto, todos os fotógrafos, amadores e profissionais, podem e devem usar as redes sociais, para difundir o seu trabalho.

O papel do fotógrafo amador

Eu não consigo ficar contra uma pessoa que cede uma fotografia, porque está no seu direito. Mas pedia que tentassem proteger a fotografia, para não se banalizar, e tentarem proteger quem faz disto vida, porque é injusto. Nós vemos, muitas vezes, empresas que, embora a valorizem, se a puderem ter gratuitamente, não hesitam na escolha.

Para quem faz fotografia amadora, gostaria de aconselhar: não cedam os vossos direitos das fotografias gratuitamente. É necessário olhar pelo equipamento, que tem uma vida útil. Para se ter material de qualidade, temos de investir dois a três mil euros, no mínimo. Um dia, essa fotografia vai morrer, mas, se puderem ter dez, 15, 20 euros pelo trabalho, vai ajudar a que se tenha mais material no futuro. No fundo, acaba por proteger a fotografia e a profissão do fotógrafo.

Uma vez que fala do seu equipamento, quando sai de casa, o que é indispensável  levar na sua mala?

Depende muito dos trabalhos. Agora, no presente trabalho, sou fotógrafo e videógrafo, pelo que tenho de levar os dois equipamentos: câmara de vídeo e material fotográfico. Se for para fazer trabalho fotojornalístico, tenho de levar um equipamento. No caso da fotografia de natureza, tenho outro. Por vezes, leva-se o drone…

Uma boa dica para quem está a começar (como já me aconteceu a mim, [sorri]) é levarem as baterias e os cartões de memória. Várias vezes me esqueci das baterias ou dos cartões de memória e o dia ficava arruinado. Aquilo que se fazia depois era prospeção. Contudo, fazer um plano em casa é fundamental.

Em fotografia de natureza, é fundamental uma teleobjetiva longa, porque nos permite chegar aos animais que, normalmente, estão longe de nós. Além disso, uma objetiva grande angular, para conseguir fotografar paisagem. Em termos gerais, o que temos de levar é algo que nos permita fazer o trabalho do dia. No ideal, levamos sempre uma margem de distâncias focais entre os 16mm e os 500 mm.

Que plataformas utiliza, para partilhar os seus trabalhos, além dos jornais com os quais colabora?

O meu site pessoal: pedroregowildlife.com. Depois, tenho o Instagram e o Facebook. Estes são os canais privilegiados para construir o portefólio online. No início, também partilhava no olhares.com, onde se aprendia muita fotografia; mas, hoje, já é mais comercial.

Acima de tudo, tento não me dispersar muito dos sítios onde as pessoas podem consultar o meu trabalho. Neste sentido, as redes sociais são as privilegiadas. Além das publicações no Correio da Manhã ou no Jornal de Notícias. Por outro lado, já tive oportunidade, felizmente, de publicar na National Geographic e outras revistas internacionais. Mas, nesse caso, muitas vezes nem tenho acesso, pois é reservado aos países de publicação.

Contudo, as redes sociais têm este lado que nos permite valorizar e partilhar ainda mais o nosso trabalho.

“Dando o exemplo do urso polar e do Ártico, quando começou o storyline do livro e do documentário, delineei: eu quero falar sobre o urso polar e os perigos de extinção, bem como acerca do ecossistema do ártico, que está em perigo. A partir daí, todas as fotografias e filmagens são feitas nesse sentido. Tem de se contar uma história para as pessoas — só assim a fotografia faz sentido”.

Contou-nos que o seu “cunho pessoal” era a fotografia de natureza. De onde vem a sua paixão pelo mundo animal?

É curioso, porque a minha ligação começou desde pequenino. Os meus pais eram de aldeias, embora tenham vindo para a cidade – onde nasci -, mas todos os fins de semanas ia para lá. Com dez anos sozinho pelos montes, nos lameiros, pelo que criei, desde logo, uma ligação forte com a natureza. À medida que fui crescendo, o Parque Natural de Montesinho tornou-se um sítio privilegiado para eu visitar. O meu pai, que também era muito ligado à natureza, deixou-me este “bichinho”.

Ligação à natureza

A sua preocupação com os animais é fundamental no seu trabalho…

Esse é o principal objetivo do meu trabalho. Um fotógrafo pode optar por fotografias avulso, mas um dos meus objetivos é criar uma história, para contar; criar essa comunicação com as pessoas e aí colocar a emoção.

Dando o exemplo do urso polar e do ártico, quando começou o storyline do livro e do documentário, delineei: eu quero falar sobre o urso polar e os perigos de extinção, bem como acerca do ecossistema do ártico, que está em perigo. A partir daí, todas as fotografias e filmagens são feitas nesse sentido. Tem de se contar uma história para as pessoas — só assim a fotografia faz sentido.

Sendo as suas viagens a locais tão diversos e longínquos, quais são as principais dificuldades, cada vez que vai para um novo destino?

Muitas e diversas. Há que ter em conta alguns cuidados.

Por exemplo, quando se vai para África, há que ter cuidados com a vacinação. E, agora, nesta fase de confinamento, é quase anedótico falar disto, mas é verdade.

Para o polo norte ou para a Antártida, já não é necessário haver esse tipo de cuidados, porque lá não há vírus, é tudo muito raw (cru), despido de doenças.

O que é necessário é sobretudo uma grande planificação. É preciso estudar a realidade dos locais onde se vai, bem como estudar os locais, para saber que material ou roupa levar: os cuidados em termos de proteção pessoal, em termos médicos.

Depois, existem zonas onde não é necessário seguro adicional, mas, na Antártida, é necessário um seguro que cubra uma extração de helicóptero de emergência. São seguros mais caros, mas necessários, pois pode acontecer algo e haver uma conta de 50 mil euros para pagar.

Em síntese: o sítio tem de ser estudado ao máximo, quer em termos de clima ou de cultura, para não se correr o risco de ofender as pessoas. Em países europeus, não há tanto esse cuidado, mas se for para países muçulmanos, com outras religiões e culturas, é importante ter este background.

“Quem vive no Porto ou Lisboa pode marcar reuniões com Relações Públicas ou empresas. Quando se está em Bragança, não se pode ter essa experiência, porque não há contactos. A maior parte dos e-mails não são abertos e são as empresas as principais impulsionadoras. Em termos mais locais, consegui ter patrocinadores, que se quiseram associar, porque valorizaram o meu trabalho”.

E em termos de financiamento: é fácil chegar a ele?

Não. Essa é a parte mais difícil.

Felizmente, as coisas têm corrido bem, mas não é fácil. Muitas vezes, tem de se recorrer ao crowdfunding, que eu detesto. Sempre tive um problema… por não pedir a nada a ninguém. Sou muito individualista nesse sentido. Foi uma tempestade emocional, quando fiz o primeiro crowdfunding. Embora tenha corrido bem, quando vi o primeiro comentário menos simpático, nas redes sociais, destruiu-me interiormente e eu ponderei finalizar o processo e desistir. Contudo, a minha esposa deu-me força e fez-me avançar. Muitas vezes temos de lidar com pessoas mal intencionadas, que não percebem o intuito do trabalho. Em termos psicológicos, é difícil estar a pedir ajuda, mas é um mal necessário.

Dificuldades de financiamento

Depois, outro processo importante são os patrocinadores. Felizmente, eu consegui ter muitos. Ser de Bragança não ajuda nada, porque estou longe de tudo. Quem vive no Porto ou Lisboa pode marcar reuniões com Relações Públicas ou empresas. Quando se está em Bragança, não se pode ter essa experiência, porque não há contactos. A maior parte dos e-mails não são abertos e são as empresas as principais impulsionadoras. Em termos mais locais, consegui ter patrocinadores, que se quiseram associar, porque valorizaram o meu trabalho. Financiamento é do pior e o mais difícil de alcançar. Além disso, estas expedições são extremamente caras.

Qual a viagem que o marcou mais?

Todas as viagens são diferentes e têm algo de especial.

Contudo, a que me marcou mais foi a do Polo Norte. Sendo a primeira, marca sempre. Não há amor como o primeiro, embora não acredite muito nisso [risos]. Mas também foi cumprir um sonho de criança e também porque o meu animal favorito é o urso polar. Sempre tive grande curiosidade sobre esse animal e sempre quis vê-lo ao vivo. Quando tive essa oportunidade, foi um turbilhão de sentimentos tão grande, que essa memória dificilmente se vai desvanecer. Foi dia 14 de junho de 2016, por volta das 15 horas da tarde — marcou-me muito.

Sendo um fotógrafo de vida selvagem, nunca sentiu que a sua vida estivesse em risco em alguma situação?

Não necessariamente. Embora estejamos numa situação de algum perigo, um fotógrafo de natureza nem sequer pensa nisso. Quando estamos no terreno, não pensamos muito nos perigos, mas temos sempre muito cuidado com a nossa segurança pessoal.

“Não há nenhuma fotografia que valha a nossa vida.”

Às vezes, depois quando chegamos a casa, num maior relax, olhamos para trás e dizemos, bolas, és um bocado maluco [risos]. Quem tiver medo não pode andar neste tipo de fotografia, medo dos animais, medo deste tipo de natureza.

Em termos de perigo, sim. Houve lá uma situação com um urso polar em que fomos surpreendidos. Acabou por não ser perigoso porque o guia viu a tempo e conseguimos recuar, mas nada de mais. Houve duas situações em África com leões, que estavam um pouco mais descontrolados [risos], e acabaram por fazer uma carga, mas uma carga de “bluff”.

Barreiras de segurança

Quanto aos ursos polares, são mais fáceis de fotografar e de filmar. Grande parte dos avistamentos são feitos ou de um barco de borracha ou do próprio navio quebra-gelo, ou seja, em terra é mais difícil vê-los. Em terra nós temos que ir sempre acompanhados com uma pessoa, o chamado guia, que leva consigo uma espingarda e uma arma de alarme. Se o urso polar fizer intenção de se aproximar muito ou se estiver a aproximar-se muito, dispara-se a arma de alarme para o ar e, normalmente, ele vai embora. Se não for, aí o guia terá que o alvejar para nossa proteção (ninguém quer isso), mas o problema é que ele só tem uma bala na espingarda. Portanto, se ele falhar, as coisas podem correr muito mal [risos].

Tenta-se respeitar acima de tudo a nossa vida, mas também respeitar muito a natureza e as regras de segurança. Não é muito comum um fotógrafo de natureza ou um videógrafo colocar-se numa situação de perigo. Eu estive a três metros de um leão e não aconteceu nada, se fizermos as coisas bem feitas, dificilmente um animal selvagem ataca. Só existe um animal que é perigoso por excelência, e ataca por atacar, que é o hipópotamo. Todos os outros atacam se virem se o seu território está a ser invadido ou se sentirem ameaçados. São essas as duas premissas de um ataque de um animal.

Aqui em Portugal, por exemplo, nós temos uma péssima informação quanto ao lobo. Nós achamos que o lobo é um animal feroz, ofensivo, que nos ataca se nos vir, e isso é totalmente errado. Aliás, eu sou a prova viva disso. Já estive rodeado de cinco lobos, estou aqui e eles não me fizeram nada. Eles próprios se assustam mais do que nós.

Respeito

Tem algum momento mais caricato que gostasse de partilhar?

Por norma sou muito cauteloso e há gente que tem sempre muitas histórias para contar, mas eu não. Mas tenho uma especial, que me ficou na memória. Tinha acabado de chegar ao campo, seriam cerca das 6h30 da madrugada e andava a fotografar veados. Tinha visto um grupo deles que ia atravessar o monte e pensei: bem, não vou subir o monte, vou é dar a volta e depois fotografo-os quando estiverem a descer. E lá vou eu com a máquina às costas, sozinho, a pensar como iria fazer as fotos, quando, de repente, levanto a cabeça  e dou de caras com uma fêmea de veado. Ela dá um pulo e um berro “Braaa!”. Caí para trás, levantei-me e saí dali a fugir super assustado — fiz aquilo que não se devia fazer. Mais à frente acalmei-me um bocadinho, parei e acabei por sorrir desta situação, mas foi algo assustador na altura, porque também não tinha ainda grandes conhecimentos, estava a começar, embora não houvesse perigo nenhum, entre aspas, porque dificilmente aquele animal me iria atacar. Acho que ela se assustou mais que eu, mas foi giro porque demos de caras um com o outro, assim mesmo de surpresa e depois cada um fugiu para o seu lado.

Estórias para contar

Houve outras situações obviamente. Uma vez, estava num monte e quase que dei um pontapé a um javali e caí [risos]. Ele estava escondido numas giestas enormes e eu não o vi. Depois, um metro à minha frente, só ouço um ronco e ele foi para o outro lado. Se tivesse vindo na minha direção tinha-me dado uma porrada e aí podia ser perigoso [risos]. Confesso que fiquei estático, perguntei-me “Mas o que é que foi isto?!” e só depois, passados uns dez segundos é que processei, olha estava aqui um javali [risos]. São situações algo caricatas, mas também é o maior conselho que posso deixar às pessoas que também estão a pensar iniciar-se no mundo da fotografia de natureza. Não entrem em maluqueiras, façam as coisas muito bem feitinhas porque às vezes os acidentes acontecem quando menos esperamos.

Em termos de material, quais os cuidados que se devem ter e que tipo de material se deve levar, tendo em conta as temperaturas extremas que se podem fazer sentir nos locais que visita?

Tendo em conta os locais frios e muitos quentes, há muitos cuidados a se ter em conta. Quanto a África, é um sítio muito quente e pode fazer com que as máquinas de filmar sobreaqueçam, logo, temos de ter em conta isso. Se levarmos uma máquina que já sabemos que à partida, passados 15 minutos, entra em sobreaquecimento, não será uma boa solução para África. Estou a lembrar-me das máquinas “Sony”. Elas tinham problemas de sobreaquecimento, portanto são uma solução perigosa para levar para países que tenham uma temperatura acima dos 40 graus. 

Depois o pó e a poeira em África são dos maiores perigos para o material. Aqueles grãozinhos de pó que entram em todo o tipo de buraco possível e imaginário, e alojam-se nos corpos das máquinas e nas objetivas, podendo mesmo arruinar-nos a viagem. Se o sensor ficar todo sujo e nós não tivermos como o limpar, as fotografias vão ficar todas arruinadas. É aí que nós vemos a importância do material mais caro, aquele que é chamado de weather ceiling. Obviamente que temos de dar sempre importância à parte monetária, mas quem trabalha profissionalmente e quer ir para estes sítios, tem de ter em conta estes problemas e que os acidentes podem acontecer.

Quanto à Antártida e ao Ártico, é exatamente o oposto. Lá não há pó nenhum, existe sim um frio de rachar e as temperaturas facilmente atingem os 20, 25, 30 graus negativos. Temos muita dificuldade relativamente aos materiais, principalmente com as baterias. Convém sempre levar baterias extra e ter muito cuidado com elas. Por exemplo, há uma técnica que uso muito e é muito eficaz, que é meter as baterias nos bolsos interiores dos casacos para ficarem mais quentes e não descarregarem tanto. Muitas vezes, levamos três baterias para fora do navio e passado uma hora, quando damos por ela, duas delas já não têm carga. Se nós as deixarmos desprotegidas, elas descarregam com facilidade, por isso eu meto-as sempre junto ao corpo para a minha temperatura corporal as manter com carga. 

Sendo o seu trabalho em locais tão prístinos e aliando isso à divulgação de imagem pelas redes sociais, ou seja, à banalização dos próprios locais,  acha que isso faz com que cada vez mais as pessoas queiram visitar esses locais, que antigamente não eram passíveis de serem visitados, criando assim novas pressões nesses habitats?

Sim, 100% correto. É a chamada faca de dois gumes. Muitas vezes com a necessidade que temos de partilhar essas situações, acabamos também por promover um pouco a vontade das pessoas de visitarem esses sítios e criarmos esse tipo de turismo. O turismo de conservação ainda não é preocupante, o problema é o turismo de massas. Vemos sítios históricos que são visitados por grandes massas de turistas, que depois causam vários problemas de conservação desses locais. Quanto à natureza, acontece exatamente o mesmo. 

Temos o exemplo do Parque de Yellowstone, e de outros parques naturais dos Estados Unidos da América. O confinamento também tem as suas coisas boas e permitiu-me ver alguns documentários que tinha em espera e vi um sobre esses mesmos parques e como tiveram de criar regras de segurança próprias de visita, devido à massa crescente de turistas. No ínicio, não havia essas tais regras, porque eram poucas as pessoas que visitavam o parque. Mas cresceu de tal maneira que os próprios turistas já davam comida aos ursos, alces e bisontes, tornando-se um perigo enorme, tanto para a vida humana, como para a conservação daqueles locais, levando à criação de regras muito restritas.

A minha história documental sobre a extinção do urso polar e sobre os problemas do ecossistema do Ártico, também leva à criação de uma vontade nas pessoas de irem lá e visitarem aqueles sítios, mas também serve para alertar as pessoas. É sempre “a pescadinha de rabo na boca”, temos sempre esse problema. É um problema identificado e é por isso mesmo que, por exemplo, na Antártida e no Ártico, existem entidades que fazem toda a documentação e regulamentação das viagens turísticas. Existem regras de segurança muito rígidas e todas as pessoas que vão lá têm de obedecer. Temos de limpar o material todo. Por exemplo, quem for trabalhar tem que aspirar os velcros dos casacos, a roupa, etc., e só assim, depois é que podemos ter autorização de desembarque. Eu não acho que seja mau divulgar, eu acho é que é extremamente importante regulamentar e conservar.

Adaptação aos locais

Há pouco falou da questão da COVID-19 e que estava parado. Em que medida esta nova realidade está a afetar o seu trabalho e como é que se está a adaptar?

Está a afetar muito. Posso dizer que neste momento tenho quatro projetos parados em Portugal, por causa da Covid-19. Um deles, que me estava a agradar imenso, porque era um projeto que me podia levar 15 dias em maio e outros 15 dias em outubro, às Ilhas Selvagens, da Região Autónoma da Madeira. Iria lá passar esses dias para fazer um trabalho sobre as cagarras (ave-marinha) e sobre as próprias ilhas. É com muita tristeza que estou em casa, porque, neste momento, deveria lá estar e estou aqui, no meu escritório, em Bragança. É uma chatice.

Também tenho outros que estão parados por causa desta situação, que não é nada boa. Obviamente que nos está a afetar a todos em termos económicos e, claro, em termos de projetos, porque temos de estar parados. Mas estou a adaptar-me de uma forma muito simples. Não deixei totalmente o ensino: sou professor de fotografia e vídeo. Então, estou a aproveitar para reformular as aulas, porque agora vamos começar a dar as aulas por videoconferência. 

Também acabei por aproveitar para trabalhar no documentário sobre a Antártida e, como nós fotógrafos fotografamos e somos editores de imagem, acabamos por ter um trabalho duplo. O trabalho de campo e depois o trabalho em casa a editar, que também é preciso e que nos rouba imenso tempo. Portanto, neste momento tenho-me dedicado, acima de tudo, à edição.

Então, com esta nova realidade e com um pouco mais de tempo para pensar, já começou a pensar em novos projetos?

Sim. Nesta fase como temos um bocadinho mais de tempo livre, comecei por fazer o estudo e o storyline dos próximos trabalhos. Tenho de momento três trabalhos que estão a ser preparados: um sobre África, que também vai sair em livro, e tenho planeadas as viagens à Namíbia e ao Botswana para completar o livro. Dos novos trabalhos que vão surgir em 2021, um vai sobre os orangotangos de Sumatra. Cada vez mais há relatos sobre os problemas do ecossistema onde vivem, fruto da desflorestação por causa do cultivo da planta de palma, para extração do seu óleo. Tenho ainda outro trabalho sobre o Yellowstone e sobre alguns parques naturais dos Estados Unidos. 

“Spirit Bear”

Quando se está a planear um documentário não pode haver “ses”, tem de haver certezas. Por causa disto tudo, tracei o plano B e comecei já aqui na minha zona, na minha terra, no parque natural de Montesinho a fazer algumas filmagens. A ideia seria, no mais curto espaço de tempo, conseguir apresentar um documentário sobre Trás-os-Montes: o Trás-os-Montes selvagem. Portanto, esse é o plano B. Se não for possível fazer trabalhos lá fora, ainda este ano, ou, em 2021, certamente o documentário sobre a esta zona irá surgir.

“Não tenho a perceção do que é levantar-me de manhã e ter de me arrastar para o trabalho. Levanto-me às cinco ou seis da manhã e vou todo contente para o meio do monte para filmar, ou então venho para o computador para editar imagens, e isso faz-me feliz”.

Já que falou do projeto do “Spirit Bear”, presumo que uma das suas referências seja o Paul Nicklen, certo?

Eu sempre o achei com alguma “arrogância”, uma arrogância boa: “Ah eu não preciso de referências, não preciso de estudar arte, eu faço as coisas por mim. Eu é que sou bom”. Não é assim, não é assim de todo e se nós queremos evoluir na fotografia, devemos compreender a vertente artística primeiro, para depois a podermos transportar para a fotografia.

Obviamente, também devemos compreender a técnica fotográfica e ter as nossas referências. Eu hoje tenho várias referências, tanto portuguesas como estrangeiras. Gosto muito dos trabalhos do Luís Quinta, do João Cosme ou do Carlos Rio… são tantos que não vale a pena estar agora aqui a enumerar todos. Mas acima de tudo, tenho duas grandes referências fotográficas: o Paul Nicklen e o David Yarrow. O David Yarrow é mais da vertente fotojornalística, fotografia a preto e branco, mas o Paul Nicklen é, de facto, o meu “ídolo”. Trabalha nas zonas que eu adoro e  faz o mesmo tipo de fotografia que eu. Aprendo muito com ele, não só na vertente do enquadramento fotográfico, como também na vertente da conservação e das mensagens que posso transmitir. Eu uma vez vi uma Ted Talk dele, achei aquilo fantástico. Senti qualquer coisa cá dentro, e quando nós sentimos qualquer coisa cá dentro…— é pá, é isto! De facto, para mim, o trabalho do Paul Nicklen é fabuloso e eu tenho-o muito como referência para melhorar também, não só a minha comunicação, como também o sentimento ou a emoção que eu coloco nas minhas fotografias.

Em jeito de conclusão, sabendo o que sabe hoje sobre todo o seu percurso na fotografia, o que é que diria a si próprio quando começou? 

Que estava certo. Felizmente, hoje posso dizer que estava certo, porque sou uma pessoa feliz com o que faço. Quem quiser ganhar dinheiro ou quem quiser ser rico, não venha para a fotografia de natureza ou mesmo para a fotografia, porque não dá esse dinheiro. Não nos dá boas almofadas económicas, porque é preciso estar sempre a investir em novo material, caríssimo, e é preciso estar sempre com material de ponta, para conseguirmos entregar o melhor trabalho possível. Mas, felizmente, diria a mim próprio que estava certo, não pela vertente económica, mas pela vertente da realização pessoal. Posso dizer que, hoje, sou uma pessoa realizada e sou um privilegiado. Há poucas pessoas que o podem dizer, mas faço aquilo que gosto. Não trabalho um dia sequer da minha vida, não sei o que é trabalhar porque faço as coisas com gosto. 

“Teria começado mais cedo”
Fotografias cedidas por Pedro Rego

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