Especulação ou interesse público?

JP Valery (Unsplash)

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A panóplia de casos judiciais que polvilham a comunicação social, nomeadamente as televisões que entram pela casa das pessoas, e em que o zapping muitas vezes e em muitas horas não resolve a nossa questão selectiva, parecendo não haver mais do que um assunto em agenda pública, conduz ao “massacre” dos neurónios do espectador, mesmo se interessado na causa em causa, na preservação do bem comum e no rigor das contas públicas que afectam os contribuintes.

Na verdade, o mesmo se passa com a notícia e o debate em saúde, em que surgem especialistas com grau de formação elevado sabendo promover a literacia e tornando os apresentadores uns basbaques na inadequação das questões, a par de políticos e generalistas que opinam sobre mutações virais como se fossem inimigos de trazer por casa, mostrando gráficos e convicções de estrelas sustentadas pelas audiências, atemorizando ou diluindo informação sem filtro conforme o seu alento, como se de um filme de batas brancas se tratasse.



E o mesmo se passa quanto à economia, em que destilam vocábulos presumidamente técnicos, arengas pretensamente inquestionáveis (numa ciência não exacta…), transformando o deve e haver caseiro em custos e proveitos sem distinguir o erário das opções da ciência económica, sabendo o que é a economia normativa e ortodoxa, com racionalidade, individualismo e equilíbrio, olhando de soslaio a macroeconomia pós-Keynes, e ignorando a economia social.

Para completar a explanação que impressiona ouvidores em tecnologia de écran mágico ou 5G, também surge o futebol que é dissecado até à exaustão, servindo-se da paixão das multidões, por ora adormecidas nos estádios mas activas na telopsia, digerindo treinadores de bancada, ex-futebolistas transformados em doutores, e comentadores de tácticas e mercado de jogadores e ainda promotores de direitos de imagem em publicidade, que transformam um segundo em primeiro vencimento de ídolos do pontapé na bola.



Já não há “Deus, Pátria, Autoridade” nem “Fado, Fátima e Futebol” no conceito da ditadura, mas novos perigos frenadores e manipuladores se expressam, conduzindo à rejeição de vacinas anti-COVID que salvam vidas, ao fundamentalismo que desestrutura o equilíbrio alimentar, ou à pose social hirta mas não vertical, que renega a proximidade e a igualdade como valores, dando azo à xenofobia, ao racismo e à maledicência como leitmotiv, gerador de tensões sociais e aquisição de ideologia negacionista.



A especulação tomou conta do nosso espaço mediático, traçando cenários de faca e alguidar, retratando casos sem culpa formada e sem trânsito em julgado, forjando a justiça popular a assumir-se como poder na rua, sem legitimidade.

E, lamentavelmente, muitos transgressores da dignidade e da lei continuam a escapar-se como as enguias por entre os dedos, com a permissão de off-shores e outros paraísos não só de fiscalidade.

E, infelizmente, os opinion-makers não conseguiram (fazer os governos) acabar com as listas de espera em saúde, não deram um médico de família a cada português, não recuperáramos atrasos de diagnóstico precoce e rastreios em doenças evitáveis que vão matar milhares de portugueses por via da centralização na pandemia.



E, apesar do economês e do tempo de antena dos experts e abastados, a produtividade no trabalho, a criação e manutenção de empresas geradoras de emprego, o investimento no desenvolvimento sustentável, não aumentaram por essa via, competindo à renovação de mentalidades e ao exercício da cidadania pelo desenvolvimento e à governação pela coesão social e direitos humanos, assumir consciência cívica e laboral, boa gestão da aplicação de PRR e Portugal 20-30, e transformação de gerações mescladas de experiência e inovação, sem compadrio nem trampolinice.



E o futebol já não será o ópio do povo, porque o povo diferencia razões e paixões de ilusões e mistificações, mas sendo uma indústria potencialmente geradora de milhões, desvio de objectivos inerentes, e constelação de urubus sacripantas em circulação, apresenta riscos em distracção que confunda o essencial com o acessório e perigo de perversão do desempenho em rede social e familiar.

O interesse público não é apenas uma tendência filosófica, legal, científica ou política, que diferencia público de oficial, que do ponto de vista sociológico é comum na democracia, portanto na sociedade pluralista.



O interesse público tem de ser materializado como bem comum, segundo Aristóteles e Tomás de Aquino, como solidariedade social, conforme Jean Bodin, como interesse comunitário, de acordo com princípios constitucionais, como defesa dos direitos humanos, um paradigma das Nações Unidas.



Respeita-se e defende-se o interesse público quando a lei e a justiça prevenirem a criminalidade organizada e o enriquecimento ilícito, e quando punem os prevaricadores ouvidas as partes e consumada a prova, em defesa dos contribuintes; quando as pessoas não mendigarem acesso aos serviços de saúde e aos seus tratamentos em torno do SNS, e receberem orientações técnicas consistentes e coerentes em saúde pública, em defesa dos cidadãos; quando não houver assimetrias escandalosas entre quem tem salários e pensões mínimas e a dignidade só na alma, e os que opulentamente, perfilham dinheiro faz dinheiro e a dignidade tem preço, em defesa da sociedade igualitária; quando os craques com ufania se relegarem para a sua função na indústria da diversão, e as profissões que geram bens essenciais e as que prestam serviços que salvam vidas forem consideradas como merecem e reconhecidas como tal, em defesa das pessoas.

Quando há interesse público, pode vir a predominar o bem-estar social, e não cabe a especulação como motor do serviço público, sendo o ser humano um servidor ou prestador de serviço e não tenha como prioridade servir-se.

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