Esses perigosos objetos chamados livros

Ed Robertson (Unsplash)

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Todos os dias têm chegado do Brasil notícias inquietantes. Na crónica de hoje, vou referir-me a uma delas: segundo a imprensa brasileira, a Fundação Palmares pretende desfazer-se de exemplares raros e mais de 5 mil livros do seu acervo, por razões meramente ideológicas. Mais do que estupefacto, fiquei estarrecido.

A imprensa menciona a existência de um relatório designado “Três décadas de dominação marxista na Fundação Cultural Palmares”, o qual indica que aquela fundação decidiu retirar do seu acervo pelo menos 5.300 livros “por apresentarem ideologia marxista ou estarem velhos e em desacordo ortográfico”.

Entre os livros retirados, contam-se clássicos da literatura universal e brasileira, incluindo obras de Machado de Assis, considerado o maior escritor do país de todos os tempos e que, pela sua origem, deveria ser um símbolo da própria Fundação Palmares. Indo diretamente ao ponto: como é que uma instituição criada para resgatar o papel dos negros na formação do Brasil censura, por qualquer razão, o maior escritor negro e nacional do país?

A imprensa destacou também, pelo seu absurdo idêntico, a retirada do livro “Dicionário do Folclore Brasileiro”, obra clássica do historiador Luiz da Câmara Cascudo.

Segundo o relatório “Três décadas de dominação marxista na Fundação Palmares”- um exemplo do revivalismo macartista vivido no Brasil e em outras partes do mundo, a começar pela América trumpiana -, dos quase 10 mil livros do acervo da instituição, apenas 5% foram considerados “adequados”.

A leitura desta notícia fez-me pensar na história da perseguição a esses objetos chamados livros, considerados tão perigosos por muita gente. A patética decisão da Fundação Palmares levou-me a pesquisar casos idênticos na História, além dos mais conhecidos e que fazem parte da nossa cultura geral mediana.

Assim, achei no Google uma lista básica, que partilho com os leitores. Além dos episódios ocorridos durante a Inquisição, o nazismo ou o golpe de 1973 no Chile, podemos mencionar outros casos conhecidos como “queima de livros” ao longo da história da humanidade:


Henry Be (Unsplash)


1 – No Egito antigo, milhares de papiros foram queimados, extinguindo cerca de 75% da literatura existente na altura, por ordens do faraó Akhnatón, que sucedeu a Ramsés II, por falarem de espetros e demiurgos;

2 – Por volta de 213 A.C. na China, o Primeiro Imperador da Dinastia Chin, mandou queimar uma grande quantidade deles, por considerar que preservavam a moral e as ideias dos Antigos;

3 – No ano de 642, a Biblioteca de Alexandria, uma das maiores bibliotecas da história antiga, foi mandada destruir por ordem de Amr ibn al-As, governador provincial do Egito, em nome do califa Rashidun Omar ibn al-Khattab, pouco depois da conquista do Egito comandada por Amr;

4 – Em 1153, com a conversão das Maldivas ao Islão, além da decapitação dos monges budistas, uma grande quantidade de escritos sobre o budismo foi incinerada;

5 – Em 7 de fevereiro de 1497, partidários do padre dominicano Girolamo Savonarola, em Florença, Itália, recolheram livros e outros objetos de artes ou cosméticos que, supostamente, incitariam ao pecado, queimando-os em praça pública, naquilo que ficou conhecido como “fogueira das vaidades”;

6 – Entre 1536 e 1550, uma disputa entre Henrique VIII, da Inglaterra, e o Papa resultou na incineração de textos católicos, fazendo em cinzas cerca de 300.000 volumes; 

7 – Em 1861, 300 livros espíritas foram queimados publicamente pela Igreja Católica em Barcelona, num episódio que ficou conhecido como “Auto de fé”;

8 – Já no século XX, nos Estados Unidos da América, os livros de Wilhelm Reich foram mandados queimar pelo Departamento de Estado, sob a acusação de pornografia, por, entre outras contribuições, debaterem as funções do orgasmo;

9 – Em 2012, soldados estrangeiros queimaram exemplares do Alcorão numa base americana no Afeganistão.

Sim, os livros são poderosos, espalham informações e conhecimentos, ensinam e educam, difundem ideias, mudam as consciências, impelem à ação. Daí a loucura fascista da atual presidência da Fundação Palmares. Felizmente, a sociedade brasileira parece estar a movimentar-se para impedir que a importante biblioteca da referida instituição seja sacrificada.


Unsplash

Na mesma altura, entretanto, em que tomei conhecimento dessas perturbadoras notícias provenientes do Brasil, li no jornal português Público do passado dia 18 de junho uma crónica igualmente acerca da temática dos livros, assinada por António Rodrigues, a qual me fez acreditar que talvez haja salvação possível. Dois factos contados pelo autor ajudaram-me a ficar menos deprimido em relação ao destino desses objetos tão apreciados e tão perseguidos.

O primeiro é o atual fenómeno da Internet, o #BookTok, com mais de 11,3 milhões de visualizações, onde jovens falam sobre os livros que descobriram, fazem recomendações, leem e discutem as suas leituras em pequenos e criativos vídeos. Os booktokers, como se chamam a eles próprios, demonstram que a literatura não passou de moda.

O segundo é a iniciativa de uma série de instituições britânicas para conseguir 15 milhões de libras para evitar que uma importante coleção de manuscritos caia nas mãos de ávidos colecionadores privados. Trata-se da “Biblioteca Honresfield”, juntada pelos industriais vitorianos William e Alfred Law, a qual inclui manuscritos das irmãs Bronte, Jane Austen, Walter Scott e Robert Burns. A coleção estava “sumida” desde 1939. A liderar os esforços para conseguir os fundos necessários para evitar a “privatização” dessa coleção está a organização de beneficência Friends of the National Libraries (FNL).

É, é possível que o mundo se possa redimir. Talvez.


*Escritor angolano, publicado em Portugal pela Caminho.

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