Fazer política

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De certeza que não é uma opinião comum, e hoje em dia ainda menos, mas eu sempre me senti fascinado pela política. Não pela ideia de ser político — polo oposto de um jornalista — mas sim por tudo à volta dos centros e processos de poder. Talvez por este fascínio, uma parte de mim gosta de pensar que a política é uma atividade sofisticada, onde movimentações refinadas acabam por resultar nos objetivos pretendidos. Se o mundo nos ensinou alguma coisa nestes últimos anos é que esta parte de mim está bem enganada e, feitas as contas, a política moderna define-se por uma falta de estilo tremenda.

Este texto quase foi sobre Donald Trump — já falamos em 2021 — mas consigo encontrar atos políticos difíceis de entender mais perto de casa. Como, por exemplo, a última visita do rei de Espanha a Barcelona, em outubro. Como já comentei noutra crónica, o rei — um símbolo espanhol — é mal visto pelo movimento independentista catalão e as suas visitas costumam causar protestos na região. Devido à Covid-19, o volume das manifestações foi contido, mas um ato simbólico em particular demonstrou que entendo muito pouco da política atual.

A presidente da Assembleia Nacional Catalã (ANC), uma associação que visa a independência da Catalunha, Elisenda Paluzie, achou por bem pegar fogo — literalmente — a uma foto gigante de Felipe VI. O tipo de iniciativa não é novo, foi organizada pela ANC, a foto até tinha branding da Assembleia. Mas faz-me repensar a minha ideia de política. Para mim, “fazer política” significa encontrar acordos para chegar aos objetivos que se pretende. Então, o que há a ganhar quando uma instituição patrocina um momento destes? Serve apenas para queimar pontes.

Desde que vivo em Barcelona, assisto a momentos assim na política local. Em setembro, Quim Torra, até então presidente da Generalidade da Catalunha, foi afastado do cargo e impedido de assumir cargos públicos durante ano e meio. O motivo? Crime de desobediência, pois o governante, em 2019, recusou-se a retirar símbolos associados ao independentismo de edifícios públicos, indo contra a lei eleitoral e colocando em causa a neutralidade das instituições. Qual é a vantagem política de fazer algo assim? Se calhar deixa uma boa imagem para a sua base, mas um presidente tem de governar para todos e ver-se forçado a deixar funções por algo tão básico quase parece uma desculpa para abandonar os seus deveres.

O exemplo mais paradigmático é o da “declaração” da independência da Catalunha, em 2017. Carles Puigdemont, então presidente da Generalidade, subiu ao pódio do parlamento catalão onde declarou a independência da região. O twist foi que, minutos depois, na mesma declaração, suspendeu a independência e deixou um país a coçar a cabeça, sem entender bem o que se tinha passado e se havia independência ou não. O resto já é história: a maioria dos governantes catalães ficaram e enfrentaram a justiça espanhola (a constituição proíbe que as autonomias declarem independência), Puigdemont abandonou o país e acabou por ser substituído por Quim Torra. O que é que se ganhou com isto? Pouco ou nada, fora alimentar uma instabilidade que dura até hoje.

Olhando para estas situações, pergunto-me qual pode ser a estratégia de longo prazo para um movimento assim. E também me questiono se políticos que tomam estas decisões estão de verdade ao serviço do povo. A não ser, claro, que o que as pessoas querem são gestos simbólicos como expressão dos seus desejos — mas que não resolvem nada.

É, para mim, uma das grandes questões dos nossos tempos: vivemos numa época em que a política vive de extremos porque é assim que as pessoas se sentem ou estão as pessoas mais crispadas devido à influência dos centros de poder? Acho que ainda vou demorar até encontrar uma boa resposta.

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