Fazer por fazer

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Reza a lenda (ou, pelo menos, uma versão) que, quando Otto von Bismarck era embaixador da Prússia na corte russa, em 1859, se espantou ao ver um soldado de guarda no meio de um relvado. Intrigado, o futuro chanceler alemão perguntou ao czar Alexandre II por que é que tinham uma sentinela a guardar, no fundo, nada. O czar não sabia e espalhou a pergunta pelo palácio. Ninguém tinha uma resposta, incluindo os soldados encarregues da tarefa. “São as ordens que temos”, disseram. Depois de muitas voltas, um empregado do palácio, já idoso, revelou o mistério.

Ele contou que, ainda menino, o pai lhe explicou que, décadas antes, a imperatriz Catarina, a Grande, viu uma flor de rara beleza (as histórias variam na escolha de flor: narcisos, rosas ou campânulas-brancas) e ordenou que se colocasse um guarda ao lado para evitar que alguém a pisasse. Passaram os anos, morreu a flor, faleceu a imperatriz (em 1796), mas as ordens continuaram em vigor até ao momento em que alguém as questionou. Se isto aconteceu ou não, é complicado provar, mas a moral é óbvia: por que continuamos a fazer algumas coisas sem pensar se o porquê por detrás delas ainda tem lógica?

Lembrei-me desta história por, nalgum momento, ter tido uma reunião de equipa que começava dez minutos depois da hora. O facto “histórico” por detrás disto é que uma chefe anterior queria tomar o pequeno-almoço antes da reunião e, por isso, atrasou a hora de início. Embora ela já não estivesse na equipa, os dez minutos (inúteis) de espera lá continuaram no calendário.

No nosso dia a dia, é fácil encontrar muitas coisas que se fazem apenas porque sempre se fizeram. Por exemplo, todas as atividades em repartições públicas ou bancos que implicam estar a olhar para uma pessoa do outro lado do guichê a preencher um formulário num computador. Tempo perdido para nós — que tivemos de ir à repartição, quando podíamos ter preenchido o formulário em casa — e para quem escreve os dados porque, se calhar, podiam estar a fazer algo verdadeiramente importante para o bom funcionamento da instituição. E nem lhes falo da vez em que tive de esperar quatro horas para levantar o meu passaporte. Algo que demorou dois minutos, após chegar a minha vez.

Em Barcelona, hábitos que deveriam acabar incluem a queima de caixotes do lixo ou confrontos com a polícia no final de manifestações. Em setembro, decorreu a tradicional manifestação da Diada (Dia Nacional da Catalunha), que, como sempre, serviu para gritar slogans independentistas e para manter viva essa chama. Até aí, tudo bem, mas claro, no final, lá teve de haver distúrbios. Pelo menos desta vez ninguém queimou nada; mas, durante várias noites em fevereiro, esta foi a norma dos protestos. A chama da independência não deve ser uma expressão literal e — de uma maneira ou de outra — precisamos sempre de deitar o lixo fora.

Outra tradição de pouca utilidade: comentadores políticos com hora marcada em horário nobre. Com Miguel Sousa Tavares a anunciar a (sua) reforma do jornalismo e Marcelo Rebelo de Sousa, há muito, a colher os frutos do seu espaço de comentário, precisamos mesmo de levar com Marques Mendes ou João Soares nos ecrãs, só porque sim? Os comentários devem servir para mostrar perspetivas mais profundas sobre assuntos específicos, não para mover interesses pessoais (nem empresariais, nem partidários) e continuar com os holofotes em cima, só porque sim. Quando os comentários passam a ser permanentes, o comentador torna-se notícia. Ou já ninguém se lembra de quando Sócrates e Santana Lopes comentavam juntos?

Não precisamos de um Bismarck para nos abrir os olhos. Todos podemos fazer um pouco para matar hábitos que já não fazem sentido. Eu, pelo menos, já fiz a minha parte: bacalhau com couves na noite de Natal? Nunca mais.

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