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Jogos de futebol, sessões de terapia em grupo. Negociatas, branqueamento de capitais, astronómicos contratos. Ídolos com pés de barro, dirigentes arrogantes e boçais, especialistas vociferando nas televisões, pelotões de jornalistas louvaminheiros. Legiões de adeptos aos urros, guarda-chuvas arremessados à distância assumindo a compleição bélica de incerimoniosos rockets. Fanatismo, claques, a guarda pretoriana pronta para a perseguição encarniçada, murros e espancamento. Escoriações, rançosa vingança e… ao Betadine! Jornada após jornada, a decência tratada à biqueirada. Vejam só: Por um dito capcioso, simples livre ou cartão amarelo abate-se a sarrafusca, ecoa o insulto: “Cornudo. Filho da puta. Cala-te, bichona, metes nojo, pá”.

O engravatado funcionário bancário, o trolha de tímbrico assobiar, o empresário da resiliência, o jovem consagrado à escrita criativa, todos eles retornam à era da pedra lascada. Como em qualquer campo guerreiro ofertam a um deus pagão a cabeça escachada, os costados zurzidos, um pé-coxinho, “ai, ai, vou morrer”, e pancadaria de criar bicho a coberto do anonimato e impunidade das multidões. E ei-los a venerar a bola como fosse esfera armilar, as chuteiras dos heróis quais caravelas quinhentistas. Embandeirados e pintados com as cores do seu grémio, os espíritos tribais soltam arreganhada gritaria, ululam e pulam, choram e atiram, à queima-roupa: “Pareces um urso, ó boi!” Endeusam empáfias e bacoquismos, jogadas rasteiras, viscosa corrupção, o permanente clima de faca na Liga.

Antigamente, a rapaziada da minha aldeia ocupava os domingos nas matinais obrigações litúrgicas. Após o “ide em paz e o Senhor vos acompanhe”, almoço de inebriar o céu-da-boca. Passeios estrada fora de fatiota asseada, o pente assomando no bolso, bailarico nos baixos da casa e laranjada ou pirolito nos cafés do Juca, Simões, Osvaldo e do Abel Cagado. Matraquilhos, “remata, dá-lhe”, e camisa untada de óleo, azar do catancho. Mais valia ter jogado à malha e à reca. Ou, montado na velha pileca, arvorar-se em dom Quixote junto das moças trigueiras de amores andantes em floração.

De tarde, no chão de terra batida do adro da igreja, os pixotes viviam, alegres e felizes, os jogos de futebol sem árbitro.

– É nossa!”

Gritavam quando a bola pinchava fora das linhas de marcação traçadas com pau aguçado. Quem rematasse para fora tinha de resgatar o esférico aos silvados da Ribeira do Atalho ou ao olival do conde.

– Cuidado, aquele beiçudo é sarrafeiro”.

Segredava o estratega de olhar fixo na baliza de dois calhaus. Os lenços de bolso serviam de joalheiras aos guarda-redes, ganapos mais volumosos e de menos jeiteira para a finta e corrida. Mudava-se de campo aos seis golos e final aos doze.       

Já os rapazes mais espigados disputavam os desafios no terreno do celeiro, muito povo a encorajá-los, a dar-lhes vivas e palavras lambareiras. Em campo, o amor à camisola tricotada pela tia misseira trajada de luto da cabeça aos pés. E a dignidade em prol do bom nome da povoação envolvendo as equipas rivais. Ainda que engalispados, os craques desconheciam rancores e ódios, muito menos salário e vedetismo. E por tudo isso os encontros de futebol na aldeia dos meus mortos tinham sempre o mesmo desfecho: Atrás das medas de centeio, o plantel anfitrião e o visitante batiam-se a seivoso maduro tinto e taliscas de presunto surripiadas da arca salgadeira – cofre das preciosas chichas suínas.

Ora, a esta distância, um dia sonhei que até o senhor padre António Madeira dos Santos, por norma e feitio tão recatado no meio da beatice enredeira arregaçava a sotaina dos trinta e três botões e… pumba!, monumental pontapé de saída. Que bojarda, senhor padre! Depois, muito crente na justiça divina, pela calada metia uma cunha na federação celestial.

– Senhor, Senhor, velai pela nossa rapaziada”.

Mudar aos seis, final aos doze.    

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