Guedes é Bolsonaro e vice-versa

Pedro Godoy (Unsplash)

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A eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República do Brasil em 2018 contou com o apoio fundamental dos grandes meios de comunicação e de parcela expressiva dos representantes do financismo no país. Afinal, se fosse apenas por sua carreira política anterior àquele pleito, ele dificilmente chegaria ao Palácio do Planalto. O ex capitão do Exército escapou de ser expulso das Forças Armadas em um processo por indisciplina e terminou se candidatando a deputado federal em 1990. A partir de então, sua trajetória parlamentar seguiu por 7 mandatos consecutivos, sempre se apresentando como uma figura polêmica e um tanto exótica do campo ultra conservador, que defendia temas como a pena de morte e as práticas de tortura ocorridas durante a época da ditadura militar.

Bolsonaro logrou constituir um eleitorado cativo no Rio de Janeiro e jamais deixou de ser reconduzido ao cargo em Brasília ao longo de quase 3 décadas. Além disso, ele conseguiu montar um forte esquema político com milicianos, grupos de extermínio e ex membros das forças de segurança, de maneira que três de seus filhos caminharam também pelo espaço legislativo. Atualmente, um é senador, outro é deputado federal e o terceiro é vereador no município do Rio de Janeiro. O resultado desse processo é que seu sobrenome tornou-se uma grife eleitoral e sua família converteu-se em um lucrativo negócio.            

A candidatura a presidente surge no cenário pré eleitoral como uma aposta sem muita credibilidade nos meios políticos da direita tradicional. O ex capitão sempre deu voz a uma parcela da sociedade que não foi punida por seus atos criminosos ocorridos durante a vigência do regime autoritário. Ao contrário da maioria dos países latino americanos que passaram por esse ciclo, o Brasil não julgou nem puniu os torturadores, assassinos e demais dirigentes que praticaram inúmeros crimes em nome da ditadura. O caso mais simbólico talvez tenha sido a declaração de voto do então deputado federal, em 2016, ao se posicionar favoravelmente ao impeachment da ex presidente Dilma Roussef. Ali, Bolsonaro rendeu homenagem à memória de um coronel torturador confesso, que seguiu impune até o fim da sua vida.



Guedes apresenta Bolsonaro ao financismo

Apesar de tudo isso, uma parcela dos dirigentes do sistema financeiro enxergava no capitão uma alternativa para levar à frente o sonho de derrotar politicamente o nome apresentado pelo Partido dos Trabalhadores em substituição a Lula, que havia sido condenado e preso em processo que só agora se revelou uma fraude judicial. Para surpresa da maioria dos analistas, Bolsonaro conseguiu superar as opções do campo conservador e foi para a disputa do segundo turno contra Fernando Haddad. Ao longo da campanha, o candidato da extrema direita evitou fazer qualquer comentário relativo à economia. Para essa tarefa ele se valeu de um conhecido operador do mercado financeiro e dono de banco, Paulo Guedes.

Economista com um doutorado na Universidade de Chicago concluído na década de 1970, Guedes foi formado junto com a fina flor do conservadorismo monetarista, sob a batuta de Milton Friedman e seus pares. Sua proximidade política e ideológica com os chamados “Chicago boys” era tanta que foi chamado para trabalhar na equipe encarregada de assessorar a área econômica da ditadura sanguinária do General Pinochet no Chile em 1973. Quase 5 décadas mais tarde, Guedes continuava com a mesma receita do neoliberalismo para aplicar no Brasil. Suas propostas mencionavam a necessidade de privatizar todas as empresas estatais e realizar um cerrado arrocho nas contas públicas, para eliminar o déficit fiscal. A fixação friedmaniana com a busca do Estado mínimo parece não ter lhe saído da mente.

Como retribuição por ter aberto o caminho para conseguir apoio a Bolsonaro junto ao sistema financeiro, foi alçado à condição de superministro da Economia. O presidente promoveu a fusão de 4 tradicionais pastas na administração estatal federal e entregou tal responsabilidade a alguém que jamais havia ocupado um cargo no setor público. Guedes tornou-se responsável pelos antigos Ministério da Fazenda, Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e Ministério do Trabalho. Trata-se da maior concentração de poderes no comando da economia jamais vista na história do país.


Victor Freitas (Unsplash)


De simples apoiador a superministro

No entanto, depois de sua posse, pouco a pouco o presidente foi revelando a verdadeira face de seu governo e de sua forma de exercer o poder. A intolerância e o negacionismo converteram-se em políticas públicas, com a posse de ministros comprometidos com a pauta do conservadorismo político e ideológico mais extremado. As agendas de direitos humanos, meio ambiente e relações exteriores, por exemplo, romperam com a tradição do Estado brasileiro e passaram a operar a favor de soluções autoritárias para os cidadãos, contra o respeito à diversidade de todo tipo e em apoio às medidas de desmatamento, liberação de agrotóxicos e similares. Na diplomacia, a opção declarada do chanceler era de transformar o Brasil em um pária seara internacional.

A ocorrência da pandemia e a opção genocida adotada por Bolsonaro contribuiu para seu isolamento político interno. Boa parte dos setores das elites empresariais e das classes médias começavam a se arrepender da opção eleitoral que haviam feito em 2018. Porém, os grandes meios de comunicação ainda se agarravam à presença da figura de Paulo Guedes como argumento para ainda seguir apoiando o governo. A narrativa capenga se resumia ao fato de que o presidente realmente era muito ruim, mas o trabalho de Guedes na economia seria importante. No entanto, essa tentativa enganosa de diferenciar o ministro do presidente não resiste a qualquer análise. Afinal, Guedes é Bolsonaro. E vice versa.



Talles Alves (Unsplash)

O simples fato de ter amealhado uma fortuna com suas grandes operações no mercado financeiro não fazem do banqueiro alguém supostamente refinado e de livre trânsito na intelectualidade conservadora da sociedade brasileira. Na verdade, ele é alguém tão ou mais tosco do que Bolsonaro. Não bastasse por seu passado de apoio a ditaduras, mas também pelas políticas que está tentando implementar e por suas declarações públicas, onde deixa bastante claro seus valores e suas propostas. Assim, vamos listar aqui abaixo algumas de suas opiniões externadas e divulgadas pelos meios de comunicação:

i) “funcionário público é parasita”: essa declaração carregada de preconceito contra os trabalhadores do setor público foi feita em 02 de fevereiro de 2020, em meio ao debate a respeito da reforma apresentada por sua equipe, que retirava direitos dos servidores públicos.

ii) “agora até empregada doméstica quer ir para Miami”: essa afirmação proferida em 12 de fevereiro de 2020 retrata com triste primor a forma elitista e preconceituosa com que as classes dominantes brasileiras encaram seus empregados. Guedes comentava a desvalorização cambial que promoveu e dizia que no passado a moeda valorizada permitia até esse tipo de viagem, que ele condenava. Com dólar caro e real desvalorizado cada qual reconhece o seu lugar.

iii) “vamos colocar uma granada no bolso do servidor público”: esse ato falho do ministro foi flagrado quando de uma reunião em 24 de fevereiro de 2020. Era uma estratégia para eliminar o “inimigo”, segundo suas palavras para designar os funcionários públicos.

iv) “todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130 anos”: essa aspiração justa e legítima dos cidadãos é vista por Guedes, segundo seu depoimento em 27 de abril de 2021, como um problema para as contas públicas. Assim torna-se compreensível a passividade do governo perante as quase 400 mil mortes pela covid registradas até o dia desta infeliz declaração.

v) “até filho do porteiro entrou na universidade”: essa confissão de preconceito explícito foi feita na mesma reunião que a anterior, em 27 de abril de 2021. Guedes não sabia que o encontro estava sendo gravado e se permitiu exalar sem nenhuma auto censura todo o seu desprezo pelo apoio que os setores menos favorecidos da sociedade haviam recebido dos governos de Lula e Dilma.

Assim, fica mais do que evidente que não há mesmo muita diferença entre a criatura e seu criador. Os setores das classes dominantes que tornaram possível a eleição de Bolsonaro pensam o país segundo uma avaliação muito semelhante à do capitão. E Paulo Guedes também exprime opiniões que em nada ficam a dever ao seu chefe. Ambos se identificam e se merecem mutuamente. Os dois integrantes da dupla perversa são igualmente responsáveis pela tragédia que têm provocado ao Brasil e deverão ser punidos pelo genocídio que perpetram contra a maioria de sua população.


*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal no Brasil.

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