Homens de chocalho ao pescoço

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Desapareciam clandestinamente, aldeia em silêncio cúmplice.

Madrugadas de marcha, montes acima, montes abaixo, contrafortes e escarpas, íngremes atalhos. Alguns, agachados, tinham de levar chocalhos ao pescoço, e é se queriam iludir as patrulhas de ouvido em riste. Dormida no enxergão, mais quilómetros de andadura até os abandonarem como se fossem cães vadios entregues à biqueira dos vaconços.

Quem não aguentou por lá ficou ou, vendo o caso mal parado, recebeu dois tiros dos engajadores.

O ajuntador espanhol estava feito com os carabineiros.

– Que m´ importa a mim? – falou curto e grosso um dos indocumentados.

Ao cabo de três dias, feridos e aterrados, sem nunca tirarem as botas cardadas, aparecia-lhes um corno de um francês a encatrafiá-los em camiões debaixo de fardos de palha e estrume, para enganar as chamadas forças de segurança. Ainda ao frio daqueles serros, a espera de horas, nem um Português Suave podiam acender, a ponta do cigarro topava-se a léguas.

Medos, fome rapada. Pequeno movimento na curva, temor não pronunciado. Sinais de faróis e outra estafa, taf-taf até atravessarem um rio gelado, água pelo pescoço, todos de braço dado, elo para nenhum deles ser arrastado pela corrente. E só uma muda de roupa interior…

Já a manhã ia alta quando, acantonados numa cabana de pegureiro, enganaram o estômago nas tetas de uma ovelha por ali deixada só, presa ao nagalho e com uma das patas partidas. Depois de terem passado pelas brasas com a cabeça em cima dos braços, rilharam maçãs verdes e fizeram a boca a pinga de garrafão, providencial compagnon de route que também passara a “Salto” a mais velha fronteira da Europa. Terroso até à medula, um malsão lamuriou-se:

– Quem me dera umas migas d´alho; ao menos rabo de sardinha a pingar. Ai quem me dera…

Borda de pão borneiro.

Sem perlongas chegaram-lhe o garrafão para a escorripichadela final, exibiram navalhas de ponta-e-mola prontinhas a despedaçar guardas e passadores estivessem eles feitos uns com os outros. E viajaram em outros camiões negreiros ouvindo histórias mirabolantes de promiscuidade, narrativas de traições e percentagem dada à Guarda Civil e aos da PIDE. Por fim, “O Salto” assegurado. Êxodo rural conseguido, campos ao abandono, aldeias apenas de velhos e crianças. Ainda atordoados abrangeram com o olhar a cidade grande, muito grande, à noite com fulgurações de gigantesco guarda-jóias. Ah, a luz eléctrica!…

“Já sois chegados, já tendes diante/ A terra de riquezas abundante!”

Pobres e analfabetos, nunca haviam enxergado banheira, bidé e supermarché; e todos, todos sem saberem uma única palavra de francês. Trouxa para riba dos ombros e malas de cartão rebocadas, finalmente derramados no seu achamento: La douce France de Voltaire, de Les Misérables, pátria da Liberté, Egalité, Fraternité, do grande Napoleão lembrado em exércitos de bustos. França das barricadas de 1789, da tomada da Bastilha, da Torre Eiffel, do bon-vivant do Bairro Latino, do Maio de 68.

O velho de Escarigo, cuidando não haver construção mais alta que a Torre das Águias, templo romano com o seu podium lá pelas bandas de Almofala, fixou os prédios roçando as nuvens, as varandas com bibelots de balzaquianas exibindo écharpes em tom bordeaux, Gauloise entre os lábios. Numa mistura de sentimentos, com o seu coquetismo, as bovarys atiravam-lhes sorrisinhos piedosos, quantos deles charmosos, que o diga o terrabinto do Jaime.

Entredentes há quem aprecie os maltrapilhos. Uma legião estrangeira desapossada de carimbo de fronteira. Pelos boulevards, um exército deserdado no fio da indignidade humana, combalido, servil, lulus ladrando à sua passagem. Que homens seriam aqueles? A que tribo pertenceriam? “Cafres da Europa?”. Viveriam em cabanas colmeadas alimentados a raízes bravas? Que língua morta, intraduzível, falarão? Quais os seus comportamentos, costumes, sabenças?

Do outro lado espantavam-se os enlabregados com os jovens guedelhudos e as senhorecas pintadas, decotes em baixo dos seios, saias coloridas acima dos joelhos; apalpadelas no olho da rua e beijocadas até mais não! Pouca-vergonha inimaginável em Portugal, nem no cinema ambulante se podia apreciar tal desaforo, atentado contra o pudor e os bons costumes – deus-nos-acuda.

Metropolitano, boutiques, moda, Vogue, objectos estranhos, lingerie, bâton, parfum Patchuli, Chanel. Esplanadas com cadeiras ao estilo Bauhans, croissant, baguete. Fachadas de museus, teatros, néons. Semáforos, gendarme com nariz à Cyrano de Bergerac. Formigueiros de Peugeot´s, o último modelo da Renault e o «boca-de-sapo» e os dois cavalos da Citroen cheios de vitesse. E, e, o que será aquilo?

Da République à Bastilha, o desfile de milhares de manifestantes com bandeiras vermelhas, cartazes, palavras de ordem pronunciadas aos gritos. Cabeludos e flausinas da Sorbonne maldizem do governo e da oposição, dos patrões e dos sindicatos, da Nato e da poluição, do nuclear, Cia, guerra do Vietnam, da invasão de um país africano e golpe de Estado na América Latina. 

Betoneiras, guindastes, aço e betão ao alto. Hotéis, menu de restaurant, boîte, bohème; cinemas, Nouvelle Vague. Com minguadas falas e cheiro a curral os portugueses de Ceutas e Índias tornavam a olhar as varandas de madames e madamas de companhia. E, possuídos de raiva sabe-se lá de que lugarejo, juravam vingar-se nas coxas das perliquitetes, de certo carentes das Folies-Bergères. Que o diga o desmiolado do Jaime, j´aime, j´aime? Jamais!

A transformação dos camponeses em operários.

Para eles, Paris, a Paris de França não seria uma festa. Muito menos o berçário universal de onde partiam bandos de cegonhas com bebés dependurados do bico.

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