(i)mobilidades e inércias- uma fragilidade intemporal

Lin Mei (Unsplash)

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Reflexão a partir de Kenji Mizoguchi


Na Casa do Cinema de Coimbra, passou um filme realizado por Kenji Mizoguchi em 1956. O título original (Akasen Chitai) foi traduzido para português como Rua da Vergonha.

A obra representa um território da prostituição em Tóquio, após a II Guerra Mundial. A narrativa centra-se num bordel e nas vidas confinadas de mulheres que ali chegaram vindas de outras cidades e regiões japonesas, como Kobe ou a Manchúria.

Como qualquer obra criativa filtrada pelas perceções dos autores, esta Rua da Vergonha abre-se a múltiplas leituras e interpretações.

Sob o ponto de vista geográfico, destacamos a representação de um lugar diferente, uma rua de bordéis localizada num japão que se tenta reerguer depois da guerra. Com isso, Mizoguchi filma uma heterotopia nos interstícios entre o legal e o ilegal e um espaço de territorialidades clandestinas, essencialmente noturnas.

Este não é um mundo estranho quando o confrontamos com a realidade atual. No tempo presente, muitas áreas urbanas, sobretudo as mais cosmopolitas e abertas (mas não só), continuam a promover a diversidade e a produção destes microterritórios de vivências alternativas e de geografias obscuras.

O filme levanta outros tópicos que lhe conferem intemporalidade.

Numa perspetiva, o estigma da condição social e da localização. Na atualidade, os percursos individuais e coletivos poderão resultar de escolhas, refletir vocações, investimentos e compromissos pessoais. Ainda assim, num balanço sempre difícil de compreender e muito menos de quantificar, essas trajetórias continuam afetadas por variáveis como a origem, o lugar de nascimento e residência.

Esses condicionamentos geográficos manifestam-se de duas formas e em diferentes tempos.

Por um lado, pelas oportunidades que se ampliam ou diminuem. A geografia global continua marcada por rugosidades e os contextos espaciais e históricos experienciados por cada um inscrevem-se nas suas identidades e trajetórias.

Por outro, pela associação, quantas vezes estereotipada, entre a população e o lugar. Referimo-nos, por exemplo, aos preconceitos, positivos ou negativos, atrativos ou repulsivos, que categorizam a pessoa em função da sua morada.

Para alguns autores anglossaxónicos, trata-se de um caso de ‘local trap’, isto é, de interferência do local nos percursos de cada um. Com efeito, a chegada e o posterior confinamento daquelas mulheres numa rua de Tóquio projetou-se no seu futuro, criou forças de atrito e levantou muros de bloqueio ao movimento.

Nesse ponto de vista, Mizoguchi trouxe-nos uma visão que atravessa os tempos. A incapacidade para abandonar o local e aquela vivência, a fixação prolongada, o escasso ou nulo capital de mobilidade, tudo se traduz na dificuldade em exercitar um direito hoje consagrado – o direito a sair e a reorganizar as vidas longe, para lá e para além dos muros e das barreiras que reduzem os seus quotidianos a espaços limitados. Como se argumenta ao longo do filme, lá fora estarão pior e o bordel seria um território exclusivo de segurança, sem alternativa possível.

Também aqui Mizoguchi nos faz pensar a contemporaneidade e o modo como a população se distingue pelo capital da mobilidade.

A este propósito, autores como Amartya Sen deixam-nos um quadro conceptual pertinente. Para estes, o desenvolvimento (palavra sempre imprecisa e difusa) estará ligado à liberdade política, mas também à liberdade de escolha. Esta última remete-nos para o poder estar e ficar ou, em alternativa, para a capacidade de partir e procurar novas experiências e outras geografias.

No centro das atenções, mas não no foco das principais preocupações, estão agora as migrações precárias, os exilados e os refugiados (ou candidatos a essa condição). Sair e enfrentar os obstáculos das distâncias, só é possível com a mobilização de alguma forma de capital, ainda que incerta e insuficiente em muitos casos.

Assim acontece com as deslocações precárias que atravessam o Sahel, o Saara e depois o Mediterrâneo em direção à Europa, com um trajeto longo, frágil e com elevado risco de insucesso.

Uma parte do fracasso está nos espaços e os tempos de paragem, confinamento, inércia e imobilidade vividos ao longo de um processo intermitente e descontínuo.

Essa imobilidade (que não significa isolamento), sente-se nos campos de refugiados. Em muitos destes territórios de exceção (o termo é de Agamben), o espaço é confinado, as esperas são longas e o movimento é regulado e desincentivado.

A incapacidade de seguir caminho e reclamar o direito a sair (evidente no trabalho de Kenji Mizoguchi), continua a ser um fator de vulnerabilidade e precariedade.

Assim se produzem geografias discretas de populações precárias – o confinamento, a incapacidade de movimento, um poder escasso e sem a flexibilidade que permite responder a ameaças de insegurança e violência.

Este raciocínio aplica-se às territorialidades vividas em espaços confinados (e heterotopias) como a Faixa de Gaza.

Serve também de referência a alguns territórios insulares do Pacífico que, pela sua exiguidade e exposição às alterações climáticas, reduzirão o solo e o chão fundamentais para o quotidiano de muitas comunidades.

Esta imobilidade afeta populações como aquelas que não conseguem afastar-se das agressões ambientais e da marginalidade ecológica provocadas pela exploração de lítio em regiões frágeis como Salar de Atacama, no norte do Chile (a face negativa e menos conhecida da eletrificação da sociedade).

O mesmo acontece, no caso dos residentes, com a incapacidade de reorganização das vidas para além de núcleos como as favelas, as barriadas ou os slums (a denominação varia consoante a localização no mapa).

Neste balanço instável de deveres e direitos, pode evocar-se o direito a ficar – nem sempre garantido. Pode referir-se o direito a sair. Em muitos casos, também este não está ao alcance de todos. Poderemos encontrar estes princípios algures pelos dezassete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. No entanto, a formulação destes direitos não é evidente.

Significa isto que estamos longe de viver o século das migrações, facto que pouco se relaciona com a pandemia e com as restrições impostas ao movimento. Na verdade, antes da Covid-19, já muitas populações existiam em confinamento.

No entanto, estas têm sido menos estudadas. Sempre nos concentrámos nos fatores que impulsionam as saídas. Resta perceber as razões que limitam o movimento e sustentam essas imobilidades.

Há muito que se adotaram critérios e se pensaram esquemas interpretativos para perceber e cartografar os contrastes globais. Alguns, como as fraturas norte-sul, desenvolvido-subdesenvolvido, primeiro-terceiro mundo, sempre estiveram longe da realidade, caíram em desuso e tornaram-se anacrónicos.

A oposição móvel-imóvel deve ser tratada com cautela e analisada de forma não linear. Ainda assim, deixa-nos algumas pistas a explorar. Neste Rua da Vergonha, Mizoguchi não deverá ter seguido o mesmo raciocínio, mas acabou por levantar uma questão que atravessa os tempos, opondo o confinamento das mulheres mais frágeis à mobilidade mais flexível e livre de toda a constelação de atores que entra e sai daquele espaço.

Neste ponto de vista, esta heterotopia não deixa de ser uma alegoria da atualidade.



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