Ir e voltar, é saber estar

JUNK (Unsplash)

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Este mês, pela primeira vez em praticamente dois anos, estive numa iniciativa com centenas de pessoas. Totalmente fora do contexto familiar ou de contactos próximos, o evento incluía palestras, refeições e um espaço de exposição.

Agora as contas fazem-se assim. Já não basta considerar a oportunidade de ir, o querer ou mesmo a disponibilidade (financeira, de tempo, o que for). O primeiro pensamento divide-se (ou multiplica-se): sou segura/é seguro? E só depois se adiciona tudo o resto.

Esta Matemática é constante. Antes da primeira saída para as compras, antes da primeira visita aos mais queridos, antes do primeiro jantar fora de casa, antes do primeiro evento… Eventualmente, um dia, antes de ponderar reduzir a utilização da máscara.

Superado o ruído dos números, torna-se incrível a facilidade com que nos habituámos a sermos apenas cada um. As pessoas superam sempre os cálculos, parecem mais barulhentas do que nunca e, obrigatoriamente, ocupam muito mais espaço. Ainda que maior, o espaço de todos não engrandece o individual; pelo menos em comparação àquele confinado, em que só está, efetivamente, cada um.

E no meio dos números e das pessoas, tive saudades.

Quis voltar ao meu lugar, onde tanto tempo estive segura, sem contar os números, as pessoas ou os metros… Enquanto estava onde nunca estive, assisti a comunicações extraordinárias e vi tantas pessoas por mais do que uma câmara. Até que ouvi:

– O que falta aqui é a perceção do regresso à realidade.

Não sei se foram exatamente estas as palavras, agora (con)funde-se a “realidade” com a “normalidade”. O que ainda tenho bem presente foi o murro de humildade que levei…

Na realidade, foi tudo extraordinário. Foi bom ter medo e melhor ainda superá-lo. E a maior alegria também se multiplica (ou se divide), tanto pelas saudades de casa como pela “violência” que me fez perceber – a tempo, ainda bem! – de como é maravilhoso “voltar”, mas a sair de cada um. Somos agora novamente “nós”. A visitar, a conhecer… A aprender!

E para tudo isto, foi preciso ir.

Independentemente do contexto ou da experiência particular, a perceção, a saudade ou a realidade muitas vezes só ganham lugar depois deste “salto”, que acaba por definir cada um e determina o que é, ou como é, saber estar em comunidade, como “nós”.

E de que outra forma poderíamos (gostar de) voltar, sem partir?

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