Jornalismo no Brasil em tempos de pandemia e radicalismo político

Cobertura no país tem batalha contra apoiadores do presidente Jair Bolsonaro

Edmar Barros, durante a cobertura, no cemitério de Manaus (Créditos: Arquivo pessoal)

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Andréa Silva, principal repórter da TV Bahia, afiliada da Rede Globo, está de máscara e acaba de encerrar a reportagem em um bairro de Salvador. De repente, um homem se aproxima e a interpela: “Está trabalhando normal, recebendo o seu salário normal e a emissora quer que o País pare, não é? ”. Gravando toda a cena com um aparelho celular e, claro, com o rosto à mostra, continua: “Lá na sua casa deve ser muito confortável ficar dentro de casa, agora o povo está passando fome”. Assustada, Andréa se afasta.

É mais um episódio no cotidiano de jornalistas brasileiros, nas ruas para enfrentar dois inimigos nestes dias de pandemia: o coronavírus e os bolsonaristas, como se denominou chamar os seguidores do presidente Jair Messias Bolsonaro.

A polêmica reside na política de isolamento para impedir a propagação da Covid-19. Enquanto pelo menos 24 dos 27 governadores dos estados adotam a medida, o presidente discursa abertamente contra as orientações médicas e participa de atos com aglomeração de centenas de apoiadores. “Gripezinha”, “tem que enfrentar o vírus como homem” e “isso é uma neurose” são exemplos de declarações públicas sobre a doença, na contramão das recomendações da Organização Mundial da Saúde.

O Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de Justiça, encerra a discussão pública ao decidir, em 15 de abril, que os Estados e municípios têm autonomia para baixar normas de isolamento social e podem, por exemplo, restringir temporariamente o funcionamento de rodovias, portos ou aeroportos.

Ainda assim, a doença avança. Na quarta-feira, 13 de maio, o País contabiliza 177,5 mil casos do novo coronavírus (Sars-CoV-2) e exatas 12.400 mortes. Em meio à mortandade, o presidente fez no sábado 9, um passeio de jet-ski no lago Paranoá, em Brasília, depois de abandonar a ideia de fazer um churrasco, anunciado durante toda a semana.

“Temos enfrentado pessoas na rua com seus celulares apontados para a equipe de reportagem e com um discurso agressivo, ofensivo e equivocado. Eles são como metralhadoras que ferem e deixam uma mágoa pelo tamanho equívoco ao promover esses espetáculos ridículos e também pela impossibilidade nossa de qualquer reação”, disse Andréa ao sinalAberto.

A preocupação e os cuidados com os equipamentos de proteção, o distanciamento social e o estresse pela ameaça de demissões não são suficientes. É preciso estar atento para não sofrer constrangimentos de uma pequena parte da população ainda incrédula, mesmo diante da força da Covid-19, em virtude do posicionamento do presidente da República.

Também em Salvador, o jornalista Alexandre Lyrio, do jornal Correio*, foi constrangido pelo dono de um bar, aberto durante as restrições de funcionamento impostas pela prefeitura. “A abordagem foi feita da forma mais profissional possível. Questionamos sobre a propagação do vírus. Mas eu e o fotógrafo Tiago Caldas fomos praticamente expulsos. Disseram que éramos comunistas, contra Bolsonaro e chegaram a se comparar com os profissionais de saúde que estão trabalhando e, assim, eles poderiam trabalhar também”. 

Alexandre Lyrio também sofre com pressões, durante a cobertura
Créditos: Arquivo pessoal

Agressões são registradas de norte a sul. No dia 4 de maio, aproximadamente trezentas pessoas se espremem em frente ao Palácio do Planalto, sede do Governo, em Brasília, para manifestar apoio a Bolsonaro, ali presente, e reivindicar uma intervenção militar, o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. O premiado fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo, sobe em sua pequena escada para registrar a movimentação. De repente, um empurrão o leva ao solo. Em seguida, recebe socos e pontapés. É expulso do local.

“Ouvi hostilidades e xingamentos quando me identificava como jornalista e abordava manifestantes, para saber se não tinham receio de estar numa aglomeração daquelas quando o País ultrapassa 100 mil contaminados e 7 mil mortos por covid-19”, escreveu, no mesmo dia, em sua conta do Twitter, André Borges, repórter do Estadão, como é conhecido o jornal, e que acompanhava Dida na apuração. “Para além de criminosos, são atos desumanos. Daqui a alguns dias, parte destes que hoje expeliam raiva na Esplanada dos Ministérios e agrediam profissionais da imprensa correm o risco de terem que ocupar uma maca improvisada em um hospital de campanha, suplicando pela vida”, completou.

Em Recife, profissionais dos jornais Folha de Pernambuco e Diário de Pernambuco sofrem para fazer a cobertura de uma manifestação de apoio ao presidente, na Avenida Boa Viagem, no dia 15 de março. Bolsonaristas desrespeitam decreto do governo do Estado que proíbe eventos com mais de 500 pessoas. Intimidação, gritos, vaias, veículos cercados, tentativa de, com as mãos, tapar as lentes das máquinas fotográficas. Um dos organizadores do evento é preso e liberado logo em seguida.

Em Teresina, o cinegrafista Pablo Silva, da TV Clube, afiliada da Rede Globo, filma, em 5 de maio, os trabalhos de uma equipe do governo do Piauí que fiscaliza o cumprimento de ações restritivas para o funcionamento do comércio durante a pandemia. Recebe tapas de dois homens. Uma mulher bate na câmera.

No dia 14 de abril, em Francisco Morato, na Grande São Paulo, a repórter Mariana Aldano e equipe mostram, ao vivo para o telejornal SP1, a longa fila na agência da Caixa Econômica Federal, formando grande aglomeração. Dois homens se jogam na frente das câmeras e gritam “Globo lixo”. A transmissão é interrompida.  

A empresa emite a seguinte nota: “Eventos como esse atrapalham o trabalho dos repórteres, que estão cumprindo a importante missão de informar. A Globo entende que protestar é um direito do cidadão, sempre que dentro da legalidade. A emissora repudia qualquer tipo de violência e aproveita para reiterar que cobre os fatos com isenção e profissionalismo, e que assim continuará a fazer o seu trabalho”.

“Globo lixo” tem se consolidado como a principal expressão de ordem utilizada pelos bolsonaristas nos ataques contra a rede, que entendeu ser insuficiente um comunicado de repúdio. Para preservar os profissionais, a empresa decide vetar participações ao vivo dos repórteres nos telejornais a partir de locais abertos em São Paulo, Rio de Janeiro e em Brasília. Também está proibido o ingresso em hospitais, delegacias e cemitérios. Nas situações em que não for possível aplicar a nova regra, seguranças particulares são contratados para garantir o trabalho dos jornalistas.

Porém, quanto mais é criticada pelos radicais, mais a Rede Globo cresce na audiência. Lançado em meados de março, o programa Combate ao Coronavírus, exibido durante as manhãs, fez a audiência nacional da emissora crescer 25%. No mesmo mês, a emissora registra, durante o dia, média de 14,7 pontos, a melhor nos últimos dez anos. A Globo News, canal de jornalismo de tv por assinatura, se transforma no mais visto do Brasil no segmento com 145.301 telespectadores/minuto, de acordo com a Kantar Ibope Media, empresa especializada em medição de audiência televisiva.

Os ataques prosseguem. Discursos virulentos de Bolsonaro contra a imprensa têm sido uma rotina, sempre que se dirige a apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República. Jornalistas também estão ali para entrevistá-lo ou, ao menos, terem alguma declaração. No dia 5 de maio, ao ser questionado sobre a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, dispara para o repórter: “Cala a boca! ”

Enterros – O medo acompanha a coragem dos jornalistas. Em Manaus, há colapso nos sistemas de saúde e funerário. Em 27 de março, Bolsonaro incentiva, por meio de uma chamada de vídeo, por um aparelho celular, uma carreata favorável à reabertura do comércio. Em abril, a cidade, considerada um epicentro da pandemia no Brasil, contabiliza 2.607 mortos, mais que o dobro somado em abril de 2019: 1.025. O número médio de óbitos por mês é de 1.017. Os dados são obtidos pelo EL PAÍS, no Portal da Transparência do Registro Civil Nacional.

A situação dramática merece um telefonema, em 25 de abril, do Papa Francisco para o Arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner. O papa manifesta sua solidariedade e preocupação com as vítimas do novo coronavírus.

“Tomei minhas próprias precauções possíveis. Máscara de pano e uma de acrílico que comprei aqui em Manaus. Ando com meu carro, evito sair de dentro dele. Passo em frente aos hospitais e o contato com os parentes de pacientes, médicos, pessoas que estão com o drama dos enterros em valas comuns, faço por telefone”, explica ao sinalAberto a jornalista Rosiene Carvalho, colunista de política da Rádio Band News FM e freelancer para veículos como UOL, Folha de S. Paulo e Estadão.

Na linha de frente dos trabalhos na capital amazonense, o fotojornalista Edmar Barros também é precavido diante do grande contágio, ao adotar o uso de máscaras e luvas. “Costumo dizer que somos a infantaria do jornalismo, expostos como o motoqueiro que entrega a comida ou o enfermeiro”, conta ao sinalAberto.

Fotografa, em primeira mão, o sepultamento de corpos em valas comuns no cemitério Nossa Senhora Aparecida. As fotos rodam o mundo, em capas de jornais e revistas, apesar dos pesares. “Enfrentamentos questões políticas. No dia seguinte ao da foto no cemitério, a prefeitura impediu o acesso da imprensa alegando conflitos da imprensa com os familiares. Isso nunca existiu”, garante. “Temos problemas também com o Governo do Estado, mas sempre estamos um passo à frente, e conseguimos fazer o nosso trabalho”.

Blumenau, em Santa Catarina, a 4,2 mil quilômetros de Manaus, vai entrar para a história como a primeira cidade no Brasil a determinar o isolamento social. Em 17 de março, decreto do governador determina fechamento do comércio, com exceção dos serviços considerados essenciais. “Dois dias depois estava sendo aplicado o plano da empresa: home office para os jornalistas, sem prazo de retorno para as redações”, conta Pedro Machado, editor da Nossa Santa Catarina (NSC) Blumenau, afiliada da Rede Globo.

Seguindo as diretrizes da própria Globo, repórteres gravam com máscaras, não entram em ambulatórios e hospitais. Em entrevistas, as fontes recebem um microfone e a distância regulamentar é respeitada. Também foi ampliado número de entrevistas feitas remotamente, por meio de plataformas de videoconferências.

A cidade, na qual Jair Bolsonaro obteve 83% dos votos válidos no segundo turno das eleições em 2018, vira exemplo: taxa de ocupação dos leitos muito baixa, e sem mortes. Mas um vídeo, feito em 22 de abril, mostra dezenas de pessoas entrando em um shopping, após o anúncio do governo para um relaxamento do isolamento social. As imagens viralizam e os moradores começam a ser atacados, viram chacota vão parar no trend topic do Twitter. Em meio às críticas, outra novidade: o aumento na realização no número de testes. O número de casos, claro, aumenta. Assim, o episódio não tem uma ligação direta com o surgimento de novos infectados. “A repercussão negativa deixou o blumenauense com o orgulho ferido”, diz Machado. A situação segue controlada. São apenas duas mortes e 339 pessoas confirmados com a Covid-19.

Escalada – É na capital federal onde os conflitos entre política, ciência e sobrevivência se manifestam de forma mais clara. “O que percebo na conversa com amigos daqui e de outras redações é que estão todos com medo de se expor ao vírus. Mas num momento em que os principais jornais cortaram 25% dos salários, sinto que não há disposição para contrariar a chefia e, por exemplo, sugerir uma cobertura mais remota, ainda que isso prejudique a qualidade do contato com as fontes”, afirma ao sinalAberto um repórter de um grande portal de notícias, que prefere não se identificar.

O jornalista se refere à Medida Provisória 936, anunciada pelo Governo Federal, que autoriza, dentre outras ações, as empresas a reduzirem, proporcionalmente, a jornada de trabalho e os salários durante a pandemia.

Edmar Barros, no cemitério, em Manaus
Créditos: Arquivo pessoal

Diante da escalada de mortes por conta da doença e o mau desempenho na economia, com alto índice de desemprego, são identificadas mudanças de humor em Brasília. As hostilidades aos repórteres já encontram antagonistas. “Tenho percebido após o agravamento da pandemia pessoas gritando ofensas contra o presidente de dentro dos ônibus urbanos que passam em frente ao Palácio do Planalto. Vi isso nas três últimas vezes em que fui lá”.

Enquanto isso, o trabalho continua. Operários de um serviço essencial, repórteres seguirão nas ruas em busca de notícias. “É um jornalismo histórico, e dias de muita paciência. Usamos o silêncio diante da covardia, mas apenas nesses momentos infelizes, porque a missão de um jornalista é informar, é dar voz a quem precisa, retratar os fatos com verdade. Em tempos de pandemia, informação pode preservar vidas”, resume Andréa Silva.

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