Na peugada de Ferreira de Castro

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Um sol forte aquece o asfalto mais os paralelos da estrada que vai dar a Ossela, caminhos outrora percorridos por Ferreira de Castro, ali nascido em 1898, quando os carros de bois eram o principal meio de transporte e o trabalho no campo o destino inevitável das gentes pobres, como era o seu caso. A grande fuga era a emigração e assim se foi, para o outro lado do mar, garoto de 12 anos, precocemente adulto, apenas atraiçoado pela mudança de voz, em busca de sonho e riqueza — o ofício de escritor, que lhe haveria de dar nome e reconhecimento, não fazia ainda parte da sua e da nossa estória. De tão pobre que era, o primeiro retrato que se lhe conhece foi tirado aos 17 anos, em Belém do Pará, no Brasil. Não nos adiantemos, porém.

Dizíamos que o dia está quente ou, como escrevia nos finais do século XIX Eça de Queiroz, na sua Correspondência a Fradique Mendes, referindo-se ao calor de agosto, “isto está de ananases”, e a água fresca do rio Caima aqui tão perto… O nosso mergulho, no entanto, era outro: revisitar o percurso, o legado e as memórias de Ferreira de Castro, figura maior de Oliveira de Azeméis, e procurar saber o que ele representa, hoje, em tempos de desmemória e leituras fragmentadas, para o concelho e para os seus residentes. O ponto de partida para esta viagem é a casa-museu do escritor, doada à autarquia local, em 1967.

Após a emigração de Ferreira de Castro, aos 12 anos de idade, aquela casa, pertencente ao Comendador Gomes Barbosa, foi transformada num talho, em casa do povo e, por último, numa carpintaria.

O nosso anfitrião e guia, Hugo Ferreira, aproxima-se num passo calmo e olhar curioso. O jovem alto trazia o seu cabelo encaracolado apanhado, para que nada além da máscara o incomodasse. Convidou-nos, a mim e a Tiago Ribeiro, que procedeu ao registo fotográfico dos momentos, a entrar num edifício antigo, de um piso, para iniciarmos a esta revisitação à vida e obra de Ferreira de Castro.


Fachada da Casa-Museu Ferreira de Castro

Enquanto abria as diversas portas do rés-do-chão, de madeira desgastada e com mais de um século de histórias para contar, Hugo Ferreira começou por partilhar, com profundo entusiasmo, o “doce sabor” de contemplar uma exposição “montada pelo próprio Ferreira de Castro” com o objetivo de replicar as memórias da infância. De tais recordações importa destacar a salgadeira e o lagar de eixo de vertical, relíquias que atestam a versatilidade daquele espaço ao longo do século XX. Como explica o jovem oliveirense, após a emigração de Ferreira de Castro, aos 12 anos de idade, aquela casa, pertencente ao Comendador Gomes Barbosa, foi transformada num talho, em casa do povo e, por último, numa carpintaria.


Influências da inocente rotina de infância

Ao som de paralelos pisados por carrinhas e motorizadas que por ali passavam, mas também ao soar estaladiço de velhas folhas que pisávamos, entramos no jardim, um dos locais onde Ferreira de Castro fez nascer a sua paixão pela natureza. No trajeto, Hugo Ferreira partilha que o autor surgiu na sua vida aquando uma visita àquele lugar durante a infância, mas também pela consulta de obras presentes na sua casa. Naquele espaço, onde se encontram igrejeiras, outrora cuidadas pela mãe do letrado, e rosas de S. Teresinha, que escalam o enorme e imponente castanheiro, e enquanto mirava o terreno de perder de vista, Hugo Ferreira explica que as brincadeiras no jardim, a visão do pinhal que existiria em frente à moradia, os mergulhos no Caima durantes as gazetas escolares, foram episódios que fizeram efervescer na criança de Ferreira de Castro uma conexão com a essência ambiental.


Hugo Ferreira e as igrejeiras centenárias

Desde gaiato o escritor demonstrou uma abrangência de interesses, curiosidades que tomavam o seu pensamento. No texto “Aldeia Natal”, integrante da obra “Os Fragmentos”, o autor lembra as viagens à vila de Oliveira de Azeméis para assistir ao processo de impressão do jornal regional, assim como as idas à feira dos nove na vila de Vale de Cambra, onde lia literatura de bordel, uma corrente que abordava relatos sobrenaturais e contos populares. O diretor do museu Ferreira de Castro em Sintra, Ricardo Alves, estudioso castriano, considera que “o fascínio pela palavra impressa” conduziu ao desenvolvimento do nível estético de Ferreira de Castro, presente nos romances que escreveu durante a adolescência.


Rio Caima, onde outrora mergulhou Ferreira de Castro

Romancista e ficcionista por ambição

Depois de concluir a 4ª classe escolar, e apenas com 12 anos, Ferreira de Castro decide emigrar para o Brasil. Porém, as versões sobre as motivações do autor dividem-se. De modo decidido, Hugo Ferreira esclarece os objetivos de Ferreira de Castro ao emigrar. Sem descartar o facto de o pai do autor ter falecido pouco antes e de a ajuda financeira, por via das libras de ouro, ser importante, o responsável pelas visitas à casa-museu revela o que habitava na alma do jovem Ferreira de Castro: “Na escola de S. António, com 7 anos, apaixonou-se por uma rapariga chamada Margarida, que teria 18 anos”. Pausou o discurso apenas para verificar as nossas expressões de surpresa. Prosseguiu: “dizia que o seu amor era sincero e colocava cartas na algibeira da Margarida quando iam à missa. Ele queria ir para o Brasil para enriquecer e mostrar que era um homem grande e lhe conseguia dar uma boa vida”. Uma vez mais, contemplou os nossos olhares, sentindo que cumpriu com a sua expectativa quanto àquela revelação.


Pormenor do passaporte de Ferreira de Castro, marcado pelas alterações políticas ocorridas à época em Portugal

Iludido pelas promessas de riqueza, Ferreira de Castro trabalhou, como explica Hugo Ferreira, na extração da casca da árvore-da-borracha no Seringal do Paraíso, oferecendo o produto ao “capataz” de uma fazenda próxima. O processo pelo qual se desenrolava o pagamento, que permitia a compra de mantimentos aos trabalhadores é classificado de “escravatura capotada”. Porém, o talento intelectual de Ferreira de Castro foi a sua salvação e, ao fim de poucas semanas, ficou encarregue da contabilidade da fazenda. Graças às libras de ouro que colocou de parte, e ao alimento da paixão literária, construiu ao longo do tempo o seu primeiro romance. “Criminoso por Ambição” fora editado e publicado quando Ferreira de Castro tinha 16 anos, um romance que, desvenda Hugo Ferreira, possuía O Amor de Simão como título inicial, numa referência ao responsável da fazenda.

O primeiro romance do autor era composto por oito fascículos e fora vendido porta a porta, de modo a que os lucros fossem investidos na impressão gradual dos vários capítulos. Apesar de considerar um romance “ingénuo”, Ricardo Alves realça que nos diversos fascículos é possível encontrar um “construtor de atmosferas, um ficcionista”. O estudioso castriano reflete que em “Criminoso por Ambição”, Ferreira de Castro partilhou preocupações que viria a aprofundar com maior “bagagem e cultura” em adulto. Este primeiro romance, e outros que se seguiram, foram fruto do encontro do escritor com a biblioteca geral de Belém do Para, onde bebeu do saber filosófico, psicológico e literário. Pela vontade própria em estudar e se formar naquele espaço, as opiniões convergem na classificação de Ferreira de Castro enquanto autodidata. Em solo brasileiro, conta Hugo Ferreira, o escritor deu os primeiros passos na área do jornalismo enquanto freelancer.


Terceiro fascículo de “Criminoso Por Ambição”

O sonho, a miséria, o sucesso, a depressão e o regresso triunfante

Nove anos volvidos da sua partida para o outro lado do oceano, Ferreira de Castro regressa a Ossela quase de bolsos vazios, dado que os 400 escudos que guardava na algibeira foram aplicados na compra das passagens. Rapidamente viaja para Lisboa com o objetivo de ser jornalista. Enquanto mirava as igrejeiras, Hugo Ferreira relata que o literato serviu às mesas durante anos e chegou a passar fome, tudo pelo seu objetivo, alcançado quando O Século abriu as portas.

A residir na capital portuguesa, Ferreira de Castro publicou em 1928, aquele que, considera o autor, foi o seu primeiro livro: “Emigrantes”. No entendimento de Ricardo Alves, este romance marcou um ponto de viragem no estilo literário em Portugal, sobretudo pela forma como o tema é abordado e pela posição que o autor assumiu, enquanto porta-voz dos emigrantes. Com a vida a sorrir, o escritor fundou a revista Civilização e conheceu Diana Liz, escritora lisboeta de famílias abastadas. Apaixonado pelo desenvolvimento da relação, Hugo Ferreira agarra todos os pormenores e salienta que o facto de o pai de Diana Liz a ter deserdado, por namorar com “um boémio de Lisboa, que vivia em cafés, debates, confrontações políticas e era defensor dos mais pobres”, não demoveu o seu amor. Repentinamente, a voz do anfitrião perdeu fulgor e anunciou que em 1930 a jovem lisboeta padeceu de tuberculose e faleceu, pouco depois de “A Selva” ser publicada. Movido pelo sofrimento e pela septicémica, Ferreira de Castro foi enviado para um sanatório no arquipélago da Madeira, onde encontrou o “auz da melancolia” e escreveu “Eternidade”. Para Ricardo Alves, esta obra reflete “a indagação como forma de superar a sociedade imperfeita”, acompanhada por preocupações metafísicas e o sentido da existência. Face à distância geográfica, correram boatos no norte de Portugal de que o escritor havia morrido.

Estátua do Emigrante (1966) – homenagem da autarquia de Oliveira de Azeméis a Ferreira de Castro
Direitos de imagem: Espaço de Coisas

O regresso ao continente, dada a negação dos rumores e o sucesso de “A Selva”, leva a que Ferreira de Castro seja recebido “renascido das cinzas”. A orgulhosa voz de Hugo Ferreira indicou que o escritor assumiu o posto de diretor da secção internacional de O Século, pelo facto de ser poliglota e aclamado no mundo. Nesses anos, foram vincadas as convicções e posições ideológicas de Ferreira de Castro, sobretudo pelos testes lançados à capacidade de censura por parte do regime político em Portugal.


Tela pintada por Bernardo Marques, que deu origem à capa orIginal de “A Selva”

A veia de repórter e os tesouros internacionais

Fiel aos seus princípios, o literato abandonou o jornalismo em 1934, considera Ricardo Alves pelo quão desgastado estava com a atividade da censura, mas também porque Ferreira de Castro era “um autor consagrado”. Nos anos que antecederam essa decisão, o escritor encontrou n’O Diabo uma nova via de difusão ideológica. Enquanto diretor, por cerca de dois meses, explica Hugo Ferreira, integrou “um jornal oposicionista do regime” para compor edições na íntegra.

A escrita jornalística, que desde infância fascinou Ferreira de Castro, levou a que este se dedicasse à literatura de viagem durante alguns anos. Ricardo Alves aponta à veia jornalística presente em “Viagens” e “Terra Fria”, obras onde “algumas passagens são pura reportagem”. Contudo, explana Hugo Ferreira, o escritor permanecia conectado à oposição do regime ditatorial, perfilando na Mensagem aos Democratas de Aveiro, em 1956. “Não era um homem com medo”, exaltou o jovem, ressalvando que Ferreira de Castro agia sempre “dentro da sua personalidade reservada”, pelo que “nunca foi de bater de frente” com Salazar e demais dirigentes políticos.


Subimos as velhas escadas de pedra, pisando por fim o piso mais famoso da casa-museu, cujo teto nos levou, pelo seu tom, para mais próximo do céu. Ciente do desejo de visitar o quarto de Ferreira de Castro e seus irmãos, Hugo Ferreira apresentou em primeiro lugar alguns constituintes do espaço, como a escudela, o cântaro e uma peça de decoração construída em barro preto de Ossela, uma tradição perdida no tempo, objetos que marcaram a infância do escritor. Envolvidos pelo motivo religioso, o guia esclarece que Ferreira de Castro não procurava no divino explicações para realidade, apesar de ser “um homem espiritual”. Hugo Ferreira dirigiu-se para o quarto onde, outrora, numa humilde e pequena cama de folheiro dormiam os quatro irmãos. Junto à porta encontravam-se os sapatos e a mala de Ferreira de Castro, que correram o mundo.

Entre mensagens de personalidades artísticas e dirigentes políticos, como Mário Soares, é possível ler a sentida mensagem de José Saramago, registado em maio de 1999: “Aprende-se muito nas casas e esta com tantas memórias de Ferreira de Castro é ao mesmo tempo uma lição e um exemplo de respeito que não se deve perder. O espólio de Ferreira de Castro deve ser preservado por respeito do homem e da obra”.

Na década de 1930, Elena Muriel, pintora espanhola que fugira da guerra civil, para Sintra, conquistou, num atelier de arte, o coração do letrado. Casaram em Paris e, poucos anos depois, viajaram em redor do mundo. Aqueles sapatos calçados por Ferreira de Castro e a mala repleta de autocolantes conheceram diversas realidades. Tais momentos ficaram cravados nas obras “A Volta ao Mundo” e “As Maravilhas Artísticas do Mundo”, prosas que expandem perceções sobre realidades exteriores à portuguesa, mergulhada no sistema ditatorial. Deste casamento nasceu Elsa Beatriz Ferreira de Castro, em 1945.



A escrevaninha e o livro de honra da casa brilham de modo diferente naquela divisão, pelos registos marcantes que contêm. Seis volumes sobre a mesa, sendo o primeiro volume inaugurado em 1972 por Elena Muriel. Entre mensagens de personalidades artísticas e dirigentes políticos, como Mário Soares, é possível ler a sentida mensagem de José Saramago, registado em maio de 1999: “Aprende-se muito nas casas e esta com tantas memórias de Ferreira de Castro é ao mesmo tempo uma lição e um exemplo de respeito que não se deve perder. O espólio de Ferreira de Castro deve ser preservado por respeito do homem e da obra”.


Réplica dos manuscritos que levaram à composição de “As Maravilhas Artísticas do Mundo”

Altruísmo sem valor em prol de uma formação literária enriquecida

Depois de uma breve, mas sentida, homenagem prestada no livro de honra, atravessamos os paralelos e entramos na Biblioteca de Ossela, construída em 1970, por ordem do próprio escritor. O prémio internacional Águia de Ouro, de renome no mundo da literatura, no valor de 600 contos, foi aplicado também para equipar o espaço e valorizá-lo em obras e móveis variados. Hugo Ferreira, à medida que nos acompanha na subida de novo lance de escadas, revela que o escritor pretendia investir na formação dos jovens e crianças, algo que Ferreira de Castro foi obrigado a procurar para que pudesse crescer.

As paredes partilham momentos, amores e conexões duradouras. À vista não passa despercebida uma tela pintada por Elena Muriel onde se encontra retratada a rua onde o seu esposo havia crescido, mesmo antes de a artista visitar tal lugar. Fascinado, como se fosse a primeira vez que visualizava a pintura, Hugo Ferreira elogiou o poder de descrição de Ferreira de Castro, assim como a capacidade de interpretação de Elena Muriel.


Entre portas, a última guarda relíquias da obra castriana. Na mobília envidraçada e nos quadros que preenchem as paredes, é possível, por exemplo, analisar todos os pormenores da tela pintada por Bernardo Marques e que deu origem à capa de “A Selva”, assim como a edição especial produzida por Portinari, que interrompeu a pintura dos painéis de entrada das Nações Unidas durante três meses porque “o amigo Ferreira de Castro precisa de mim”. De sorriso rasgado, e a passar o olhar sobre os vários idiomas em que “A Selva” se encontra traduzida, Hugo Ferreira defende que “não temos noção da grandiosidade de Ferreira de Castro”.



As certezas da morte de Ferreira de Castro e as razões ocultas de Elena Muriel

Depois de viver o 25 de abril e participar no 1º de maio, o escritor faleceu em junho de 1974, na sequência de um Acidente Vascular Cerebral. Na procura de provar a importância social de Ferreira de Castro, o guia, sempre com revelações na manga, partilha que o processo de transladação entre o Porto e Sintra fora demorado, pelo facto de várias localidades pretenderem prestar a sua homenagem.

A paisagem natural de Sintra, hoje classificada como Património Natural da Humanidade da UNESCO, conta Ricardo Alves, cativava Ferreira de Castro, pelo que, a partir da década de 1940, este encontrou ali o espaço ideal para dar asas à sua arte. Pela oportunidade de em Sintra escrever tranquilamente, o escritor doou ao município grande parte do seu espólio e solicitou ao governo português, pouco antes de falecer, que fosse enterrado na serra sintrense. Curiosamente, ao contrário de Diana Liz e Elena Muriel, que têm como última morada Ossela, Ferreira de Castro foi enterrado longe da sua terra natal.

Se o responsável pelo museu em Sintra garante que “por vontade própria” a esposa do literato escolheu ser sepultada na freguesia oliveirense, Hugo Ferreira não partilha de tais convicções. O jovem oliveirense, lembrando o ressentimento que permaneceu naquela comunidade para com Ferreira de Castro, procurou medir cada palavra que proferia, como que um passo arriscado, e, após alguma reflexão, sublinhou que não existe uma versão oficial para a escolha de Elena Muriel, somente rumores.


O esquecimento ilusório e o espaço no Ministério da Educação

Volvidos 46 anos da sua morte, o autor é recordado não apenas em Ossela, Oliveira de Azeméis e Sintra. Na Covilhã existe um roteiro literário, em ligação com a obra “A Lã e a Neve”; em Montalegre, a autarquia transmontana inaugurou um outro roteiro, baseado no tempo que o escritor lá residiu e as diversas visitas que efetuou a Boticas; no Brasil alguns museus incorporam memórias. Ainda que “pensativo e reservado”, Ferreira de Castro conquistava amizades e admiração por via do seu fácil trato, porque era “simples e humanista”, explica Hugo Ferreira.

Recostado num dos sofás da Biblioteca Municipal Ferreira de Castro, e com um quadro do escritor ao fundo, o vice-presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis (CMOAZ), Rui Luzes Cabral acredita que o maior legado do autor foi a luta, apesar das adversidades, pelos objetivos. Por esse motivo, o dirigente político não se mostra resignado com as iniciativas promovidas e aponta ao futuro. Sempre com o literato na base da ação, Rui Luzes Cabral considera prioritário, ao abrigo da flexibilidade curricular, a implementação das obras castrianas nas escolas do município, para que os estudantes “tenham a perceção que Ferreira de Castro é um vulto muito grande da nossa literatura”.

Ainda que orgulhoso de o nome do escritor estar associado a vários prémios, um dos quais instituído pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que reconhece a prosa e poesia produzida por emigrantes nacionais, o vice-presidente do município admite lacunas. Debruçado, e como que a rever uma lista mental de objetivos a atingir, aponta à construção de um centro interpretativo junto à casa-museu, assim como ao reforço de viagens de estudo no panorama municipal e nacional àquele lugar. A realidade pandémica restringiu e reduziu as visitas à residência de Ferreira de Castro a grupos até 5 pessoas, com marcação prévia e dentro de um horário flexível. Rui Luzes Cabral admite que, apesar da divulgação do roteiro literário, da dinamização de tertúlias e de homenagens prestadas, falta proceder a “uma abrangência do grande público”, pelo que se devem “encontrar ferramentas, sejam elas online, quem sabe no futuro por uma app”.


Rui Luzes Cabral com retrato de Ferreira de Castro como pano de fundo

Na periferia da cidade oliveirense encontra-se a Escola Básica e Secundária Ferreira de Castro, sede do agrupamento, outrora o Colégio de Oliveira de Azeméis, uma secção do Liceu Nacional de Aveiro, adquiriu o nome do escritor no ano de 1979. Separadas por uma secretária, e equipadas com a devida máscara, a diretora-adjunta, Teresa Valente, e a subdiretora, Elisabete Tavares, refletem sobre a presença do escritor no plano curricular do ensino básico e secundário. Ainda que ressalvem a densidade na obra de Ferreira de Castro, as docentes concordam que narrativas de viagem como as encontradas em “Os Pequenos Mundos” enquadrar-se-iam no plano de estudos. Elisabete Tavares vai mais longe e classifica o programa educativo como “centrado em ícones do passado” e lecionado de modo diacrónico, sendo Fernando Pessoa uma exceção. Ainda que a presença do autor seja uma constante nas escolas do 1º ciclo, 5º e 7º ano do agrupamento, a subdiretora defende que apenas a introdução das obras castrianas enquanto leitura obrigatória, ao invés de somente leitura opcional, despertará a curiosidade dos estudantes.


Ainda que Ferreira de Castro não se encontre entre os autores de leitura obrigatória, Ricardo Alves refuta a ideia de que o escritor caiu no esquecimento. “É ilusório, tomara a muitos autores vivos estarem esquecidos como Ferreira de Castro”, atira, entre sorrisos irónicos, o estudioso castriano. Ricardo Alves considera que a bolha “hipermediatizada” que envolve a sociedade portuguesa leva a que a atenção e lembrança seja atribuída aos autores eleitos pelo Ministério da Educação. Para o responsável do museu em Sintra, o romance castriano permanece presente e atual.


Ferreira de Castro nos loucos anos 20 do século XXI

Desafiados os entrevistados a refletir sobre quem seria Ferreira de Castro nos dias que correm, sobretudo em tempos pandémicos, as expressões de surpresa com a pergunta foram unânimes, mas as respostas não tardaram a surgir. Teresa Valente e Elisabete Tavares defendem que as temáticas abordadas pelo escritor se encontram representadas no palco de debate ideológico e social atual. Por isso, as professoras consideram que o letrado era “um homem à frente do seu tempo”, com uma estrutura frásica complexa, construído com base no estudo autónomo. “Foi um génio da literatura”, exultou Elisabete Tavares.

Face à pergunta lançada, Rui Luzes Cabral lançou um sorriso, suspirou e remexeu-se no sofá preto. Satisfeito com a reposta construída mentalmente, começa por dizer que “a sociedade vive sempre num conflito”, sendo a caminhada para uma sociedade mais inclusiva a abertura de novos fossos. Por isso, o vice-presidente da CMOAZ vê Ferreira de Castro enquanto ativista pela natureza e pelos direitos humanos. “Tudo o que façamos para o homenagear e valorizar é pouco, precisamos sempre de mais”, frisou Ruis Luzes Cabral, sorridente e orgulhoso do conterrâneo oliveirense.

Ricardo Alves julga que o escritor seguiria “o cânone atual”, pelo que estaria comprometido com a realidade, mas formalmente diferente. Hugo Ferreira dá asas à imaginação, enquanto mira a fachada secular da casa-museu. O jovem oliveirense convence-se de que, na atualidade, Ferreira de Castro seria “um jornalista de renome, também ligado à escrita, e muito mais intervencionista”. De mão na barba, finalmente a respirar sem constrangimentos, Hugo Ferreira argumenta que a sociedade ainda não atingiu o desenvolvimento intelectual do escritor, assim como a sua capacidade de analisar e reconhecer nos outros falhas e virtudes. Por isso, persiste algum desconhecimento no município de Oliveira de Azeméis quanto à vida e obra de Ferreira de Castro, não apenas juntos das faixas etárias mais jovens, frisa.


Homenagem da CMOAZ a Ferreira de Castro (2020)

Observados pelos habitantes da rua, outrora habitada por Ferreira de Castro, tocamos cotovelos e, ao cair da tarde em Ossela, trocamos palavras de despedida. Ao longe, era possível identificar os montes e o rio Caima onde o autor registou memórias de infância e que sempre o acompanharam, hoje lugares integrantes do roteiro literário da freguesia. O sol que fazia toda a encosta brilhar, equipara-se às páginas brilhantes que um simples e humilde menino um dia ousou escrever no Seringal do Paraíso, depois de ter saído de casa com apenas 12 anos. A resiliência, coragem e fidelidade ideológica fizeram de Ferreira de Castro um dos ícones da sociedade portuguesa no século XX, numa época amarga na história política e social nacional. A sua obra permanece atual e, por isso, o autor nascido em Ossela em 1898 mantém-se no debate sobre o desenvolvimento e subsistência humana.


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