Na rua: que raio de coisa é a rua?

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Estivemos este tempo todo em casa. Ainda estamos em casa. Queremos ir para a rua.

Na linguagem corrente, a rua pode adquirir uma conotação negativa, sem dúvida — ponha-se na rua! Ou ainda — vai para o olho da rua! Eu diria mesmo, pode ter uma conotação moralmente negativa — mulher da rua, arruaceiro, oh terrimtimtim passear na rua. Mas pode ter (tem?) ainda uma conotação politicamente negativa, atente-se por exemplo ao momento histórico em que o Capitão Salgueiro Maia se dirigia a Marcelo Caetano pedindo-lhe que abandonasse o cargo e o país. O recém deposto Presidente do Conselho de Ministros solicitou que um oficial General fosse receber a transmissão de poderes para que o Governo não caísse na rua. Mas mesmo as atuais arruadas dos candidatos em período pré-eleitoral, com o seu pendor populista mais ou menos ostensivo, não deixam de ter o seu quê negativo, de farsa, de aproximação popular densamente teatralizada.

A situação de crise sanitária em que nos encontramos, ao longo da qual passamos grande parte do tempo em casa — aqueles que têm casa para passar o tempo, claro — é um tempo ideal para pensarmos na Rua, nas suas forças, nas suas fragilidades, nas suas belezas, nas suas fealdades, no seu carácter, na sua personalidade, naquilo que ela representa e naquilo que ela é de verdade. Será que a rua ainda é alguma coisa? Ou será que está numa crise de existência, de carácter? Enfim, numa crise ontológica, como poderão precisar os mais académicos.

Olhemos através da janela, sejamos objetivos. A rua, tal qual a conhecemos, não é senão uma fileira dupla de edifícios com um espaço de circulação no meio. Perguntar-me-ão com toda a razão — para quê então tanta conversa sobre uma entidade tão lana caprina? Pois, é precisamente nessa simplicidade que residem todas as suas principais virtudes. É uma simplicidade que, para além do mais, tem vindo a acompanhar a humanidade, pelo menos, desde o final do Neolítico.

Serve para todos os tipos de circulação, pedonal, de tração animal, de tração mecânica, individual ou coletiva; mas não só, serve também de umbral entre o espaço de privacidade da casa e o espaço de sociabilidade da cidade; serve para escoar a água das chuvas, seja à superfície, seja em sofisticadas redes subterrâneas; serve para entubar todos os resíduos que acumulamos em casa; desde há cerca de dois séculos serve para canalizar as mais diversas infraestruturas de abastecimento, água, gás, eletricidade, tele-comunicações, fibras óticas e o que mais vier.

É, ainda hoje e desde sempre, a forma mais eficiente e inteligente de pouparmos aquilo que, sendo um dos mais importantes recursos do planeta, é também sem dúvida o mais desperdiçado — o espaço.

E, no entanto, a nossa geração cada vez mais subestima a rua. Começámos a desconfiar dela há cerca de um século atrás, desde então não mais parámos. As vanguardas da ciência médica e profilática começaram por desconfiar da sua higiene. Hoje sabemos que isso está ultrapassado. Depois, as vanguardas político-sociais do Movimento Moderno desconfiavam da injustiça de classe entre seus ocupantes de jure, os burgueses que impediam o acesso à habitação para classe operária. Não estando esta questão ultrapassada, sabemos que o foco da dissonância reside algures na esfera político-económica, não reside na rua em si mesma, enquanto espaço. Muitas tentativas houve, desde esse tempo para cá, de lhe criar alternativas. Nenhuma foi tão eficaz, tão simples, tão luminosa.

Hoje vivemos uma situação de ambiguidade, uma situação no mínimo confusa. Felizmente, é comum por essa Europa fora ver projectos urbanos nos quais a rua volta a ser protagonista, em Itália, na Suíça, na Holanda, na Escandinávia. Mas em Portugal, é raríssimo. O complexo da modernidade, a desconfiança em relação ao que é simples e ancestral, a ânsia do que é novo, leva-nos a pontos de esquizofrenia pura.

Por um lado, os técnicos da intervenção no território desconfiam da linearidade de uma tal estrutura, acham que não pode ser possível uma coisa assim, tão simples. Falta-lhe tecnologia de ponta, deve-lhe faltar alguma inteligência artificial, robótica, sei lá. Falta-lhe se calhar sustentabilidade ambiental. É uma coisa tão retrógrada que lhe deve faltar qualquer coisinha de certeza. Dedicam então o seu trabalho a inventar formas diferentes de articular o espaço urbano, semeando os objectos edificados no território como se fossem espalhados em dia de vendaval. Os sucessores dos arruadores dos séculos XVI e XVII são hoje aspersores de objectos ao vento.

Por outro lado, e daí a esquizofrenia, não há centro comercial que não tente, sem êxito diga-se, imitar as velhas ruas que ainda existem. Querem exemplos? Comecem pelos negativos, ou seja, por aqueles centros comerciais que não tentam imitar as ruas. São mais difíceis de encontrar.

Hoje, as ruas estão mais desertas, mas o nosso desejo de as percorrer livremente, de por elas deambular sem destino, está mais vivo do que nunca. Pode ser que comecemos a vê-las como objeto de desejo, pode ser que deixemos de as desprezar.

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