Nas malhas da Liberdade

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Até ao momento em que escrevo, vivi sempre livre. Posso até acreditar que serei ainda livre no fim das minhas palavras. E é também provável que o seja depois, quando forem lidas ou esquecidas. Como uma lição que se aprende com quem nasce antes de nós, aprendi com a Liberdade, que viveu muito, antes de mim, que os direitos são de todos, mas as lutas são de alguns.

Nas malhas da liberdade, cada um (se) cose com as suas linhas. Faz parte deste direito (de todos, e luta de alguns), o dever de efetivamente respeitar tanto a costureira que deixa a malha para passar a bordar, como a que cria uma fábrica para fazer em série as suas peças únicas ou, na sua própria liberdade, opta por… Coisa nenhuma. Guarda as agulhas e um profundo respeito por quem, antes de si, lhe permitiu escolher. E toma a liberdade de, simplesmente, viver, vestindo-se das suas próprias malhas.

Nos últimos dias, as iniciativas que assinalaram não só os 47 anos da Revolução de Abril como, mais recentemente, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, “gritam-nos” – a quem desconhece outra realidade – que, se a Liberdade é mais velha que nós, a Humanidade ainda nasceu antes e, por isso, houve um “nós” sem liberdade. E, para cada um – para cada “nós!” -, esta liberdade não é certamente a mesma.

Então, não chegou ao fim: não sendo de todos, agora a luta é de cada um. Tenho este “grito” muito presente. Por defeito de educação, de formação académica ou até de nacionalidade – não parece, às vezes que a Liberdade é tão “portuguesa” como a Saudade? -, não sei. Mas, no contexto atual, é particularmente inquietante.

É quase um raciocínio sequencial. (Sem aprofundar minimamente as muitas varáveis da equação) Devido à pandemia da COVID-19, vive-se uma crise sanitária, que conduziu a uma crise económica e, também por meio de medidas políticas, a resposta passa, entre outras, por medidas de restrição. Da Liberdade? Da liberdade? Não sei.

Mas a estes rebates incessantes sobre a Liberdade, uma vez por ano munidos de cravos e da Lei de Imprensa, respondo sempre, e sem gritar de volta, apenas num sopro: Responsabilidade.

E não há fim no horizonte desta saga, tal como não há para a da Liberdade. Portanto, não espero vir a terminar esta malha que comecei desde que me reconheço consciência. Sim, foram-me dadas as agulhas e as linhas. As da Liberdade. E agora eu vou continuar. Pela Responsabilidade.


Até ao fim das minhas palavras.

Ou da Liberdade.

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