O analfabeto que lia nas estrelas

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Rosmaninho seco, rosmaninho florido.

Volteia a rosa, rosa-dos-ventos.

Muda a estação e lá está ele, o professor primário no seu posto. Na trincheira contrária à surratada, Firmino, pelas ledas manhãs de sábado tornava a inspeccionar pescoços, orelhas e unhas da ganapada. A míngua de água trazia a aldeia e os campos em sufoco. Madrugadas seguidas as mulheres esperavam, junto das nascentes, por um fiozinho de água para, coroadas de rodilhas, poderem levar à cabeça os cântaros em proezas de equilíbrio, posto nem uma gota se escapar.

Época de caça ao piolho.

Os comichosos de má fama legada dos pais – lorpas e cuchineiros! – prestavam-se a pôr a nu os subterrâneos da sua higiene íntima, animando o recreio de terra batida, com muro de granito a separar o sexo masculino do feminino. Risotada no mergulhar do cachaço em baldes de água do chafariz da escola, chegando o professor, na missão do despiolhar, a condescender da gravidade do sobrolho.

Esgares fagueirinhos para um fim-de-semana mais ou menos plácido e por isso, só por isso já valia a pena a crosta morar à flor da pele. Pele alérgica aos cubos de sabão feitos no ribeiro com borras de azeite da fábrica dos óleos, cuja espuma as mulheres amparavam através de caninhas. Já de sobrolho carregado, nas manhãs de segunda-feira Firmino dava início ao di tado em pose austera e algo solene:

«Gastão está sempre mal penteado, ele tem o rosto enfarruscado e as mãos negras; a sua blusa e as suas calças estão sujas; os seus cadernos estão manchados de nódoas. Muitas vezes ele come a sopa com os dedos e mete os pentes no bolso. Gastão é uma criança desasseada e suja. A imundice e a porcaria causavam nojo. As crianças imundas não são nunca acariciadas.»

Pobre Gastão!…

Na sala contígua, o coro entremeado de vrrruns, estrépito do ranho e do monco assoados às mangas da camisa gangrenadas pelo uso. Ensalivadas as pontas dos dedos, a moçada virava as páginas dos livros, valiosas como as de papel de linho, preciosas como as do Pentateuco, primeiro livro impresso em Portugal com caracteres móveis, nos idos de 1487. E olhava, pasmada, para as gravuras coloridas e o tamanho e o formato das letras.



Repetia a regente, solteirona ancuda com a palmatória à mão de semear as mais severas ameaças:

– Há notas de cem escudos, há as de quinhentos e dizem que também as há de mil…

De seguida, em sincopada cantoria:

Dois vezes dois, quatro.
Dois vezes três, seis.
A tabuada. Desde o 1×1 até ao 10×10.
O pior: 8×7; 8×7; 8×7…
Desenho de regadores e vasos de flores.
Lá la ri lá lá
ela ele eles elas
alto altar altura
Lusitos! Lusitas!
Viva Salazar!
Viva Salazar!

Melodia ritmada, dedo indicador colado ao corpo das garatujas.

Os passarinhos,
tão engraçados,
fazem os seus ninhos
com mil cuidados.

Também se lia o sono do João, comprido, brando, isento de insónias e pesadelos na cama de folhelho, e que tanto, tanto custou a papaguear depois das histórias de outro João, o do sem medo.



– Com que então não sabes pronunciar os erres? Só faltava mais esta, ai a minha vida; como vai ser na prova oral? És canhoto?

– Nã senhor.

– Está bem, rapaz, ao menos isso.

Diz comigo, vá; não tenhas medo:

Quadro.

– Quado.

– Esquadro.

– Esquado.

– Estrado.

– Estado.

– Estamos bem arranjados! Valha-me Deus, catancho!…»

Com olhos de ratinho do monte, um espevitado da primeira fila achou por bem interceder pela parte mais fraca, assim a modos de quem se solidariza com as aflições e humilhações do interrogado, imputando à paternidade a origem da deficiência.

– Ele não tem culpa, senhor professor. Já o pai faz rir toda a gente com o engrolar das palavras. Nem sequer sabe dizer merda, com sua licença e de quem está presente.

– ?!?…

– Diz Meda, senhor professor. Não se lhe apanha uma direita. Tudo às avessas. Jura a pés juntos que as árvores fazem ninhos nas penas dos passarinhos.

– Analfabeto?

– Não enxerga uma letra do tamanho da Misericórdia. E veja o senhor professor que ainda se gaba de à noitinha saber ler nas estrelas.

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