O Brasil entre dois vírus

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Muitos se preocupam com os efeitos da atual crise sanitária na economia ou nos hábitos quotidianos. Mas o maior país da América Latina tem um presente desesperador com que se preocupar antes de pensar no dia seguinte. No presente sombrio que nos impossibilita de olhar o futuro com algum otimismo, precisamos lidar com dois vírus: o da COVID-19 e o vírus do fascismo – personificado na figura abjeta daquele que nos governa desde janeiro de 2019.

No momento em que escrevo, o coronavírus já infectou mais de 500 mil brasileiros e matou perto de 30 mil. Entre os cadáveres, uma maioria socialmente vulnerável, que teve de encarar a força destruidora da doença – muitos antes de encontrar atendimento num sistema de saúde que – ao menos para eles – colapsou há tempos. Tudo isso perante a indiferença cínica e criminosa do vírus do fascismo cultivado por um chefe de estado populista e autoritário e por uma legião de radicais de extrema-direita que atualmente representa um terço do eleitorado. Forjados na mentira que grassa nas redes sociais e nos ataques sistemáticos à democracia, esses vetores da decadência nacional vão minando o que resta das instituições. Não se cansam de exercer o seu radicalismo dentro e fora das redes. Correm até Brasília, onde são prestigiados pelo chefe da seita. No último 31 de maio, Bolsonaro usou helicóptero e andou a cavalo – numa performance ridícula de Mussolini tropical – para saudar o grupo bolsonarista que pedia intervenção militar e fechamento do Congresso em plena luz do dia.

Enquanto isso, o vírus da COVID-19 se espalha em rapidez vertiginosa. Somos agora o quarto país em número de mortes e o segundo com mais casos, de acordo com dados da Universidade John Hopkins, repercutidos pela Folha de S. Paulo nesse primeiro de junho. Na mesma data, a OMS veio a público anunciar que o Brasil ainda não chegou ao pior da pandemia. Podemos vir a ocupar a triste posição de epicentro global da pandemia – o que poderia ter sido evitado, não fossem as investidas do presidente contra todas as medidas estipuladas pelas autoridades sanitárias.

Na televisão, chamou a COVID-19 de gripezinha. Tornou inepta a atuação do Ministério da Saúde no meio da crise, com a demissão de dois ministros que ousaram reverenciar a ciência – crime capital na cartilha bolsonarista. Ainda não temos um ministro da saúde, embora um general tenha sido posto no lugar para chefiar o ministério na prática. Sem entender nada de saúde, o general Eduardo Pazuello nomeou outros militares para postos estratégicos do ministério, transformando-o num verdadeiro bunker do Exército.

Bolsonaro lidera um governo que mata pela indiferença e ânimo golpista. Foi o que vimos no vídeo da reunião ministerial – tornado público por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Nenhuma palavra sobre a crise sanitária. Indiferentes ao cenário desolador vivido nos estados, Bolsonaro e sua turma conspiravam contra a democracia naquela tarde de 22 de abril. Tudo em meio a xingamentos e expressões que faziam da sala de reuniões um verdadeiro covil de gente sem caráter. Enquanto o presidente demonstrava preocupação com investigações que podem comprometer sua família, os ministros mostravam – com crueza ainda maior – por que vivemos hoje sob o domínio do vírus do fascismo. O ministro da educação queria prender os “vagabundos do STF”. O do meio ambiente expressava sua intenção de desmontar a legislação ambiental o mais rápido possível – desejo que sintetizou na expressão “passar a boiada” – enquanto a imprensa se ocupa da cobertura da crise sanitária. E a ministra dos direitos humanos – mais caricata que o chefe – além de anunciar a prisão de governadores, mostrava indignação com as feministas que querem – segundo ela – ampliar a legalização do aborto a grávidas acometidas pela COVID-19 – naturalmente uma heresia inaceitável para um governo que – vejam vocês! – defende a vida.  

Por tudo isso, Bolsonaro é atualmente o nosso maior inimigo e se mostra responsável – aos olhos do mundo – pelos cadáveres que contamos todos os dias. Antes de a COVID-19 cruzar as fronteiras brasileiras, o vírus do fascismo já vinha naturalizando mortes e semeando o caos. Esta semana, o decano da Suprema Corte comparou o Brasil à Alemanha de Hitler e afirmou que “o ovo da serpente parece estar prestes a eclodir”. Eu diria ao juiz que a serpente caminha livremente entre nós desde outubro de 2018. E o mais grave é que muitos dos que hoje sentem a ira da extrema-direita – a imprensa e alas do Judiciário incluídos – deram uma boa contribuição na gestação da serpente.  Mas isso é conversa para outra hora…

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