Vladimir Rodrigues /sem título/ 13-06-2005 s/papel de aguarela/ 32X24/ Técnica mista (aguarela e tinta da china) / Coleção da família

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Vladimir Rodrigues /sem título/ 20-07-94 s/papel/ 21X29,5/ Técnica mista (aguarela e tinta da china) / Coleção da família

Vladimir Rodrigues /sem título/ s/papel/ 30X23/ Aguarela / Coleção da família



Vladimir Rodrigues /sem título/ 1996 s/papel/ 17,51X25/ Aguarela / Coleção da família

Vladimir Rodrigues /sem título/ 3-10-2010 s/papel de aguarela/ 32X24/ Aguarela / Coleção particular


A luz amante

No último número de “O jazz de Vladimir”, “Saxofone azul cobalto”, o jovem artista estabeleceu um contrato, imaginário mas decisivo, com o “seu povo”.

Queria assim estabelecer um projeto de assistência mútua com todos aqueles que tinham experimentado as armadilhas da vida, a sua vida de expatriado involuntário: os espoliados de vários matizes, de hoje e de ontem (os escravos da primeira onda da globalização, os trabalhadores forçados, os fugitivos da opressão, as vítimas de racismo, os alienados das grandes urbes…)

Vladimir evocá-los-ia quando se sentisse particularmente vulnerável e a soçobrar; ofereceria, em troca, a sua solidariedade incondicional, pela escrita e pela arte. A evocação do contrato seria estabelecida através de uma linguagem tonal, comum às vítimas, que ele depositou nos blues e no jazz afroamericano. Vladimir viveu muito pela voz e pelos ritmos de J.L. Hooker e Miles Davies, entre muitos outros.

Partilhou também a sua voz diretamente com os companheiros de infortúnio, principalmente à noite, quando todos os diabos espreitam e a solidão aperta. Quando não os encontrava obrigava-se a transgredir pelo sonho. O sonho era, pois, a sua ponte para a vida, num ciclo perpétuo que se autoalimentava, enquanto encontrou energias.

E é isso que Vladimir nos revela agora em “O cachimbo do sonho”.

O sonho era transportado pelas nuvens, nas figuras mitológicas que o ajudavam a entender a transfiguração do real (os dizeres não escritos ou os olhares invisíveis). Ou pelo rádio, que o acompanhava noite dentro (a sua “jukebox”) e estimulava a escrita. Sentia-se uma criança, como aliás foi sempre. Vladimir, porque partiste tão cedo?

Dava-se por vezes conta de que a liberdade era intangível e que apenas conseguia, quando conseguia, o alívio “medicinal da alma”. Refugiava-se então com intensidade entre os seus companheiros. A “noite obscura das sombras e luzes” continuava a ser, no entanto, o seu cabo das tormentas e do pranto.

Mas teimava e procurava a luz. Os seus escritos horas fora, o seu “cachimbo dourado da luz”. A prova é a sua vivência esporádica da esperança, essa que está sempre à espreita, através do “amor cego”, de que falaremos um dia.

Num dos belos poemas que escreveu, Vladimir diz-nos perentoriamente que “a solução é possível”. Que apenas temos de escutar “a música percetível / do mar a cantar / no seu marulhar / na plácida areia / ou na rocha a desgastar”. Os blues e o jazz são agora transportados para a natureza pura, animando-nos numa vaga cósmica, talvez pelas mãos de Poseidon ou Neptuno.

Num gesto de generosidade e amor, propõe-nos simplesmente que nos aproximemos do “amor iluminado” e da “luz amante”. Tentaremos, Vladimir.


Luís Martinho do Rosário
Rosa Maria Santos

Coimbra, dezembro de 2020


Coordenação:

Luís Martinho do Rosário (conheceu e acompanhou a trajetória literária e artística de Vladimir. É professor de biofísica da UC e investigador do CNC)

Cristina Nobre (analisou a obra de Vladimir após a sua morte. É especialista em literatura portuguesa moderna e contemporânea. É professora do IPL e investigadora do CICS.NOVA)

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