O difícil papel dos media entre o barulho e o ruído

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À primeira vista, “ruído” e “barulho” são sinónimos, de tal maneira que a Wikipedia até os combina na mesma página. Ambos representam sons dissonantes, algo que ouvimos e não nos soa bem, desde um som que chama a nossa atenção até coisas tão desagradáveis que não as podemos aguentar mais de alguns segundos. Dos dois, barulho é o que me parece mais físico e para uso do dia a dia. Sozinhos em casa, quando se ouve algo estranho, o pensamento é “o que foi este barulho?”, não “que terá sido este ruído?”. E, claro, quando alguma coisa não vai correr bem, diz-se que “isto ainda vai dar barulho”. 

“Ruído”, pelo outro lado, soa mais formal, é como se fosse um barulho refinado. Ao fazer um exame de audição, temos de avisar “quando escutar o ruído”. Quando se constrói uma casa, a licença é para ruído, não barulho. Talvez por esta formalidade a palavra “ruído” foi cooptada em várias áreas. Na medicina, um sopro no coração é um ruído fora do comum; na fotografia representa distúrbios nas imagens digitais e, na comunicação, tudo o que perturba a qualidade da mensagem. Num sentido mais figurado, “ruído” podem ser notícias pouco fundamentadas ou que servem apenas para encher chouriços. 

E é sobre notícias que escrevo hoje, já que somos bombardeados por tanto conteúdo, noticioso ou não, que o nosso cérebro desiste de tentar processar tudo. Portanto, vivemos num mundo de ruído branco permanente que cria dois grandes problemas.

O primeiro é que, no meio de tanta coisa, acabamos por nem saber o que é importante ou não. Tema atrás de tema, publicação atrás de publicação, o que devia ser destacado acaba por diluir-se. Por exemplo, o El Pais tem, há mais de um ano, na sua página web um elemento dedicado aos totais relacionados com o Covid. Durante o europeu de futebol, esses dados desapareceram para serem substituídos por resultados dos jogos. O que é, na verdade, o mais importante? São decisões editoriais, claro, mas cada dia, decisões sobre o que abre um noticiário ou aparece na capa de um jornal aumenta, ou diminui, a presença de um assunto na cabeça das pessoas. 

A perceção do que é importante sofre também do impacto das redes sociais, dominadas por conteúdo de outros países. Se acontece algo nos Estados Unidos, tem boas probabilidades de acabar por ser notícia em Portugal devido à amplificação das redes sociais. Criam-se acontecimentos de publicações que ganham valor-notícia porque estão nas notícias e resultam em mais publicações. É um círculo vicioso. 

Aqui que surge o segundo problema. Neste círculo entre redes sociais, notícias e amplificação, é mais fácil destacar quem faz barulho, isto é, quem manda umas larachas fáceis de usar, o famoso soundbyte. Foi assim que o Trump se tornou popular e é o exemplo que muitos tentam seguir. E, de novo, com vontade de seguir os Estados Unidos, em Portugal tentam-se fazer notícias com publicações do Twitter, quando a rede social tem muito menos impacto do que por lá. O facto de uma publicação funcionar em apenas uma direção significa que, sem o devido contexto e contra-resposta, de notícia terá pouco. 

Admito que estou a ser injusto com os media. Não se pode pedir a qualquer órgão de comunicação que seja responsável pelas opiniões do seu público — embora a influenciem — já que cada pessoa deve ser o dono da sua. Também existem limitações de espaço, publicidade e audiências. Aliás, esperar que os media sejam os únicos a definir a agenda mediática é problemático por si mesmo e um convite à manipulação. 

Contudo, isso não significa que os media se esqueçam da sua responsabilidade na hora de contribuir para identificar o que tem valor no meio do ruído, de dar destaque a coisas que se calhar até passam despercebidas e o devido contexto às que se partilham sem pensar. Evitar o caminho fácil de seguir as redes sociais e exemplos de fora é a solução para evitar muito do barulho que nos ataca cada dia. 

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