O golo histórico

Portuguese Gravity (Unsplash)

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Chama-se histórico a muita coisa, em particular ao que não  é, sendo trivial. Esse epíteto quanto mais se usa menos se aplica com adequação, imerso no fluxo do presente. Aquilo a que chamam repetidamente histórico, com ansiedade de fazer render em número de papalvos consumidores a celebridade que um pé tornado fétiche pode alcançar, não passará de uma borbulha no mar do tempo, nem isso, uma inexistência, cinza que nem é de ossos.

Na minha profissão nunca esqueço a lição que funde historicização com estranhamento: nunca aches banal o que corre por si e se não vê no que se impõe aos olhos — há que fazer transitar a perceção imediata de noção a conceito, com o que isso implica de invenção de pensamento, do que o antecede ainda intuição em forma inquieta à procura de rigor semântico e conceptual. O que exige uma operação que, no trabalho de encenação, significa uma suspensão do tempo, a organização dos elementos em jogo na imagem em composição dinâmica que permita ler o que está por detrás das coisas que se impõem no primeiro plano. É a famosa cena familiar que Brecht dá como exemplo: alguém entra em casa no momento em que há uma discussão brutal, violenta, quadro familiar recorrente. E é o espanto — o estranhamento — daquele que entra que retira a cena da sua normalidade fluente para que nos seja revelada a sua anormalidade, isto é, a dimensão historicizada — aquelas relações familiares, daquele tipo, têm uma explicação que está para além das explicações imediatas, a razão histórica transporta a fruição imediata para outro entendimento causal.

O título “golos históricos” do Ronaldo, frente aos vikings, não converte em histórico o que é fenómeno de outra ordem. E, no entanto, o país revê-se — dizem as imagens e os tais comentadores de serviço à mediocracia dominante — no feito gladiador do pé da estrela, como se todos calçássemos espiritualmente aqueles 43 — digo eu — verde-rubros. Pena os golos não terem furado as redes e terem sido tão em jeito, não terem sido bazucados — como aquela bela metáfora, tão subtil, que anda aí. Mas já lá vão os tempos da potência máxima, do salto mais alto de sempre, dos 200 e tal quilómetros à hora a que o projéctil iria — coitado do guarda-redes, da rede, daqueles que estavam inocentemente detrás da rede.

A dimensão histórica do feito, assim adjectivado, é no entanto menos hiperbólica — de bola — que se lhe chamassem golo galáctico, ou cósmico, ou inter-galáctico, mais a propósito pois supõe equipas diversas.

Histórica parece ser esta deriva sem futuro das sociedades contemporâneas que, cada vez mais — sem que este, futuro, assuma uma narrativa plausível e realista, libertadora — se viram para o passado, aquele mesmo que no pós guerra rejeitaram por à guerra e à possibilidade do fim da vida no planeta — Hiroshima — ter conduzido.

Quando a paisagem é depressiva e o horizonte fumega a infecção viral de vária ordem, sobretudo ideológica e só isso se lê, o medo torna-se axial e alimenta o sistema de reprodução do seu culto nas cabeças massivas e massificadas.

Repetindo a missa da catástrofe em curso, insistentemente, a visão imediata, não a histórica, atira as criaturas para a posição que exlui o outro, para o nacionalismo canhestro, o caseirismo, o bairrismo, o partidarismo, o ismismo mesmista, a estupidez trumpista. A sobrevivência ansiosa e o supremacismo pseudo cultural leva a que a nova velha lei da selva ressurja omnipotente, a lei do “Homem lobo do homem”.

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