O grito da lareira

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Templo de aconchego familiar, embalou infâncias, longos serões destrançando contos e lendas, adivinhas e jogos do rapa a pinhões. No seu crepitar havia quem amornasse cafeteiras de esmalte cheias de cevada para a sorver em tijelas com pão migado e açúcar mascavado. Sobre o borralho, os triângulos de ferro para os catraços de trigo, a negra e bojuda panela de ferro de três pés com o magnífico caldo da ceia.

Ao outro dia, pelo dealbar da manhãzinha, brasas e cinza na escalfeta da ganapada assomadiça a caminho da escola primária, das carteiras com o buraco para o tinteiro, da caixa métrica e da “Carta de Portugal Insular e do Império Colonial Português”. Na sala de aulas, o estrado e a secretária, o quadro de lousa, a régua e a cana-da-Índia pronta a varejar orelhas burraçudas, os retratos de Salazar e Carmona ladeando Nosso Senhor crucifixado – “Pai, por que me abandonaste?”

Dois vezes dois, quatro.
Dois vezes três, seis.

Eu ia. Ia, ia. E eu. Ai eu ou ui aia aio.
Eia! Eia! Eia! Eia!

E tu, Mãe! E tu, Maria!
Pede àquela cotovia
que fale mais devagar,
não vá o João acordar…



No ventre da noite, pancada de chuva açoitando oliveiras, giestais e bichos bravios, lobo, raposa, gavião. O vento fazia ranger portas e assobiava, fantasmagórico, nas fendas das paredes. Vultos envolvidos em lenços e xailes moviam-se fundidos aos muros das quelhas; alguns traziam em leiteiras com pegas de madeira quartilhos de soro de ovelha churra, posto não haver melhor remédio para impontar maleitas.

Calçada acima, a velha enredeira carregava à cabeça feixes de lenha, taf-taf, pés engaranhados na neve que caía, cálida e breve – quer-se dizer, assim como quem chama por mim… Esfregam-se as mãos uma na outra, batem-se os pés no lajedo da cozinha, corpos sentados em bancos ou cadeirinhas de palha curvados para o clarão redentor.

E encanta o lume soprado pelo fole e que o bater da tenaz no tronco fez estalejar. Dos tições soltam-se espirros de pequenas estrelas incandescentes que logo sucumbem – parecem até representar a vida. A alma rejubila graças àquelas línguas de fogo que aclaram as amígdalas de cantaria debaixo de rosários de uvas passas e de um dossel de chouriças e alheiras. São as varas do fumeiro, arrecadas de chicha porcina.

Silêncio de lã. A fumaceira tisnando a cozinha. Amornada, a família recebe na roupa e na carne o ancestral aroma a lenha queimada, agasalho dos cerros e subterrâneos da existência humana. Milenar altar-mor de afagos, pórtico de pensamentos, a lareira tem acolhido gerações que em seu redor aqueceram rugas da cara, enxugaram meias e botas, enquanto as espirais de fumo saídas pela chaminé divinizavam o hálito da terra.

A lareira…

Vejo uma simples, primitiva e pobre, buraco na parede do casoto; outra, no salão do palacete, é arco-de-triunfo de vida regalada, à grande e à francesa. Mas todas são amáveis e reconfortantes, sereníssimos lugares de descanso e sonhos abrilhantados pelo copo de maduro tinto que a mão enconcha. Ah… lareiras inverniças do nosso arreigado amor…

Nada derrete tanto os rebites do coração do que deparar com uma casa abandonada, fria, lareira jazente. Nada comove tanto nesta viagem ao passado do que sentir O Grito de uma lareira desabrigada, morta, e onde, outrora, se secaram fraldas e a criançada, em pulos de maravilha, punha os sapatinhos para o Menino.

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