O homem sem língua

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Ao começar esta colaboração, pergunto-me para quem escrevo, quem me vai ler e que língua devo usar. Pergunto-me com mais força ainda ao revisitar a “Teoria da Literatura” do atual vencedor do prémio Camões. Aguiar e Silva diz-nos que uma língua «representa um saber técnico comunitário que só é exercitado e só funciona num espaço histórico-social». Ora, eu estou a trocar de espaços histórico-sociais há mais de 20 anos. Estou tramado.

Comecei a perder a língua em Coimbra. Lembro-me bem: era um princípio de noite no meu primeiro ano de universidade e encontrei alguns amigos novos a caminho dos bares. Perguntei «aonde é que ides», e riram-se sem que eu entendesse porque se riam. Viram-me a expressão do rosto e explicaram-se. «“Aonde é que ides?” Tu és de Monção ou do século XVII?». Ainda tentei impor o “vós” algumas vezes, mas, depois de o estranhamento se repetir, suspirei e abracei o “vocês”. Conversa é sempre performance e não me apetecia performar o minhoto purista sempre que encontrasse alguém na rua. É preciso escolher os pequenos esforços que nos deixam cansados no fim do dia.

Depois de alguns anos, mudei-me para Lisboa. Hoje, quando vejo vídeos que gravei nessa época, reparo, irritado, em como, sem que percebesse, comecei a modular as minhas vogais mais sonoras e entoava a musiqueta que ainda se escuta todas as noites na cantoria dos jornalistas e atores do horário nobre das televisões.

Agora, vou no meu décimo ano de Brasil e já não sei de onde são as coisas que falo. Dou por mim a pensar onde ouvi pela primeira vez determinada expressão, se é do Brasil ou de Portugal, e, se for Portugal, de qual terra em que morei. O esforço é traiçoeiro. Às vezes, tenho certeza que determinada expressão não existe em Portugal e, depois, os meus pais desenganam-me. Noutras ocasiões, quando visito Monção, solto palavras que resultam em risos. Pergunto-me então se não as terei aprendido antes de ir para o Brasil, mas não me lembro e acabo por ficar sem defesa.

As pessoas que me seguem nas redes sociais talvez não notem que eu direciono todas as pequenas mensagens que lhes escrevo. Se falo sobre a política portuguesa, os verbos estão no infinitivo. Se comento a atualidade brasileira, passam para o gerúndio. Palavras como “recepção” são ingratas: se a escrevo com “p”, Portugal não entende porque a escolhi para, de repente, fugir do novo acordo. Se a escrevo sem “p”, o Brasil pergunta-se se errei ao escrever “recessão”.

Chamam-lhe Português, mas há bem mais do que um. O acordo resolve muito pouco e explica menos ainda, principalmente se pensarmos nos registos de fala (que, no Brasil, são “registros”). Em Portugal, numa conversa informal, poderia dizer que este é um assunto demasiado complexo. No Brasil, o interlocutor perguntar-se-ia se não disse “complexo demais” para deixar a frase mais barroca. Jorge, esse barroco, pensará ele, sem adivinhar que, enquanto isso, eu questiono as palavras e questiono-me a mim. Se eu digo “mar”, digo o quê? Falo do horizonte de aventura, mistério e heroísmo ou do lugar onde um dia brotaram as caravelas do invasor? Penso imediatamente nas ondas frias de Vila Praia de Âncora ou na água tépida do Rio de Janeiro?

Talvez hoje a língua portuguesa seja a minha pátria menos do que eu sou a pátria delas. Sim, delas. Tudo bem, cada um escolhe um pouco aquilo que a vida lhe dá. O mais importante é que alguém me responda.

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