O imperativo de uma escola para a autonomia

Morning Brew (Unsplash)

10 min read

A escola nunca foi tão necessária nem nunca foi tão insuficiente.

Necessária, porque a maior parte das famílias não tem tempo nem espaço para educar os filhos nem para os tratar como crianças. Necessária, porque as desigualdades sociais são cada vez maiores e só a escola pode atenuá-las. Necessária porque as crianças estão cada vez mais inundadas de tecnologias e cada vez mais carentes de afeição e valores. Necessária, porque neste nosso mundo não há outro lugar onde as crianças possam aprender a construir autonomia, responsabilidade e democracia.

A escola é, apesar disso, cada vez mais insuficiente. Insuficiente, porque o conhecimento humano aumenta a ritmo vertiginoso, tornando obsoleto o que é hoje novo e seguro, e não há escola que possa acompanhar uma tal explosão de saber. Insuficiente, porque cada vez há mais contingências e incertezas que não podem ser superadas com o conhecimento existente. Insuficiente, porque o próximo futuro será muito distinto do presente, mas ninguém sabe como é que ele será.

A escola, que tinha a missão de desenvolver saberes para um mundo conhecido, tem agora a missão adicional de construir autonomia para um mundo desconhecido

Desconhecendo-se o futuro, cada um terá de aprender por si próprio, em permanência, para o que der e vier (just in case), segundo as ambições que for construindo e as oportunidades que se forem abrindo. Por outro lado, cada um terá de aprender a aprender por si próprio, no momento (just in time), perante os desafios inesperados e desconhecidos que se forem erguendo no seu percurso. A escola, que tinha a missão de desenvolver saberes para um mundo conhecido, tem agora a missão adicional de construir autonomia para um mundo desconhecido.


Uma escola para a autonomia

Esta necessidade de uma escola para a autonomia, hoje reconhecida como vital para a sobrevivência das novas gerações, é debatida há mais de um século por destacados pensadores e educadores. Nas últimas décadas, também as grandes instituições da educação passaram a enfatizar o imperativo de um escola para a autonomia. A UNESCO dedicou-lhe o Relatório Faure (1972), que popularizava o conceito de educação ao longo da vida e a importância de aprender a aprender. Um quarto de século mais tarde, produzia o Relatório Delors (1998), que reforçava os princípios de uma educação para a autonomia assente em quatro pilares: aprender a saber, aprender a fazer, aprender a viver em conjunto e aprender a ser.


Eugenio Mazzone (Unsplash)

Curiosamente, o imaginário humano tem revelado ao longo dos séculos um grande fascínio pelos desafios da construção autónoma do saber perante mundos desconhecidos. No século XII, o conto Hayy Ibn Yaqzan do filósofo árabe andaluz Ibn Tufayl sobre uma criança que cresceu sem educação ou enquadramento humano e ascendeu a supremos níveis de compreensão do mundo, da fé e de si próprio, lançaria o conhecimento autodidata no centro da reflexão epistemológica europeia, inspirando os pensadores e artistas do Iluminismo e os humanistas da Renascença. Figuras tão distintas como Bacon, Milton, Locke e, naturalmente, Defoe, com o seu Robinson Crusoe, enriqueceram a reflexão sobre a autonomia na construção de conhecimento, influenciando por sua vez Spinoza, Voltaire, Rousseau e, de forma mais discreta, muitas outras figuras, como Schopenhauer, Coleridge, Nietzche, Heidegger, Camus ou Michel Foucault.

As pedagogias da explicação, que hoje predominam nas nossas escolas, dificultam, em vez de facilitarem, o desenvolvimento da autonomia


Pedagogias da explicação versus pedagogias da autonomia

As pedagogias da explicação, que hoje predominam nas nossas escolas, dificultam, em vez de facilitarem, o desenvolvimento da autonomia. Ao partirem do princípio de que o que está escrito no manual deve ser explicado pelo professor, em vez de descodificado e apropriado pelo aluno, por muito claro que seja o manual, criam a convicção de que cabe ao professor a responsabilidade de “ensinar” e ao aluno a tarefa de “reter” o que foi explicado. Esta dependência está tão enraizada nas rotinas escolares dos nossos dias, que o aluno, feliz por não ter de pensar muito, a vê como um direito e não como uma desvalorização da sua inteligência. O fenómeno é semelhante ao do analfabetismo funcional descrito por Adler e Van Doren, em How to Read a Book, quando afirmam que há muita gente que pensa que sabe ler, mas na verdade não sabe, porque não dá conta de que ler não é reconhecer sequências de palavras e frases, mas sim compreender laboriosamente o mundo que se encontra para além delas.

Em oposição a estas pedagogias da explicação, que predominam há mais de dois séculos, as pedagogias da autonomia ajustam-se na perfeição à era de complexidade, incerteza e interação social em que vivemos. Infelizmente, não existem ainda manuais dedicados a esta forma tão distinta de ver a educação, pelo que a descrevo aqui em traços largos.


Timo Volz (Unsplash)

O universo das pedagogias da autonomia

As pedagogias da autonomia apresentam-se hoje com uma grande variedade, que assenta em três tradições pedagógicas que se sobrepõem parcialmente:

  • as pedagogias da emancipação,
  • as pedagogias da socialização, e
  • as pedagogias do projeto

A formulação mais antiga e coerente das pedagogias da emancipação é provavelmente a maiêutica socrática, ainda hoje vista como uma abordagem pedagógica de excelência. A simulação e o jogo, que já inspiravam as didáticas da Escola Nova nos fins do século XIX e princípios do século XX,  são outro exemplo de abordagem emancipatória, hoje com o seu potencial muito reforçado pelo uso dos computadores. Como variante das abordagens de simulação, a pedagogia dos casos, já praticada há mais de um século pela Harvard Business School, distribui aos alunos descrições ficcionadas de casos complexos e estabelece-lhes prazos para que, recorrendo à bibliografia que queiram, resolvam autonomamente esses casos e defendam perante colegas e professor as soluções que propõem.

A aprendizagem híbrida ou mista (blended learning), que combina componentes presenciais e online, é outra abordagem que reforça a emancipação, ao conciliar técnicas de aprendizagem dirigida com práticas de aprendizagem partilhada e com orgânicas de aprendizagem autónoma. As pedagogias invertidas (flipped learning) são também indutoras de emancipação, ao incumbirem os alunos de estudarem autonomamente um tópico a aprender, para só depois aplicarem, debaterem e avaliarem em conjunto a respetiva aprendizagem. Algumas instituições têm vindo a explorar com sucesso as pedagogias de exploração do erro, onde os alunos desenvolvem autonomamente projetos complexos e são incentivados a melhorá-los através da identificação e correção dos erros cometidos.

A transição de uma cultura da explicação para uma cultura da autonomia confronta-se desde logo com os hábitos de passividade e dependência que os alunos adquiriram ao longo da sua vida escolar

As pedagogias da socialização tiram forte partido da dimensão online, quer dando expressão a comunidades de prática, quer explorando a produção, individual ou coletiva, de trabalhos que são tornados públicos e discutidos e avaliados pelos pares em redes sociais, abertas ou fechadas. Outro exemplo de pedagogias da socialização são as pedagogias da colaboração, com muitas variedades, desde as que se baseiam na construção de inteligência coletiva em contextos sociais complexos até às que criam espaços de coaprendizagem e coavaliação. Os chamados ambientes pessoais de aprendizagem (personal learning environments) são exemplos de redes de recursos e relacionamentos que cada cidadão dos nossos dias tem vantagem em construir e cultivar para assegurar a sua aprendizagem autónoma ao longo da vida, largamente pela via da socialização.

As pedagogias de projeto inspiram-se na riquíssima tradição das parcerias de trabalho entre mestres e aprendizes (apprenticeship) nas corporações medievais, que evoluíram na Renascença com a incorporação do conceito de projeto. As pedagogias de projeto incluem hoje quatro modalidades distintas, que se sobrepõem parcialmente: as pedagogias da criação, que incentivam o uso livre da criatividade; a aprendizagem baseada em projectos (project-based learning), uma das práticas pedagógicas mais promissoras da atualidade; as pedagogias do pensamento de designer (design thinking) que progridem por aproximações sucessivas segundo percursos de síntese que conciliam as partes e o todo; e as pedagogias do fazer, geralmente desenvolvidas em espaços de fabricação (makerspaces), hoje muito populares em projetos de informática e robótica, mas que se prestam a grande variedade de temáticas, tanto das tecnologias como das artes e das humanidades.

O que se impõe na escola para a autonomia não é uma reforma dos currículos, mas uma reforma das pedagogias


Assegurar a transição

A transição de uma cultura da explicação para uma cultura da autonomia confronta-se desde logo com os hábitos de passividade e dependência que os alunos adquiriram ao longo da sua vida escolar. Para eles, a cultura da explicação é a normalidade, e a normalidade deve continuar. Em condições normais, seria impossível alterar este status quo. Acontece que não vivemos condições normais. Como apontam vários autores, o período de pandemia que vivemos é um “teste de stress” à capacidade das sociedades para confrontaram os desafios de um século que insistem em não reconhecer como distinto do passado. Em domínios chave como o trabalho, a saúde pública e a educação, as fragilidades reveladas são de monta. Nada seria mais grave do que regressarmos à normalidade sem resolver essas fragilidades e termos de as confrontar mais tarde, porventura muito ampliadas, já nas próximas crises do século.

O que se impõe na escola para a autonomia não é uma reforma dos currículos, mas uma reforma das pedagogias. A reforma das pedagogias levará certamente à adaptação dos currículos, mas o essencial da mudança está nas pedagogias. Tratando-se de práticas conhecidas, embora ainda pouco aplicadas, seria catastrófico que perdêssemos esta oportunidade para, pela sua incorporação no sistema, criarmos uma escola capaz de preparar as próximas gerações para aprenderem a aprender, fazer, conviver, ser, pensar, poder, empreender e transformar. Uma escola que criasse autonomia em vez de dependência. Uma escola que capacitasse os jovens da próxima geração para assumirem autonomamente a construção do seu próprio destino e de um mundo melhor.


Tim Mossholder (Unsplash)

4 thoughts on “O imperativo de uma escola para a autonomia

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *