O jornalismo nos cuidados intensivos

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O débil setor dos media está ligado ao ventilador. Doravante, a sua sobrevivência depende da máquina, de muita engenharia financeira e da sua capacidade de resistência e resiliência.

Os efeitos da pandemia no setor fecharam empresas e aumentaram o desemprego à escala global. Pior: uma informação tendencialmente esquélita é incapaz de contribuir para a saúde democrática das comunidades que serve. O panorama é por isso muito grave e o prognóstico reservado. Ninguém vislumbra uma saída, uma luz ao fundo do túnel.

Da mesma maneira que o vírus contamina cegamente, independentemente dos estratos sociais e económicos de cada um, também as empresas de media são, indiferenciadamente, atacadas. E se o estatuto sócio-económico dos cidadãos pode fazer a diferença no que respeita ao modo como cada pessoa resiste e vai sair da atual crise, o mesmo se aplica à capacidade de resistência e de grandeza dos media. Mas que o mal a todos atinge…

Dados publicados em maio pelo The New York Times, referem que cerca de 36 mil profissionais de media norte-americanos perderam o emprego e o presidente do grupo que edita o Los Angeles Times informou que as receitas com a publicidade praticamente tinham desaparecido. Cenário idêntico por toda a América Latina, onde de acordo com um estudo publicado pelo Knight Center, os despedimentos, a redução de salários e o encerramento de empresas de media são sinais de uma devastação sem precedentes. E o presidente da Associação Mundial de Jornais e Editores, López-Madrazo, alerta no site da organização, para o paradoxo de ao aumento exponencial de leitores estar a corresponder uma preocupante “evaporação” de receitas publicitárias.


Desemprego e redução generalizada de salários

No Brasil, diversas empresas de comunicação aderiram à Medida Provisória número 936, remédio jurídico criado pelo Governo que prevê, dentre outras medidas, a redução de jornada de trabalho e de salário.

O Grupo Estado, proprietário do Estado de S. Paulo reuniu nos últimos dias de abril com os seus 250 jornalistas, para anunciar uma redução de 25% nos salários, para os próximos três meses. Cortes do género estão a suceder na generalidade  dos títulos e empresas do setor do país, incluindo jornais históricos como O Povo, o mais antigo periódico do Ceará, fundado há 92 anos. Até no Grupo RBS, o maior conglomerado de media do sul do Brasil está a despedir jornalistas, que, como o vírus, é cego, ao ponto de o canal de a RBS tv ter despedido uma das suas jóias da coroa, a repórter Guacira Merlin, que há duas décadas integrava os quadros da empresa.

No final de abril, a Nossa Santa Catarina (NSC TV), rede de televisão sediada em Florianópolis, com seis emissoras filiadas à Rede Globo, cortou em 25% os salários e promoveu demissões, como a do narrador de futebol Paulo Branch, na empresa desde 2012.

No Reino Unido, The Guardian e The Finantial Times anunciaram reduções salariais nos jornalistas mais bem pagos, ao mesmo tempo que os profissionais da Wired decidiram juntar-se e fundar uma associação editorial.

Em Salvador, a Rede Bahia de Televisão, também com seis emissoras filiada à Globo, foi uma das primeiras no país a comunicar a adoção de providências com base na MP, no início de abril. Em comunicado interno, ao justificar a medida, a diretoria do grupo informa: “Neste cenário tão adverso, no qual temos visto uma redução acelerada da atividade econômica e consequentes impactos nas nossas receitas, temos nos dedicado em buscar soluções para simultaneamente garantir o equilíbrio financeiro das operações e a preservação dos postos de trabalho”. Além das emissoras de tevê, a Rede Bahia conta com portais, rádios e o jornal Correio, o de maior circulação no estado.

No Rio de Janeiro, os jornais O Dia e Meia Hora, editados pelo Grupo O Dia, informaram, em abril, a redução de salários dos profissionais. “Por ocasião da pandemia de Covid-19 e tentando preservar cada posto de trabalho, e achar soluções que nos façam voltar à normalidade tão logo seja possível, o Grupo O Dia decidiu implementar um esquema de pagamento proporcional de salários, com efeito imediato, mas temporário”, diz um trecho do comunicado distribuído pelo grupo.

No Reino Unido, The Guardian e The Finantial Times anunciaram reduções salariais nos jornalistas mais bem pagos, ao mesmo tempo que os profissionais da Wired decidiram juntar-se e fundar uma associação editorial.

Em Portugal, a “Global Notícias”, um dos maiores grupos de media do país, proprietária de títulos emblemáticos como Diário de Notícias e Jornal de Notícias, do desportivo O Jogo e da rádio TSF declarou layoff, ao mesmo tempo que a imprensa regional vê algumas dezenas de jornais interromperem ou encerrarem, mesmo, definitivamente a atividade. O cenário geral, no entanto, já era muito preocupante antes da presente crise. Baixos salários e precariedade são, de há muito, duas expressões que definem o panorama do setor — pouco diverso, aliás, do que carateriza a qualidade da empregabilidade na maioria das áreas de atividade. Neste contexto, o governo decidiu atribuir 15 milhões de euros em publicidade institucional, 25% dos quais destinados à imprensa regional. Uma medida que todos os empresários dos media elogiaram, embora sabendo que tal não passa de um mero balão de oxigénio.


The New York Times é exceção

Há, todavia, uma exceção em todo este ambiente de preocupante recessão. Chama-se The New York Times e no último trimestre aumentou em 587 mil o número de assinantes da edição eletrónica, que totaliza, agora, cinco milhões de subscritores. A estes somam-se mais 800 mil assinantes da edição em papel.

Razão tem Bem Smith, especialista para os media, que a 1 de março, na sua coluna inaugural no jornal sustentava que “o sucesso do The New York Times pode ser uma má notícia para o jornalismo”. O seu argumento central é que a qualidade e a dimensão do jornal novaiorquino, que é cada vez mais uma marca informativa global, seca, em boa parte, a afirmação e crescimento de outros projetos jornalísticos. Bem Smith usava, aliás, a expressão do “gigante digital” que põe fora de competição qualquer concorrente.

Os números publicados agora confirmam a sua previsão escrita há quase dois meses e meio. Apesar da descida da publicidade e do aumento das despesas, o jornal viu os seus lucros crescerem, em virtude, justamente, da subida em flecha do número de assinantes. Segundo dados revelados pelo próprio jornal, o lucro do primeiro trimestre deste ano cresceu nove por cento, situando-se nos 32, 8 milhões de dólares. O total das receitas registou uma subida de um por cento, totalizando 444 milhões de dólares. O jornal informa, ainda, que tem vindo a contratar mais jornalistas, em evidente contraciclo no setor, ao mesmo tempo que o presidente do grupo, Mark Thompson, promete que a política do jornal é reforçar a redação para continuar a oferecer “a informação mais fiável e uma orientação útil sobre o coronavírus e suas consequências”.


Tanto Covid nas notícias já cansa

Um mês depois do início do confinamento e de uma dieta diária rigorosa de notícias sobre o Covid-19, o cansaço face à quantidade de informação sobre o mesmo assunto começa a fazer-se sentir. “Há três razões para esse mal-estar geral: as notícias deixam as pessoas deprimidas; também as faz sentirem-se impotentes; e as pessoas simplesmente não confiam nas notícias – elas as veem como superficiais, sensacionalistas e imprecisas”, alerta a edição da Wired no Reino Unido. Tal observação é corroborada pelo Columbia Journalism Review, onde Mathew Ingram fala numa tendência na procura por boas notícias, no quadro de uma prolongada crise sem precedentes na história recente. Cansaço ou escapismo, ou ambos os fatores, certo é que tudo aponta para um certo esgotamento monotemático a que os media se dedicaram intensamente ao longo das últimas semanas.

Não é caso para menos. Desde o início da pandemia foram publicadas em todo o mundo e apenas em meios digitais (96.747) cerca de 57 milhões de notícias, segundo dados da Cision, uma das maiores empresas mundiais que monitoriza diariamente os fluxos noticiosos à escala global. Só a 11 de maio, data em que este texto está a ser escrito, foram publicadas 423 mil notícias em 31.400 media.

Estados Unidos, com perto de 95 mil notícias publicadas a 11de maio lidera com grande avanço a lista, seguido do Reino Unido (26.693). O Brasil ocupava na mesma data a 12ª posição (9.068) e Portugal, com 4.386 notícias, sitiava-se no 20º lugar do ranking.

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