O maior comício contra a ditadura foi há 51 anos no Jamor

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Faz agora 51 anos e nunca é de mais recordar como um simples pedido do direito à palavra desencadeou um dos maiores turbilhões da longa história da academia coimbrã e do movimento estudantil português.

Eram las cinco em punto de la tarde quando, com as capas abertas e caídas sobre os ombros e com passo lento em sinal de luto, a equipa da Académica entrou para o jogo mais politizado e emblemático da história da Taça de Portugal. A seu lado caminhava, solidária, a equipa adversária, naquele final de tarde de 22 de junho de 1969 — dia em que a luta estudantil protagonizada pela academia de Coimbra invadiu a capital e forçou a prisão domiciliária o Chefe de Estado, a quem compete por tradição entregar o troféu ao vencedor e que, pela primeira vez, esteve ausente do estádio. Como ausentes estiveram também as câmaras da RTP que não transmitiram o jogo, como era e é, ainda hoje, regra fazer-se.

Nas bancadas repletas — 70 mil dizia no dia seguinte o jornal A Bola, mas referindo que apenas tinham sido vendidos 54 mil bilhetes — havia faixas brancas pintadas a negro exigindo “Melhor ensino/menos polícias”, clamando por uma “Universidade livre”, e gritando a necessidade de haver “Menos espingardas/menos quartéis/menos repressão”.

Carlos Pinhão, nome incontornável do jornalismo português, haveria de classificar, anos mais tarde, a final da Taça de 1969, como “um dos maiores comícios contra o regime”. Não foi caso para menos. As tarjas iam passando de mão em mão, para iludirem a polícia e ao longo do jogo foram distribuídos cerca de 35 mil comunicados, sob o título, Carta à Nação, a denunciar a situação dos 36 estudantes presos e outras iniquidades do regime.

Em jogo estava a disputa de um troféu, mas aqueles 90 minutos que se transformariam em 120, por causa do prolongamento, representavam para muitos milhares um desafio à ditadura, uma afirmação de resistência e luta contra a repressão vivida e sentida pelos estudantes. Naquela tarde, a insípida primavera marcelista assistia ao maior comício contra a ditadura.

O futebol enquanto “arte do imprevisto”, na feliz expressão do escritor uruguaio Eduardo Galeano, encontrou na malta de Coimbra, estudantes e não estudantes, uma cumplicidade sem igual no modo como souberam capitalizar a visibilidade do maior fenómeno popular de massas para a afirmação de uma luta política coletiva.

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Uma academia inteira no relvado

Vinte dias antes, Coimbra era uma cidade ocupada por várias corporações de polícia. Até a universidade se encontrava “completamente cercada por filas compactas de elementos da GNR que, montados nos seus cavalos e armados até aos dentes, impediam o acesso dos estudantes à Escola”, descreve Celso Cruzeiro, que viveu intensamente aquele período e o passou a livro, em “Coimbra, 1969. A crise académica, o debate das ideias e a prática, ontem e hoje”.

O ambiente era tenso e não prometia desanuviar, porquanto a greve aos exames, que explicava todo o aparato policial, era mesmo para cumprir e levar até às últimas consequências. E à semelhança do que se passaria a 22 de junho, no Jamor, a meia-final da Taça, entre a Académica e o Sporting, tinha já sido um excelente ensaio geral de luta e de demonstração como o desporto e a política não são campos opostos. A oito de junho, os jogadores da Académica entraram em campo equipados de branco e com uma braçadeira negra no braço, cumprindo, assim, o luto académico, entretanto decretado, e que haveria de se estender atá ao final da década de 1970.

O futebol enquanto “arte do imprevisto”, na feliz expressão do escritor uruguaio Eduardo Galeano, encontrou na malta de Coimbra, estudantes e não estudantes, uma cumplicidade sem igual no modo como souberam capitalizar a visibilidade do maior fenómeno popular de massas para a afirmação de uma luta política coletiva. “De onde menos se espera chega o impossível”, escreve Galeano no seu incontornável “Futebol: sol e sombra”, pelo que a principal equipa da Académica, que por feliz coincidência reunia um lote de jogadores de elevadíssima craveira e que sabiamente conjugavam estudos com a prática desportiva, soube estrategicamente transportar para o relvado de jogo, os superiores interesses de uma academia em luta.

De cada vez que os irmãos Campos invadiam o meio-campo adversário ou Manuel António apontava um golo, tudo isso fazendo parte do jogo — era muito mais que um jogo.  


Nitrato de prata roubado da aula de química

Tudo se precipitara na manhã de 17 de abril, quando o então presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, no conhecido anfiteatro da Faculdade de Matemática, se levantou e, perante um Américo de Tomás atónito, pediu a palavra, ao mesmo tempo que o então ministro da Educação, José Hermano Saraiva, salazarista até ao fim, olhava insistentemente na direção dos agentes da PIDE/DGS, como que a perguntar-lhes o que esperavam apara atuar…

O resto é amplamente sabido: prisões, estudantes enviados para a tropa, perseguições, enfim, a rotina, dir-se-á, de uma ditadura e da sua polícia política sempre muito atuante e atarefada. A seis de maio, a academia é informada de que a universidade fora encerrada por decisão ministerial, mas que o calendário dos exames se mantinha inalterável. No dia seguinte, a comissão encarregue de realizar a tradicional Queima das Fitas anuncia a anulação da habitual festa dos estudantes — que só voltaria às ruas da cidade em 1980.

A politização dos estudantes não era coisa de circunstância. Dois ou três anos antes, por ocasião dos proibidos festejas do 1º de maio, vários bairros e zonas de Coimbra, como Calhabé, Conchada, pátio da universidade, entre outros, tinham sido objeto de pichagens clandestinas.

Intensificam-se as reuniões e a contestação. A sete de maio, a Direção Geral da AAC publica a famosa Carta à Nação, a qual não escolhe as palavras nem encolhe os ombros, quando afirma, a terminar, que “a nossa luta só poderá fazer tréguas quando tivermos atingido uma Universidade nova num Portugal Novo”.

Como seria de esperar, a greve aos exames prosseguiu inalterável e sem medo. Segundo os Serviços de Informação, Propaganda e Estatística da AAC, citados por Miguel Cardina, em “A tradição da contestação”, 86,8% dos alunos da universidade boicotaram os exames. As Faculdades de Medicina (92%) e de Ciências (86,5%) lideraram o boicote.

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A politização dos estudantes não era coisa de circunstância. Dois ou três anos antes, por ocasião dos proibidos festejas do 1º de maio, vários bairros e zonas de Coimbra, como Calhabé, Conchada, pátio da universidade, entre outros, tinham sido objeto de pichagens clandestinas. “Nos Direitos e Reitoria, as pichagens foram feitas com nitrato de prata, roubado numa aula de análise química”, recorda, em entrevista a Manuela Cruzeiro e Rui Bebiano, Carlos Batista, um dos rostos do movimento estudantil. O detalhe sobre a utilização do nitrato de prata visava a surpresa, visto que enquanto a luz não incidisse sobre as imagens ou palavras, estas não seriam visíveis. Ora, “quando o sol rompeu, começaram a surgir as frases nas paredes. O pedestal da estátua do D. João III foi contemplado com a foice e o martelo. Ainda por cima é difícil de apagar”, revela Carlos Batista na entrevista que deu para o livro “Anos inquietos”.

Após o apito final Nene trocou de camisola com Eusébio, Mário Campos com Toni e assim sucessivamente, como se, simbolicamente, os encarnados agora vestidos de preto, e os de preto de encarnado, fossem uma e só entidade, um só emblema, apenas um imenso coletivo saudado por dezenas de milhares nas bancadas.

Boa parte desta agitação e insatisfação era ainda o borbulhar da crise de 1962, mas a sua face mais visível talvez tenha de se inscrever num movimento mais amplo que no ano anterior abalou Paris. Guy Debord e a sua obra “A sociedade do espetáculo”, publicada pela primeira vez em França, em 1967, era um dos responsáveis por essa “revolução”, que mais não era que uma reação a um tempo e à necessidade urgente de mudança. “É proibido proibir” clamava-se, então, na rive gauche parisiense, num quadro de enorme contestação que teria impacto e consequências muito para lá das fronteiras francesas.


A “final da amizade”

Eram las cinco em punto de la tarde (…) eran las cinco em todos los relojes, como no poema de Lorca, quando os jogadores da Académica, capas abertas e caídas sobre os ombros e andar lento e compassado, falsamente contrariado, entravam em campo para fazer de um jogo de futebol um acontecimento histórico. Eran las cinco em todos los relojes, menos no do Benfica, a avaliar pelo título de 1ª página que Vítor Santos deu à sua crónica no jornal A Bola: “O relógio encarnado atrasado hora e meia”. Mário Zambujal, nas páginas interiores do Diário de Lisboa, chamou aquele desafio de 120 minutos, a “final da amizade”, driblando com essa subtileza linguística a censura atenta, que não viu nessa ingénua declaração de “amizade” o gesto solidário que o Benfica teve para com os “revoltosos” de Coimbra. Até quando após o apito final Néne trocou de camisola com Eusébio, Mário Campos com Toni e assim sucessivamente, como se, simbolicamente, os encarnados agora vestidos de preto, e os de preto de encarnado, fossem uma e só entidade, um só emblema, apenas um imenso coletivo saudado por dezenas de milhares nas bancadas.

Contra a ditadura.

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