O meu último amor

Ebuen Clemente Jr. (Unsplash)

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No dia em que estava prometido tudo acontecer, disse sim ao desafio e recusei todos os receios. Não tanto pela vontade de ir, mas pelo intenso desejo de não mais ficar, decidi sair.

Recordo-me bem que, na altura, ainda não era noite tão cedo. E aquele momento de duas horas pareceu durar todo o tal dia prometido, porque cheguei e ainda luz raiava… Quando saí, apaixonada, a noite cerrava.

Deixei-me assoberbar pelo local do encontro. Logo na antiga igreja do Convento São Francisco, conheci o meu último amor. Que merecia mais do que a luz e a cadeira desajeitadas em que o apresentaram… Mas, enfim, bronca era eu, que não me apaixonei à primeira vista, porque não sabia sequer o que estava a ver.

Mas era certamente a única porque, ainda antes de chegar o meu último amor, o êxtase foi geral. Primeiro veio um senhor enorme, os cabelos e a barba também, que parecia tão desajeitado quanto a cadeira que lhe deram para se sentar. A igreja aplaudiu e eu anuí.

Agora que penso um pouco mais no homem (e largo por instantes o meu último amor), recordo-me que, sim, era desajeitado. Mas a cadeira não. Nem era uma cadeira, era um banco de merda.

Ri muito, porque, numa humildade que já não se conhece, «combinou» que as palmas ficavam para quando se virasse para a audiência, depois de largar o piano. Poupava-nos assim do peso de conhecer a etiqueta dos aplausos e a ele do inconveniente da falta deles.

Continuou a arrancar-me sorrisos, ao refletir como «a experiência partilhada» do isolamento acaba por aguçar a criatividade e, com mais antecedência do que as luzes dos centros comerciais, lembrou «a força do pensamento de um ano novo».

Sobretudo, o meu coração perdido rendeu-se às notas certas.

Sentado num banco de merda, Joep Beving apresentou-me o meu último amor. A sua música.

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