O miúdo que foi a casa de Kurt Gödel

5 min read

[Nr.: sinalAberto inicia hoje uma nova rubrica, a que o autor, Francisco José Craveiro de Carvalho, deu o nome de O abandonante de cidades. Trata-se de um espaço de revelação, no sentido em que ele vai trazer aos leitores a voz de poetas que Francisco Carvalho muito admira e que traduziu — muitas vezes até textos inéditos em português. Todas as escolhas e opções serão, pois, fruto das livres escolhas de Francisco Carvalho, cuja colaboração muito nos honra e prestigia. Mas sobretudo enriquecerão o leque de escolhas dos leitores que nos acompanham nesta jornada de diálogo, onde a palavra tem uma centralidade irrevogável. Poeta e tradutor, Francisco Carvalho é licenciado em Matemática Aplicada pela Universidade de Coimbra e doutorado em Geometria pela Universidade de Southampton, Reino Unido. ]



A palavra ao poeta Steve Klepetar:

A minha história começa em Xangai, China, em 1949. Um lugar pouco habitual para se nascer, pelo menos para uma pessoa com o meu aspeto e a minha voz. O meu pai era o editor político do Praguer Tagblatt, um jornal em língua alemã na sua terra natal, chamada então Checoslováquia.

No seguimento da invasão alemã em 15 de Março de 1939, foi preso e expulso do país. Foi para Itália e de lá, por barco, para Xangai, uma cidade aberta a refugiados desde que pagassem uma taxa de desembarque. O meu pai conseguiu um empréstimo de um familiar rico e acabou por ficar na cidade até abril de 1949.

A minha mãe, já envolvida sentimentalmente com o meu pai mas ainda solteira, foi encarcerada com a mãe em Terezin. A minha avó, juntamente com os meus avós paternos, veio a morrer em Auschwitz e a minha mãe foi mandada para um campo de trabalho perto de Dresden. Acabaria por ser libertada pelos Russos e juntou-se ao meu pai em Xangai.

Os meus pais casaram logo após a chegada da minha mãe e viveram em Xangai mais dois anos. Partiram para os Estados Unidos a seguir a eu ter nascido.

O começo foi difícil. Viveram com o irmão do meu pai primeiro em Saint Paul, Minnesota e depois com a família de um primo da minha mãe em New York. O meu pai arranjou trabalho e puderam comprar casa própria. A minha mãe trabalhou sempre, principalmente como auxiliar médica.

Cresci em New York, frequentei uma universidade estadual e doutorei-me na universidade de Chicago. Por causa dos meus antecedentes de imigração, tive sempre dificuldades com a noção de casa. Cresci em New York, um local estranho nos E. U. por muitas razões, mas passei a maior parte da minha vida adulta no Midwest, em particular em Saint Cloud, Minnesota, em cuja universidade estadual ensinei durante mais de trinta anos.

Ao longo dos anos vivi também em Chicago, Northumberland, England, Atlanta, Tucson e Western Australia. Hoje vivo perto dos meus dois filhos em Massachusetts. Num certo sentido, sou como uma tartaruga, levando a casa comigo como um estado emocional, o que me ajuda a adaptar rapidamente a novos meios.


Nota do Tradutor: Um pormenor que invejo na biografia de Steve é o facto de, em miúdo e apesar de hoje a recordação ser apenas vaga, ter ido a casa do famosíssimo especialista em Lógica Kurt Gödel. Gödel e o seu pai tinham sido colegas na escola secundária, em Brno.


Os dois poemas que se seguem, permitida uma certa fantasia, são retratos, digamos, fiéis dos seus progenitores, na opinião do poeta.


Serenidade

Há muito tempo escrevi um poema
em que a minha mãe oferecia ao Buda
uma fatia da sua Apfel Torte.
Na verdade, segundo me lembro, ele comia
outra fatia, mitt Schlag, sorrindo daquele modo
beatífico que tinha e que as pessoas têm
quando comem bolo.
O Buda teria gostado da minha mãe,
estou certo, pela sua singularidade,
pela forma como detestava barulho.
Ela acreditava que os condutores de ambulâncias
em Nova Iorque faziam soar as sirenes de propósito
só para a chatearem e não confiava no correio
a não ser que fosse distribuído pelo carteiro habitual,
que ela subornava para o receber primeiro.
Era a pessoa menos calma à superfície da terra
e como se costuma dizer: os opostos atraem-se.


Um mistério

O meu pai era um mistério, nascido num país distante.
O seu único irmão alimentava-se do seu coração.
Escreveu dois livros e sentava-se todas as noites
na sala de estar a ler, fumando o seu, um só, charuto.
Lia Virginia Woolf, dizia “Tenho medo de Virginia Woolf.”.
Dizia “O pai dá ao filho, riem ambos,
o filho dá ao pai, choram os dois.”.
Era um mistério, perdido na América.
Andava de metropolitano com o Times dobrado nas
[mãos.
No emprego tratavam-no por Herr Doktor, mas não sei
[porquê.
Falavam todos Alemão, como se viessem de outro país
[noutro tempo.
Falou-me de Aquiles, de como a mãe o mergulhara no Rio
[Estige.
A sua morreu em Auschwitz e o pai também.
Quando regressava a casa, cuidava do seu olho com calor,
[bebia um martíni, ouvia ópera na rádio.
Chamava-me Stefan Harriovitch, ensinou-me que “bang
[bang” em Latim
era bangum bangum, o que eu, sendo tão pequeno,
[acreditei.


Eva and Harry Klepetar (1947)


Francisco José Craveiro de Carvalho (poeta e tradutor; é professor jubilado de matemática)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *