O paradigma caritativo nos ofícios artísticos

Farsa - Isabel Lopes (Angélica) Paulo Calatré (Górgibus) e Victor Santos (”Enfarinhado”)

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O paradigma caritativo como solução para questões só resolúveis pela radicalidade de uma alteração estrutural é velho como o mundo cristão. A igreja, entretanto, velha como a mais velha profissão mas mais recente que o teatro, deu-lhe forma instituída: chama-se esmola.

Nos tempos monárquicos o Esmoler-Mor do Reino era cargo relevante, a pobreza tamanha era geral. Os pobres tinham lugar definido, a pobreza seria eterna e os ricos podiam contar com ela para exercer as práticas da boa consciência redentora face à vigilante omnisciência do Senhor e continuar ricos e caritativos.

Para sustentar ofícios inúteis e improdutivos como os das artes não rendíveis o Esmoler-Mor chama-se Ministério da Cultura — só o lucro é legítimo, o controlo é apenas contabilístico (as comissões de avaliação e acompanhamento são tretas fingidas em que uns tantos também esmolam e buscam carreira). O que não é lucrativo é bastardo, igreja neoliberal dixit e apenas merece “os investimentos” que a lei concursal — a competição e o lucro são a faces do mesmo verso estruturante — lhes atribui: as esmolas subsidiantes sub financiadoras.

Estamos hoje perante uma política caritativa semelhante à do Esmoler-Mor: profissões que são toleradas em nome da democracia e da “cultura”, não encaradas como sua parte constitutiva, como a de actor de teatro — repito, de teatro sem fins comerciais — como a de encenador, de cenógrafo, como a de poeta, como a de bailarino e coreógrafo, etc., se não se submeterem aquela lógica inaceitável que é a de trabalhar noutro ofício para nos intervalos fazer o que se gosta. 

O labor criativo “improdutivo” e não lucrativo, economia específica autosustentada muitas vezes não tem direito de cidade, mesmo que esse improdutivo seja intelectualmente criativo e formador da consciência crítica e democrática, mesmo que inutilmente útil na perspectativa de estimular em vida o que possam ser as potencialidades mais humanas dos sujeitos enquanto individuos e não enquanto máquinas de produção de valor directo ou indirecto — há profissões que são formas de existência instrumental e outras icónicas, idênticas às dos gladiadores, dos mercenários, dos assassinos, dos criminosos como os “donos disto tudo” do sistema banqueiro, e há outras profissões que dependem da democracia, não de mercado, e que “rendem” noutra perspectiva, como educar, investigar e criar, inventar o que não sendo imediatamente necessário e útil é necessário e útil a uma perspectiva humana que , aparentemente anti-rendível, seja pela persistência da vida no planeta, pela emancipação das comunidades de teias de subalternidade e sujeição que são as actiuais organizações sociais, os seus modelos e formas organizativas — e sabemos que o planeta caminha para o fim, que se está a materializar o Jogo do fim (Beckett).

Respiramos um clima constante de mercadificação de tudo e todos, e o valor de tudo é o valor de troca, a moeda é um equivalente geral deus único e nada fora dos curcuitos que estabelece existe. Claro que sabemos que hoje em dia, as formas que assume, nomeadamente no domínio do fetichismo e da “celebridade” como renda são complexas.

Personagens de farsa: Arlequim, Gandolin, Gros-Guillaume, Carlin

Estamos hoje perante uma política caritativa semelhante à do Esmoler-Mor: profissões que são toleradas em nome da democracia e da “cultura”, não encaradas como sua parte constitutiva, como a de actor de teatro — repito, de teatro sem fins comerciais — como a de encenador, de cenógrafo, como a de poeta, como a de bailarino e coreógrafo, etc., se não se submeterem aquela lógica inaceitável que é a de trabalhar noutro ofício para nos intervalos fazer o que se gosta. 

Assim as artes são subsidiadas, o nome da esmola e existem como sobrevivência e não como potência de formas de emancipação comunitária, inscritas na democracia com as suas características orgânicas complexas para que as suas realizações sejam, de facto, alimento constante de um real que foi e é engolido pelas diversas formas de ideologia publicitária dominante e por um simulacro de debate que serve para fingir que a democracia é democrática, isto é, diversa e plural, quando na realidade é uma forma subalterna e hegemonizada por formas de pensamento único, assente nas determinações da economia de mercado, da competição, da produtividade,  modos de subalternizar a vida a uma condição engrenada e sistémica produtiva e a criatura humana à condição maquinal, proletária, precária ou o inverso, o proprietário de precários e o agente sistémico, como a casta mediática.

A profunda mudança necessita de uma alteração que seja diversa da que resulta das práticas reivindicativas que procuram soluções paliativas (…) para o que só pode vir a fazer mossa: uma força-movimento organizado e organicamente múltipla e móvel, capaz de realizar aquele feito  que vem descrito no aforismo do alter-ego de BB, o Senhor Keuner: “do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

Nestes tempos de vid’ecrã, projecção permanente da ideologia da mercadificação sob a forma de imagens omnipresentes, o modo como as “lutas” se desenvolvem organizam-se excessivamente para ela (vid’ecrã), dão-se como espectáculo na perspectiva iludida de alargar o que se afirma a um quadro logo global por efeito da reprodução da imagem da “luta”, sujeitando-se assim a ser engolidas pelas formas instrumentalizadas da sua publicitação, formas que as negam, isto é, instrumentalizam pelo lado da acentuação do fado da vítima no lugar da clarificação das necessárias alterações estruturais, no caso do teatro a criação de pólos de criação de  serviço público artístico, de diversa índole a natureza, por todo o país, ajudando a instituir a necessária regionalização.

Fora disto, só o não formatado para o visível pode agir de modo não dependente, meter paus na engrenagem, desenvolver lógicas comunitárias integrais alternativas “culturalmente sustentadas”: Heiner Muller falava de ilhas de resistência. Todos os intervenientes nestes processos dependem desse meio para imaginarem — com satisfação ilusória — chegar a algum lado, isto é, a uma desejada e não vinda verdadeira mudança do real, a um extirpar do mal pela raiz que, na realidade, é mais um prego no caixão do mesmo.

Em contextos de real em que este tem a complexidade do que se chama uma cultura — amálgamas de identidade herdadas que se misturam com práticas dominantes de consumo e heranças específicas aliadas a condições concretas de existência e condicionamento ideológico —  ao combate protestativo sob forma espectacular, segue-se o próximo combate protestativo sobre forma espectacular.

A profunda mudança necessita de uma alteração que seja diversa da que resulta das práticas reivindicativas que procuram soluções paliativas — de curto alcance melhorista, com grande expressão em formas estatísticas, o zero vírgula tal e outros números de grande alcance para engodar o pagode — para o que só pode vir a fazer mossa: uma força-movimento organizado e organicamente múltipla e móvel, capaz de realizar aquele feito  que vem descrito no aforismo do alter-ego de BB, o Senhor Keuner: “do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

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