Retour, a la ville, d'un propriètaire de chacra, Jean Baptiste Debret

5 min read

Para não dizer que não falei de estátuas, algumas devem, sim, ser derrubadas. São aquelas em que nem o apelo ao anacronismo como álibi é suficiente para garantir o benefício da dúvida. Elas devem ser derrubadas porque nunca deveriam ter sido erguidas. Penso que outras devam ficar de pé, não necessariamente porque mereçam reparação, mas por ser mais útil apresentá-las devidamente contextualizadas. O resto, quiçá a maioria, é agora só bronze que adorna praças e serve de poleiros para pombos. Mexer nisso é dar a importância que elas já não têm. Convém escolher bem as nossas batalhas. Mas, ao final, creio que o debate sobre quais entram em cada categoria resultou como a melhor prática dessa empreitada. Revisitar e ressignificar nossa história deveria ser um processo constante.

Há, contudo, um ponto que merece discussão. Culpar o mercador de escravos ou o bandeirante etnocida de três séculos atrás, ainda que leve a muito devida correção histórica, não contribui para a identificação dos culpados de hoje. É duplamente simbólico o ato de apontar as baterias para monumentos. Se por um lado é o reconhecimento das raízes longevas da iniquidade, por outro, são estátuas. Não é lançada luz, nem a ação, sobre aqueles que realmente são os responsáveis pela perpetuidade da injustiça às portas da terceira década do terceiro milênio.

Pois bem, como todo crime complexo, há mais de um culpado. Há mandantes, executores e cúmplices. Quem costuma puxar o gatilho são as engrenagens do Estado, que quando não domado pela real democracia, serve sempre como o feitor do poder econômico. A fazenda fecha os olhos para os lucros e dividendos, mas tributa a pouca renda e o consumo, a justiça afaga quem sonega, mas prende quem nada tem, e a polícia, bem, a polícia achaca e mata. Em todos esses casos as vítimas são os pobres em geral, mas os negros em específico. Já o mandante leva a alcunha de mão invisível. Remunera o mínimo para garantir a máxima margem, fabrica crises para explorar o desespero, promete o paraíso, mas se alimenta da miséria. Mais uma vez, são os negros os que mais sofrem. Se comprada na loja virtual do homem mais rico do mundo, por US$14,99 é possível receber sua camisa #blacklivesmatter na porta de casa até o fim da semana. Ter sido confeccionada em Honduras por uma fração ínfima desse preço não é só um detalhe.

Mesmo que, em uma utopia distante, consigamos resolver essas questões prementes, o racismo ainda sobreviverá como pústula. Ele está dentro de mim e de vocês, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau. Temos o dever constante de desconstruir o que está internalizado por gerações. Exatamente por ser estrutural, e estruturante, é que devemos começar por derrubar os alicerces que serviram de pedra fundamental. Essas fundações do racismo, como que também construídas em bronze, continuam sólidas. E se distinguem, em sua essência, muito pouco daquelas que foram erguidas séculos atrás.

Não esqueçamos dos cúmplices. A Igreja, que nos primórdios deu a sua benção à escravidão e hoje, em sua versão neopentecostal, vende a ilusão de prosperidade enquanto mantém a ordem e garante o seu lote do Estado. Tudo, claro, sob o beneplácito da imprensa corporativa, acostumada a ser linha auxiliar do persistente esmagamento da população pobre e negra e que precisou da (justa) comoção pela morte em Minnesota para enfim se lembrar que existe racismo no Brasil. Durou uma semana, já voltamos à programação normal.

Créditos: João Figueira

Não basta estarmos divididos em classes, mas as próprias classes devem ser divididas em subclasses. Quanto mais subdivisões, menor a chance de formação de uma resistência coesa e unificada. A perversidade maior, e isto não se dá por acaso, é que no seio da massa de explorados, uns acabem por fomentar a miséria maior do vizinho. Ainda que esteja naturalizado, o racismo não é natural, é um projeto. A luta antirracista ganha força quando também tem como alvo o poder econômico e o aparato estatal que o sustenta. No mesmo sentido, a justiça social nunca será alcançada sem a superação do racismo.    

O materialismo ajuda a explicar o problema, mas só em parte. Mesmo que, em uma utopia distante, consigamos resolver essas questões prementes, o racismo ainda sobreviverá como pústula. Ele está dentro de mim e de vocês, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau. Temos o dever constante de desconstruir o que está internalizado por gerações. Exatamente por ser estrutural, e estruturante, é que devemos começar por derrubar os alicerces que serviram de pedra fundamental. Essas fundações do racismo, como que também construídas em bronze, continuam sólidas. E se distinguem, em sua essência, muito pouco daquelas que foram erguidas séculos atrás.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *