O Rei vai de calções

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Emérito ou atual, não é comum ver um país questionar-se sobre o paradeiro do seu rei. Contudo, enquanto em Portugal se discutia a localização de Cavani (jogador uruguaio que, de acordo com os media, passou o mês de agosto a entrar e a sair do Benfica), por Espanha procurava-se o rei (emérito) Juan Carlos I. Figura incontornável da história espanhola no século XX, central na transição para a democracia pós-Franco, o rei passou as duas décadas do século XXI a cultivar casos.

Estes casos são variados: partiu uma anca durante uma viagem de caça no Botsuana em plena crise económica (2012); ao longo dos anos esteve envolvido em vários casos de alegada paternidade fora da família real e, desde que abdicou da coroa em 2014, muitas suspeitas de corrupção. A mais recente foi de, aos 82 anos, ter saído de fininho do país para residir em parte incerta.

A causa desta mudança parece ser uma investigação que procura a origem de 100 milhões de dólares depositados numa conta suíça da qual o rei usufruía. Uma das alegações é que este dinheiro foi um pagamento feito pelo rei da Arábia Saudita por facilitar negócios que favoreceram os sauditas. Na carta de despedida ao filho, Felipe VI, Juan Carlos diz que sai do país apenas pela “repercussão pública de alguns acontecimentos passados da sua vida privada” e para “facilitar” o exercício das funções do atual rei.

Uma das testemunhas da investigação, Corinna Larsen — que, por sinal, participou na viagem ao Botsuana para a qual a rainha Sofia não foi convidada — disse também que o rei lhe ofereceu 65 milhões de dólares dessa conta por “gratidão e amor”. A fama do rei é tal que há um filme espanhol, Rey Gitano, com a premissa de que o rei teve uma relação com uma cigana e o filho nascido deste encontro tenta provar que é o herdeiro legítimo da coroa. Com antecedentes assim, é uma situação quase verossímil.

Claro que um acontecimento destes é comentado por todo o país, mas é particularmente interessante acompanhá-lo desde a Catalunha. A monarquia é espanhola é um símbolo fácil de atacar pelos independentistas (que na sua maioria se consideram republicanos). Quim Torra, presidente da Generalitat (o governo autónomo da Catalunha), não hesitou em pedir que Felipe IV abdicasse do trono devido a esta ação do pai. De caminho também muitas críticas ao governo central por “encobrir” a situação.

O engraçado é que quando ouço pedidos assim até penso que a corrupção é um monopólio das monarquias ou de qualquer outro sistema político. Mas os catalães deviam lembrar-se de casos como de Jordi Pujol, presidente da Generalitat durante 23 anos (1990–2003), que manteve uma fortuna escondida num banco na Andorra. O caso à volta da origem do dinheiro — a suspeita é de corrupção e, até, crime organizado — ainda está aberto, oito anos depois. Pujol alega que o dinheiro era da herança do pai e toda a sua família está envolvida. Afinal de contas, não é preciso ser realeza para ter problemas deste género.

Para mim, os verdadeiros reis da sociedade são quem tem dinheiro porque dinheiro é poder (e vice-versa) e sobre um Pujol ou um Juan Carlos – que, afinal, parece ter-se mudado para os Emirados Árabes Unidos –  nunca nenhum menino vai poder dizer que “o rei vai nu”. Quando muito, o rei vai de calções que durante o verão faz muito calor e, se calhar, até os encontramos por Portugal.

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