O testamento de amor de Josep Román

Les Routes Sans Fins (Unsplash)

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Omar tinha ido buscar o cego Bastián para o proteger da chuva com um dos seus tapetes. Ao andarem, era como se o tapete tivesse alma, com as suas franjas de cores vivas e ondulantes.

MANUEL RIVAS
Alma, maldita alma


O problema de Julián Canario (JC Córdoba para ser mais exato) era a aspereza dos engenheiros, encarregados de obras e operários com que tinha que trabalhar. Mas quem era ele? Pouca coisa.

Os projetos eram baratos e o espaço curto. Havia lugar para sanitas e camas, mas à justa. Na sala cabia a panela, o jantar e a TV. No entanto, não havia uma nesga para um quadro decente. As varandinhas mais pareciam as faixas que apertam os ventres das bailarinas, para disfarçar e dar cor. E as plantas abafavam com falta de sol e ar, entaladas entre o tijolo e o vidro da portada.

Nunca viu uma monstera deliciosa ou mesmo uma pequena palmeira numa das suas casas depois de habitadas, somente esforçadas trepadeiras e pequenos catos.

Mente: numa das casas, a única, viu uma exuberante profusão de orquídeas verticais e plantas aéreas, tillandsias, unindo o soalho e o teto em fios verdes de sisal. Era um jovem advogado que trocou os jantares por saladas, carinhosamente preparadas em cima da cama. Na verdade era um pequeno colchão em base tatami, bom para magricelas e aflitos. Ele e a companheira tinham que dormir no espaço de um. Preferiam as sensuais e gigantes reproduções de Gauguin e a vasta coleção de CDs de free jazz, que agrupavam em pilhas para pousar o café e o gin.

Pareceu-lhe mesmo que uma das nativas lhe piscou matreiramente o olho, aha oe feii?, e não soube que dizer. Assim sentiu o cheiro a vida numa das suas casas, por uns segundos. Vida-esparta mas vida. Creio que foi a única vez.

Parecia ser o último na cadeia alimentar de clientes, engenheiros, encarregados de obras e mesmo operários. Quando iniciou o curso não queria ser arquiteto, queria ser artista. Na altura, ingenuamente, pensava que ser artista era ser um refinado escultor ou pintor de óleos.

Hoje a realidade leva-o a pensar um pouco diferente.

O que é um arquiteto de projetos baratos senão um pequeno escultor ou pintor? O arquiteto dá forma às casas mas, por mais que se esforce, só lhe define as arestas, como o escultor. Ou as cores, como o pintor. Ou mesmo os ritmos, como o músico, e mesmo assim espartilhados pela ditadura de engenheiros e encarregados, como nas pautas.


Cristian Newman (Unsplash)

Onde estão as diferenças e os matizes? As subtilezas e subjetividades que tecem a vida? Ou mesmo as emoções, as alegrias, as deceções, as ilusões, as pequenas traições? Quando muito sente-se traído pelo curso. Poderia criar, e criar a sério, se pudesse respirar, como o grande artista que não se cinge às arestas, às cores e aos ritmos, mas que modela os matizes que os unem e os transformam, que lhes dão amor e ódios, que os convertem numa massa fluida e variável, como a vida.

Uma vez, numa conversa à beira da obra, o engenheiro teve o desplante de lhe fazer notar que as suas monsteras poderiam por em risco a vida de pessoas, pelo toque. Não se mata o gato só porque ele dejeta.

Sente-se traído pela ideia de que qualquer arquiteto poderá ser um pequeno Gaudí. Jamais poderá ser o construtor orgânico, o realizador de projetos sem projeto. Nem todos podem esculpir a Sagrada Família com cinzeis de água.

Julián começou a colaborar com a Associação de Paralisia Cerebral porque queria ser útil. Além do mais a sede era perto de casa e cedo verificou que o apego à vida dos doentes lhe fazia bem. Ajudou muito Josep Román, o jovem de 34 anos que se contorcia na sua sofisticada cadeira de rodas, marioneta de um mago com ataques epiléticos.

Que dia é hoje, Josep? Nunca lhe falhou até agora. Aprendeu a ouvi-lo sem palavras. Nunca pensou que seria capaz. Josep, por que é que o estado não liberta Oriol Junqueras? Por que é que a grande Espanha não se torna numa federação de estados? Josep, Santiago Abascal vem da tumba de Francisco Franco? Josep?

Josep, por que é que os espanhóis tomam um bocadillo para almuerzo às 11 horas, parando tudo com fervor, e ficam na grande praça até às 2 horas da madrugada nas noites obscenas de verão? Josep, por que é que as mulheres em Espanha nos olham como se quisessem fazer amor connosco?

Respondia a tudo com clareza, no seu código preciso e enxuto. Não precisava de muitas palavras. As palavras eram sons, por vezes gemidos. E um piscar de olhos. Uma sobrancelha. A torção das rodas. Um pisca. Um porra, que é uma palavra que se entende sempre.

Conversávamos longa e detalhadamente, como velhos amigos. E também apaixonadamente, como companheiros lúcidos.

Uma vez Josep perdeu um papel, que o vento soprou até ao centro da via. Seguia pelo lado esquerdo, em contramão. Não sabia o perigo que corria, principalmente ao pôr-do-sol, quando os raios eram tangentes.

Um carro viu e parou. O condutor saiu e trouxe-lhe o papel, em passos de algodão. O relógio parou, expectante. Os olhos olharam-se calma e docemente. «Como vais, irmão?», sussurrou. «Bem, amigo, só não posso correr atrás do vento».

Agradecia sempre quando via o condutor a aproximar-se nas suas pequenas viagens. Parava a cadeirinha e ficava a olhá-lo, ternamente. O carro aproximava-se lento, atrasando as horas. Era um velho Peugeot dos anos 80. Passavam longos minutos a saudar-se. Nunca ninguém lhe tinha feito isto.

Noutras ocasiões Julián empurrava-lhe o carrinho pelos passeios desajeitados. Afastava um caixote do lixo tresmalhado. Ajeitava-lhe a camisola que descaia. A roda encravada num buraco. «Julián».

E conversavam sempre, nos seus códigos morse. Tac-tac. Pausa. Tac-taac. Pausa. Taac-taac-tac. «Julián, como está a Laura?» Tac-tac. «Josep, a Laura hoje está de banco e não pode vir. Manda-te um beijo. Olha, já me esquecia dos chocolates». Pausa. Tac-tac. «O chocolate é a melhor coisa do mundo. Sempre que morro como um chocolate», costumava dizer.

Tac-tac-tac.  Pausa. Taac-taac-taac. Pausa. Tac-tac-tac. Julián.

Pensou que o chocolate era conhecido pelos astecas como xocolãtl. As sementes de cacau eram utilizadas como moeda e consideradas presentes do deus da sabedoria. Não sabia se ele sabia isso. Tac-tac. «Sim, sei, li tudo sobre Tenochtitlán, onde está a Cidade do México».

Era um leitor e um ouvinte voraz. Não só lia os ebooks como os ouvia pelos speakers. Só precisava que lhe entalassem a cabeça entre duas palas, para que fixasse o ecrã. «Julián».

«Sim, diz».

«As rosas ainda cheiram o mesmo?»

«As rosas ainda cheiram como se fizéssemos amor». Apreciava que lhe descrevessem exatamente as coisas e os lugares.

Um dia não encontrou Josep Román no sítio de sempre. Na sede da APC os passos eram nervosos e baixavam a cabeça ao passar. Não se ouvia o tilintar da louça e a alegre ruideira das endiabradas chávenas de café, que os doentes bebiam para passar o tempo. A luz parecia mais filtrada pelas gelosias. Os ponteiros do relógio da parede pareciam rodar mais lentos, como se navegassem em gel. Pareceu-lhe ver uma medusa a voar.

Josep. Onde estás, Josep?

Limpou nervosamente os óculos e foi então que uma enfermeira lhe disse. Tinha sido inesperado e rápido. Parecia que Josep tinha um problema cardíaco que ninguém conhecia e foi encontrado sem vida de manhã.

Josep. Josep?

Um doente circulou lentamente na sua cadeira, em golpes largos de mão, como se fossem asas.

O carteiro pousou suavemente as cartas na mesa. Parecia que estava em meias.

As crianças do jardim-escola, que também funcionava na sede, liam pequenas fichas coloridas que metiam nos bolsos umas das outras. Parecia um casino sem slot machines.

O dono de um Peugeot apareceu subitamente a perguntar se ali era um sítio. Pareceu-lhe ouvir xocotitan, mas não fazia sentido.

As vigas da casa pareceram engrossar em gigantes colunas e viam-se agora vitrais nas janelas, que atraiam os pássaros.

Um jovem magricela trazia um código civil e perguntou se era ali que vendiam CDs de jazz.

Olhou para cima e viu uma gigantesca rosácea, que lhe pareceu a da nave central da Sagrada Família.

Viu um engenheiro e três operários com capacete à procura de uma betoneira.

Pareceu-lhe ver Abascal a sair de um armário escuro, com barbas negras cerradas bem aparadas. Um Junqueras de olhos pequeninos mas espantados empurrou-o para trás.

Uma mulher com grandes lábios vermelhos tomava o almuerzo com um copo de gin na mão.

Um papelinho branco parecia ter sido soprado pelo vento, saltando do chão para uma cadeira vermelha sem uma perna.

Uma criança empurrou um caixote de lixo para o meio da sala.

Tac-taac. Pausa. Taac-taac-tac.

A Laura também apareceu. Trazia um chocolate na mão, embrulhado no jornal da véspera.

As rosas vermelhas da jarra cheiravam a cravos brancos.

O carteiro afastou-se no Peugeot, deixando um homem só atrás.

Josep.

Dois dias mais tarde entregaram-lhe uma grossa encomenda por correio. Era enviada por um solicitador e continha uma carta e três volumes com forma de livro.

A carta vinha impressa e dizia: «Para o Julián, a única pessoa que me amou e ajudou na vida. Gostaria que soubesses que fui sempre feliz, à minha maneira. Pedia-te apenas que tentasses publicar estes livros, que fui escrevendo nos últimos anos, quase sempre pela noite fora. Pedia-te também que agradecesses pessoalmente ao dono do Peugeot. Um grande beijinho para a Laura e que a vida te sorria sempre».

Um era um livro de contos que pareciam ter acontecido no México. Teve que o ler várias vezes, pois tinha muitos personagens com nomes exóticos e camadas sobrepostas de tempo. Ora andava para a frente ora para trás.

O outro era um denso romance. Deu uma vista de olhos e pareceu-lhe uma história de amor, que o apanhou já jovem adulto. Não parecia ter sido correspondido e tinha um final que parecia uma despedida póstuma, um pouco dramática.

O terceiro era um livro em prosa poética, dirigido a si, em que Josep lhe explicava o que tinha de fazer para encontrar a magia perdida, desperdiçada pela arquitetura barata.

Explicava-lhe que a palavra, livre e subtil, sem as normas formais da poesia, clássica ou moderna, era a maior e melhor invenção que a humanidade alguma vez fez.


Daniele Levis Pelusi (Unsplash)

A palavra-prosa, descomprometida e fluida, era capaz de se infiltrar nos tecidos das arestas, cores e ritmos, tornando complexas e vivas as formas mais primárias de arte. Todos os grandes artistas a utilizavam, implícita ou explicitamente, para dar vida à sua arte.

A palavra-prosa, dita ou escrita, tinha uma força tal que podia fazer adoecer gravemente ou mesmo matar. Podia também ressuscitar ou fazer entrar em transe.

Josep suspeitava mesmo que, no seu caso, a paralisia cerebral podia ter sido causada por uma descarga verbal tão intensa que teria ferido permanentemente algumas zonas do seu cérebro. Parecia saber exatamente o que tinha sucedido, mas não revelava.

Felizmente não afetou as áreas cognitivas, o que não era propriamente surpresa.

Julián entrou num estado febril que comparou à alucinação ou à magia.

Cada palavra, cada frase, constituía uma dramática intervenção no seu estado mental e psicológico. Entendeu finalmente a raiz da sua eterna insatisfação e também a razão por que Josep foi feliz, apesar dos golpes da vida.

Josep tinha razão: a palavra subtil tem um poder radical de mudança. Pode transformar a arte primária em sublime. E pode alterar dramaticamente a mente.

Julián Canario Córdoba passou uma semana a ler e a reler os três livros de Josep Román.

Depois foi despedir-se pessoalmente do dono do Peugeot, em nome de Josep, beijou Laura, também em seu nome, e despediu-se da arquitetura barata.


Mark Tegethoff (Unsplash)

Para contactar o autor: pratas-young@theyeofhorus.net

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