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Antes do debate entre Catarina Martins e André Ventura, havia quem estivesse certo do seu vencedor. E não demorou a que os comentadores – entre os quais, jornalistas – sentenciassem a vitória de Ventura por ter sido “mais eficaz” e ter “falado melhor ao seu eleitorado”. E é provável que o presidente do partido CHEGA tenha, dentro desses parâmetros, sido melhor. Mas o que significa ganhar um debate?

O circo mediático, concebido pelo jornalismo ideológico (ainda alguém acredita no mito da neutralidade jornalística?), impôs há muito o sistema de combate de galos, transfigurando o estúdio em ringue, e a ideia generalizada de que todos os pontos de vista são igualmente válidos, e que não podemos escolher, entre eles, com base em convicções, mas em emoções superficiais e no resultado final. É a consequência da importação do modelo norte-americano de debate-espectáculo – um paradigma planeado pelos media e ajustado para um propósito definido, que é o das audiências e do lucro associado. O que conta não é o que se diz (e muito menos o rigor e a propriedade com que se fala), mas a entoação, a multiplicação de factos (não raro, deturpados), a agressividade discursiva, a prontidão verbal e os processos discursivos que controlam as nossas emoções básicas. Em suma, a voracidade dos sound bites.

Se Ventura quisesse debater, teria de escutar, merecer ser escutado e apresentar as suas ideias. Mas ele não quer debater: quer vencer um debate. Por isso, provoca, interrompe constantemente o adversário, recorre a inúmeras e burlescas contracções do rosto e da boca (como a TV gosta), gesticula e acena com a cabeça como um garoto, vale-se dos infalíveis trunfos em papel documentado. André Ventura, para sermos francos, não é completamente perverso; é apenas inensinável. Lembra aqueles jogadores de futebol que passam um jogo a dar sarrafada aos adversários e, ao mínimo golpe sofrido, contorcem-se dramaticamente no relvado como se o mundo estivesse a acabar e não houvesse qualquer outra forma mais asseada de jogar.

Jerónimo de Sousa decidiu não debater com Ventura. E fez bem. Primeiro, porque, de acordo com os critérios que os modelos televisivos e os editoriais ideológicos alimentam, perderia. Depois, porque seria arrastado para um terreno de mediocridade e de mediatismo vulgar. Além de que, apesar da sua idade, é demasiado virtuoso e ingénuo.

A arrogância demagógica de Ventura leva-me a acreditar que o homem sairia sempre vencedor de qualquer debate, fosse quem fosse o seu contendor. Martin Luther King, Mahatma Gandhi ou Nelson Mandela murchariam impotentes ante o falsário da linguagem que é o nosso André, e Jesus Cristo ficar-se-ia pelos desenhos a dedo no pó da terra.

Se quem se atreve a “debater” com André Ventura sabe que vai perder, como interpretar a atitude de mártir com que o faz? Talvez haja (ainda) quem queira traçar a fronteira entre a decência e a barbárie. Mas é um esforço inglório e tem um alto preço. Sobretudo, porque boa parte do auditório não tem olhos na cara e acredita que um debate, seja entre uma rodela de limão e um pneu de camião, é sempre um debate. Catarina Martins invocou tacticamente o Papa Francisco, percebendo-se que queria informar (sobretudo a direita) que o debate político deve poder ser prestigiado. Esqueceu-se, porém, que o regime democrático ainda não criou a pedagogia da elevação moral. Demos telemóveis e big brothers às pessoas, mas fomos coniventes com a escassez de recursos na Educação e no serviço público de qualidade na imprensa e nas televisões.

João Ferreira, guiado por um pragmatismo que afasta qualquer suspeita de ilusão, afirmou em tempos: “Bernard Shaw dizia que a vida lhe tinha ensinado a nunca lutar com um porco; em primeiro lugar, porque isso evidentemente o deixava sujo, e, em segundo lugar, porque o porco gosta.”

E os tempos são das aparências. E das audiências.


(Pixabay)

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