O último “Nobel”

“Economics is a cluster of doctrines, not always consistent with each other, which mean to provide a simplified but essentially correct model of social reality.” (Avner Offer e Gabriel Söderberg)

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Todos sabemos isto. Há mais de um século que, no início do mês de Outubro, são anunciados os nomes dos vencedores dos prémios mais célebres do mundo, os “Nobel”. Só situações extremas impediram (e por pouco tempo) essa rotina. Até 1968 eram cinco. A partir de 1969 foi acrescentado outro, o da Economia; criado em memória de Alfred Nobel, pelo banco central da Suécia, por ocasião do seu terceiro centenário.

Ora, este “Nobel” adventício para que serve? Ou, melhor, para que tem servido?

O que Avner Offer e Gabriel Söderberg procuraram explicar em The Nobel Factor, o livro que publicaram em 2015 sobre este “Nobel” suplementar, é precisamente o seu impacto na afirmação de um conjunto de doutrinas económicas que sobrevalorizaram a auto-regulação dos mercados.

Hoje, ninguém pode dizer que não deveria ter havido limites a impor. Outras doutrinas, as que o novo “Nobel” não apreciou, poderiam ter evitado muitos problemas resultantes da desmesura económica e financeira que precedeu o “Setembro-Negro” do ano de 2008, e a subsequente crise financeira. Aquela que, então, a monarca britânica não entendia como pudera escapar à previsão dos economistas.

Na verdade, a Economia (Política) – um discurso sistemático desde Smith – recorreu cada vez mais a uma linguagem formal e a métodos quantitativos que a “aproximavam” das ciências naturais. Continuou, apesar disso, a ser uma “ciência moral”. Daí a sua presença entre os “Nobel” nunca ter sido completamente pacífica. Mal-grado a contestação existente nos meios ligados aos “Nobel”, o prémio acabou por servir para preencher o “vazio” que, após a Segunda Grande Crise do Pensamento Económico, como um dia lhe chamou Joan Robinson, se instalou nos meios académicos. Isto é, depois dos anos de 1970.

Offer e Söderberg esclareceram como uma ideia potente foi difundida: uma harmonização “natural” de interesses é possível e favorecida se se removerem os entraves à acção dos agentes que procuram, nos mercados, a maximização da sua “satisfação”. Seja lá o que isso signifique numa linguagem compreensível por todos. Isto é, como maximização não apenas da riqueza colectiva, mas das fortunas pessoais; e sem curar de meios que só podem parecer-se com peias.

Desenfreadamente, façamos votos para que o tempo – já que “atrás do tempo, tempo vem” – nos ensine, por fim, alguma coisa.

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