O último texto da década

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O nosso tempo foi pródigo em descobertas, avanços tecnológicos, progressos inequívocos da ciência. Tudo parecia levar a crer, em algum momento de um passado recente, que a humanidade caminharia altiva e sem sobressaltos na contramão do obscurantismo. Bom, este é o meu último texto da primeira década do terceiro milênio da era moderna e, no momento que escrevo, ao menos 22% dos brasileiros (e 37% dos portugueses) não acreditam na vacina.

A ideia de que seu DNA será alterado por microchips comunistas escamoteados em vacinas chinesas é uma crença empolgante. Assustadora sim, mas empolgante. Vai ao encontro das angústias que permeiam uma existência cada vez mais insegura. E a informação já vem mastigadinha, pronta para engolir, por que não? O pensamento racional requer a encadeação mais ou menos complexa de dados objetivos, e que nem sempre nos levam a conclusões excitantes, sejam elas animadoras ou aterrorizantes. A razão cotidiana, via de regra, é trivial.

O desafio de alimentar seus próprios questionamentos com informações objetivas para enfim se alcançar conclusões quase sempre prosaicas não é algo muito estimulante. O próprio ato de depurar quais informações devem ser levadas em conta em meio a um oceano de desinformações já requer um exercício crítico prévio, paradoxalmente mais árduo hoje do que no passado. Discos voadores sempre fizeram mais sucesso que balões meteorológicos, um instantâneo sopro criador reconforta mais do que uma evolução que se arrasta por milênios. Em momentos de incertezas, o absurdo pode ser mais crível do que o verossímil.

Por muito tempo a exploração do extraordinário implausível ficou a cargo das religiões e das superstições. E parece ser um contrassenso que justo quando quase todo conhecimento humano acumulado está a um clique de distância observamos o reavivamento do fundamentalismo religioso e do hábito de se recorrer às pseudociências. Mas embora isso ainda seja uma questão a ser resolvida, a novidade é a descoberta por alguns espectros políticos do poder eleitoral que o pensamento mágico pode ter.

Já vimos dúvidas estrategicamente fabricadas e teorias da conspiração mascaradas como opiniões divergentes serem usadas para causar confusão e abrir fendas em consensos. Foi assim com o lobby do tabaco e dos combustíveis fósseis. Nesses casos, a agenda econômica e os interesses de grandes corporações eram a mola propulsora, o sentido sempre foi gerar dúvidas para salvaguardar os lucros, método simples e pragmático. Mas agora as motivações são mais nebulosas, é difícil compreender o cálculo político de governantes obstinados em condenar parte de seu próprio povo à morte.

Há inúmeras razões para alguém não querer tomar a vacina, seja por acreditarem que a doença é uma fraude, seja por acreditarem que ela seja um castigo divino que não nos compete deter, ou seja por medo de serem controlados remotamente pelo Bill Gates e sua trupe de globalistas. Essas pessoas existem, são parte considerável do eleitorado, e precisam ser constantemente alimentadas com fantasias. Essa é a lógica e vem funcionando. Decisões políticas que afetam as nossas vidas continuam a ser tomadas por representantes eleitos com votos desprovidos de razão em um círculo vicioso no qual a promoção de devaneios, reais ou demagógicos, tornou-se capital eleitoral fundamental.

A ilusão de que a caminhada da humanidade seguiria sem sobressaltos na contramão do obscurantismo não resistiu ao primeiro teste de esforço. Ingenuidade foi pensar diferente. Destruir sempre foi mais simples e rápido que construir. O melhor que se pode fazer agora é tentar reerguer os diques que represavam a irracionalidade em um nível seguro, limpar os estragos da enxurrada e cuidar para que não mais se rompa.

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