«Obrigado»

Já não fez sentido apreciar o lógico ou presumível, mas se o que era suposto é agora extraordinário… É bom que, ainda assim, aconteça.

Brett Jordan (Unsplash)

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O meu crescimento foi feito de profundas regras e muitos princípios. Em retrospetiva, não considero que algo tenha acontecido por imposição ou grandes planos e estratégias. Por isso, alguns bons exemplos de educação foram perdidos; outros, mesmo, negados; mas de tudo quanto a minha infância e adolescência me permitiu percecionar, adotei escrupulosamente como ética o que quis aceitar como podendo identificar-me e transformar-me de criança, adolescente, filha, neta, sobrinha ou afilhada no que hoje sou. Eu, ainda nessas variantes, mas em nome próprio.

Racionalmente, o processo é natural: estas palavras resumem-se numa só – cresci. Mas só tanto quanto e como quis. Por isso é que a prática não se vive assim tão organicamente… Mesmo que nunca tenhamos cometido um pequeno delito – um exemplo extremo -, a verdade é que há sempre rebeldia em tomarmos as rédeas daquilo que somos. É que, por mais próximos que resultemos do que se perspetivou para nós, deixámos de ser dos outros. Alguém experiencia uma perda, o que custa sempre; e o novo indivíduo é só. Não sozinho ou abandonado, idealmente. Apenas único.


Uma pessoa nunca está preparada para o ser. Quando o quer ou assim tem que se tornar, a realidade é gelada. Mais ainda porque irrompe após um delicioso, apesar de curto, momento extremamente aquecido pela adrenalina de nos tornarmos autónomos. Oh finalmente poder viver em pleno o direito de discordar…

Só que, como disse, o indivíduo é “só” único. Não é sozinho. E confronta-se agora com muitos mais indivíduos igualmente fervorosos por dizer “não”. Estes bem menos recetivos às discordâncias dos “outros únicos”, cujas famílias encolhem os ombros e anuem: “já tem mais de 18 anos”.

Enfim, mais uma vez, um processo. São novas regras e novos princípios, igualmente a adotar ou rejeitar. Agora aprendidos com os pares. E, mais uma vez, não assim tão natural na prática…

Se for adulta, autónoma e/ou independente, hei de saber discordar de um familiar ou um amigo continuando a respeitá-lo. Parte-se até, do pressuposto, que haverá nestes outros recetividade para aceitar uma decisão, até por vezes sem questionar. Inclusivamente, considera-se que a disparidade de pensamentos ou decisões não afeta este tipo de relação… Mas é isso, um pressuposto. E na verdade? Sim ou talvez não.

E fora deste contexto, poder-se-á argumentar que os outros indivíduos, com relações entre si menos pessoais, serão igualmente adultos, autónomos e/ou independentes. Por isso, tão capazes de discordar com bom senso e responsabilidade, continuando a colaborar de que forma for ou optando por novos caminhos. É mais um pressuposto. E a realidade?


Não.

Porque hoje, para os indivíduos, não há tempo de comunhão. Situações de convivência bem mais simples do que discordar podem tornar-se momentos de relação complexos porque por mais adultos ou mais pessoas que sejamos todos, queremos ser sempre cada um e, mais, o que fomos pelos outros, antes de sermos só nós, ainda vive e a respetiva existência poder ter ou não bases comuns com os demais indivíduos. As regras e os princípios são o primeiro degrau que todos subimos… Mas, eventualmente, percebe-se que há várias escadas e só por sorte nos encontramos na mesma.


Tudo isto, para mim, já foi só uma grande **rda. Hoje, sem asneiras, cumprimento, cordialmente, os indivíduos das outras escadas. E celebro, intensamente, aqueles com quem me cruzo na minha subida.


Por exemplo, há uns dias, terminei um trabalho e enviei-o. Tratava-se de um projeto com caráter recorrente, que atualizo todos os meses e que faz inteiramente parte das funções inerentes ao meu trabalho.

Mas, pela primeira vez, recebi este e-mail, em resposta: «Obrigado, Patrícia».

Algumas pessoas disseram: «A sério?».

Por sua vez, a minha família comentou: «Mas nunca te disseram isso?».


Não respondi às questões. Apenas, como digo, celebrei.

Tenho aquele e-mail guardado na “Caixa de Entrada” e no coração.

E sou mais feliz, pessoal e profissionalmente.

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