Os cadernos esquecidos

Os cadernos Esquecidos

Os cadernos esquecidos

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Os rastos do nosso eu, num passado ora próximo, ora longínquo, são pistas preciosas porque nos revelam um confronto com alguém que conhecemos intimamente mas que, pelo sopro do tempo, já não existe. Gosto em particular dos vestígios que estão esquecidos nos cadernos. Eu diria até emancipados de mim- ou do outrora eu -, que descansam, sossegadamente, ora nas estantes de minha casa, ora nas do meu quarto de casa dos meus pais. 

Simultaneamente, sobretudo nos últimos nove anos, posso dizer que sou a disciplina em pessoa. Os meus cadernos estão todos, irrepreensível e imaculadamente, catalogados por ano, por assunto e por país. Volto a eles para caçar ideias hibernadas. 

Estou profundamente convicta que deve existir um termo para quem é amante de cadernos e da visceral necessidade de os galgar de caligrafia ávida de desbravar a alvura das laudas. “Cadernófila”. Se a palavra não existe, registe-se o neologismo e faça-se uma celebração em nome da neófita. [Ia escrever “sebentófila”, porque as sebentas ainda me fizeram companhia com frequência, a avaliar pelos despojos encontrados, mas de facto tenho mais o perfil de cadernos de capa rija, não vá o tempo destruir a arquitetura que sustenta esta primeiríssima casa de papel]. 

Os rastos de cadernos catalogados são extraordinários. Mas mais notáveis são, caros leitores, caras leitoras, os cadernos naufragados nas ilhas perdidos das estantes. É o confronto com tesouros genuínos da anarquia do eu! São mnemónicas do que fomos, de como pensamos, quais eram as nossas preocupações, como queríamos projetar o futuro e até onde estivemos e com quem estivemos. Creio que a premência do registo, tem a ver com a urgência em existir. 

Na última semana, mesmo sem querer, acabei por ser caçada na inevitável teia dos cadernos abandonados na morada parental, que clamavam por atenção, amiudadamente. E, rendida ao feitiço, ia vendo esses vestígios em momentos de pausa da concentração doutoral. Um júbilo pueril, de quem desvela, às escondidas, segredos exclusivos, descobrindo a vida e as emoções. E tal qual um livro que nos agarra do início ao fim, fui folheando, embora aleatoriamente, todos aqueles cadernos tão diferentes (vermelho, azul, cor-de-rosa, laranja; capa velha, capa dura; A5, A3, A2; com argolas, sem argolas….).

E de tempos tão distantes. 

Encontrei o meu diário com 9 anos com preocupações saudavelmente infantis, mas denunciando algum drama amoroso e até precoce. Garimpei alguns cadernos do final dos anos 90, do século XX, com ênfase profícua para os anos 2000. Creio ser um acontecimento histórico constatar que tenho cadernos do século passado e da minha autoria! Quem era essa pessoa?

Explorava e descobria um autêntico museu que me remetia, de imediato, para o momento daquele registo preciso. Há cadernos de poemas nunca transcritos digitalmente, cadernos de tarefas, cadernos de contactos com números de telefone de pessoas que já não sei quem são; cadernos com colagens de bilhetes antigos de elétrico, de autocarro, de concertos, de peças de teatro; cadernos com fotografias; cadernos com postais nunca enviados, com cartas de amor recebidas; listas de tarefas de trabalhos; cartões de visita colados; diários de viagem; blocos de notas de trabalhos jornalísticos; etc.

Contei cerca de 30 desses livros do eu.

Na impossibilidade de tudo reproduzir – e de tudo revelar, porque há segredos de nós que devem permanecer ocultos-, eis alguma da contabilidade aleatória do saque:

  • Entrada de diário sobre o primeiro beijo, aparentemente à chuva (data que não pode ser revelada);
  • Viagem a Nova Iorque [18 de setembro, 2011]: panfleto da 42nd Annual African American Day Parade (“Largest Black Parade in America”): Power through unity  (estava com a amiga Ana Sofia);
  • O início de um poema [26 de abril, 2006]: “Se entre a poeira do tempo entrarem as horas vagas – oblíquas/ esquizofrénicas de surtos dourados/ quem sabe amenizados pelo sortilégio escondido” (enviado por telemóvel creio que para o César)
  • Bilhete de cinema Cine Livraria Cultura, em São Paulo, Brasil, [6 de novembro, 2011], para o filme documental “José e Pilar” de Miguel Gonçalves Mendes, quando descobri que aparecia nesse documentário a fazer uma pergunta a Saramago; 
  • Três cadernos detalhados sobre a minha viagem de 4 meses pela Amazónia brasileira [agosto a dezembro, 2009]: um tesouro de informação que achava perdida (subsídios para um livro que ainda não terminei);
  • O cartão de visita da escritora iraniana Azar Nafisi, que ela me entregou no dia em que a entrevistei [algures em julho, 2006], no Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil ;
  • Tadeu”, nome de um pai de santo e mapa astral numa tal de Rua Pelotas, em Vila Mariana, em São Paulo, seguido de um papel com as palavras: “vela branca de 7 dias; vela azul claro de 7 dias;1 maço de velas brancas; 1 maço de flores brancos (Não tenho a mais ínfima ideia do que isto é e não tem data);
  • Bilhete para o concerto de Brad Mehldau, no Auditório ibirapuera, em são paulo [4 de junho, 2006], do dia em que conheci o meu amigo Alexandre;
  • Lista de compras obnóxia (data incerta): soja em lata, óleo de milho, vinho, tenda, lanterna [algures num verão de 2007], que suspeito ser das férias de campismo pela costa alentejana;
  •  Um postal da amiga Guida que então morava em Londres [16 de dezembro, 2007]: “Que estes livros te tragam tão bons momentos como me trouxeram a mim. É bom, além de tudo o resto, estarmos unidas pelo amor às palavras!”.
  • Livro da descrição de sonhos sonhados em busca do seu significado, destaque para este [13 de setembro, 2007]: “um caderno em branco, uma janela aberta, o caderno desfaz-se, as páginas voam e transformam-se em nuvens”. 

No desconhecimento sobre o que fazer com tantas páginas e descobertas, resignei-me a deixá-los repousar de onde os extraí. Há coisas que não devem sair do lugar de onde pertencem. Até porque um caderno em branco é sempre a desculpa perfeita para recomeçar.

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