Os dotes do fidalgote

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Enfunado de galhardia, porte equestre obediente aos requisitos altaneiros, troque-trogote, o fidalgote atravessava a aldeia montado em lustroso cavalo murzelo – Passo, trote, galope. E ensaia colocação em Piafet. Bravo! Selim com o brasão da casa, arreios luzindo ao sol e crinas escovadas já geravam admiranço, quanto mais o garbo do aristocrata.

Compunha o alfenim camisinha branca, casaco de veludo acintado, boné de camurça, lencinho avermelhado ao pescoço – Ai que lindo! À volta do dorso do equídeo, bem ensebadas pelo fiel cavalariço, botas de cano alto compradas há um mês em Alcanices.

As mulheres que treparam aos negrilhos da beira da estrada vindimando folhagem para a vianda dos porcos admiraram de cima a estampa – ou seria estrampa? A corar roupa no terreiro, outras regalaram-se com o cavaleiro andante de alegre figura, rostozinho lembrando o do sereníssimo el-rei D. Sebastião, o “Encoberto”. O rei tão casto como os cavaleiros do Santo Graal, de seu natural avessos a damas de companhia. Já os homens faziam pausa no ferrar da mula lazarenta ou égua rabona e, palafreneiros pelas mesúrias, escorraçaram animal pulgueiro para se descobrirem perante o donzel.

– Olá, menino!

– Deus acompanhe vossa senhoria.

Empertigado, a título de afirmação não resistiu o nobre ao condão do exibicionismo, assim a modos de comentador semanal da televisão, que para tal havia empinado o livro da ensinança de bem cavalgar a toda a sela de D. Duarte. Ao pressentir o ciciar das apreciações, deu-lhe para evocar façanhas da Picaria Real de D. João V, e esporeou o animal:

– Iá! Iá!

Iá, vitorioso!

Aos relinchos, a espumejar, narinas frementes, pescoço estendido, o corcel disparou à desfilada.

– Chô! Chô!

– Arrume-lhe, menino, que lhe deu o fanico.

– Ô-Ô!

– Picada de mosca – aventam uns.

– Está é com o cio – entremetem outros.

– Ai, ai, qu´ainda se mata! – lamuria velhota desdentada.

– Às tantas, os Forquilhas enfiaram-lhe cardos pelo cu acima. Capazes disso são eles, raio de mulas velhas – conjecturam os restantes olheiros.

Ah, mas não.

Não e não, preclaros leitores. Caso para abrir capítulo onde se narram as destemidas façanhas do engenhoso, galante e mui dadivoso cavaleiro. Escutai então:

O fidalgote imaginou-se encatrafiado numa armadura, inteiriço e bilioso. Aferra argênteo escudo o braço esquerdo; o direito, armado de lança, arremete contra as hordas inimigas que bramiam afiadas alfanges. Onde sabei que tomando o exemplo de bravura de tôdolos os antepassados, partiu a sofrear o puro-sangue de aterrorizadora testeira e, sob o soar das trompas, voa para o terçar armas que se anuncia encarniçado. Como em posse de boa-fé se atirou ao inimigo com ganas tais que a muitos os deixou exangues, a implorar perdão ou já privados de uma centelha de vida. Mais referem as crónicas que afiançou ele em esta guisa:

– Outrossim, eu, de sua graça Ju-Ju, mui nobre por avoenga linhagem e não menos histórica conduta hei por bem vos ordenar:

Afocinhemos esses cães raivosos que trazem à santa terra a peçonha da sua crença. Rechacemos a imunda escumalha que ousa atentar contra a pureza da nossa clemente e afadigosa gente.

E era ainda saborosa cousa de ouvir:

– Trespassemos o tronco de tão vil raça, leguemos a lobos, javalis e inamansáveis ursos-pardos as vísceras desta matilha.

Por Cristo, Nosso Senhor!

Pelo leitão da Bairrada!

Pelas ganas de Inácio Bento depois de os coçar!

No meio da poeirada erguida aos céus, dos gritos guerreiros que ecoam e provocam o estremecer das montanhas e silvados, o entrechocar de lanças e cimitarras que vazam vistas e trucidam corpos à rédea solta.

Tomados de pânico, os infiéis bateriam em desenfreada quanto acobardada retirada. Acabaram acoitados (coitados), no vasto couval a cargo de Inácio Bento, serviçal da casa grande. Com madureza de siso vai tratando das couves, ainda que tais verdes lhe fiquem do pé para a mão quando se lhe desarranjam os intestinos e o deixam em desvairados cuidados.

O que é da terra a ela toma, adubando-a. 

Ora deveis ainda de cuidar que uma vez coberto de tenças e de escoriações, Ju-Ju é agraciado pelo conselho geral dos anciãos da ordem dos títulos nobiliárquicos. E dado empregar-se nos estremados serviços a Portugal através de considerável despesa, sucedeu que Sua Alteza Fidelíssima, a quem se beija a nívea mão, o cumularia com abundância de mercês: granjas, ledos olivedos e “gado do vento”.

Formosas e ansiosas castelãs – a parte romântica do imaginado – não se atardaram em acenar-lhe das ameias, mais meladas do que vissem ao vivo o José Cid, também ele viciado em trotes e galopes. 

Como tem acontecido em tais usanças, cedo chegaram jograis que de bom grado espalharam memorável ledice. Nesse comenos, romperam bailas e trebelhos sob o adejar de estandartes e pendões. Sem tardanças se empilharam talhas e canadas de vinho. Toda a sorte de vitualhas se apresentaram suculentas e em regalada abundância para o grandioso banquete a que concorreram nobres e clero, muitos deles afamados nos torneios do arroto.

Que o mundo é uma bola e embala sonhos cor-de-rosa, bem o entendeu Ju-Ju, desditoso cavaleiro desta era. Imaginação à parte, tanto bastou isto, ora atentai:

Traído pelo desembestado galopar, abraçado ao peludo cachaço do pégaso, troque-trogote tem-te não caias, o facto é que o fidalgote solarengo foi cuspido – tomai sentido: de onde a onde, calha aos fidalgotes de nome mais comprido que o intestino grosso também serem cuspidos. E pumba! -malhou o coiro na calçada da merdeira sobrevoada por esquadrilhas de varejeiras assaz zumbentes.

Ladram os canídeos.

Acorre a chusma.

Do que sucedeu que Inácio Bento, penteado à escudeiro, lhe daria para pronunciar o escutado aos antepassados e escrito pelo punho do original Gil Vicente, o dramaturgo mestre de farsas, comédias e autos: Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube.

Pandorcas dadas a alcoviteirices clamam pela protecção da Divina Providência, arrepelam os cabelos num ápice ouriçados. Desfez-se em riso o surdo-mudo de Cedovim com a marca do casco de uma burrinha – arre burra – no meio das fuças, reacção ao assédio do violador de animais domésticos.

Sempre muito acudideira, Ti Bichança, mãos juntas em acto de repentina penitência, ou não fosse misseira de nomeada. A velha desgrudou-se da netinha de rabo-de-cavalo, abeirou-se de Ju-Ju, do seu rostozinho tomado de pânico, da sua poupinha desfeiteada, da sua fatiota manchada de cocó e pôs-se a lamuriar com besuntada considerância:

– Ai menino, menino da minha alma. Até podia rachar o cuzinho!

O regedor não foi chamado para o caso. Comissões de toponímia, também não. Altas individualidades primaram pela ausência, posto ainda não se ter inventado a selfie. Mas o povo, a partir daquela tarde houve por bem ordenar que a rua à procura de chamadoiro passaria a chamar-se… Rua do Quebra-Cu.

Iá, vitorioso!

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