Os pobres vão à praia

Gsé Silva (Wikipedia)

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O cronômetro é acionado quando se liga o chuveiro. Cinco minutos, nada além disso, essa é a recomendação. Cinco minutos é tempo suficiente para um banho funcional, lava-se o que é preciso e não se perde tempo com prazeres egoístas. Lave-te presto e volte a produzir. Ah, sim, não use plástico, eles também destroem o planeta. Não há dúvidas quanto a isso, é verdade. Mas pode ser aberta uma exceção caso se pague pela sacolinha de plástico no mercado. Afinal, como iríamos carregar todos aqueles produtos embalados também em plástico? Mas seja responsável, não destrua o planeta e pague pelas sacolinhas. Faça sua parte!

Recentemente, no Brasil, houve uma discussão acalorada em um programa do maior canal de notícias do país. Ela se deu entre dos comentaristas da emissora: um sociólogo, por quem não nutro simpatias, e um analista político, zeloso porta-voz daqueles que pagam seu salário. A discussão, embora um pouco acima do tom, foi um produto da divergência de ideias. Nada mais natural não fosse pelo fato de veículos de jornalismo, ao menos por aqui, não serem lugar para pluralismo. As mensagens escolhidas devem ser passadas com o menor ruído possível, mas essa é conversa para outra hora.

O curto embate, prontamente calado pela âncora, não versava sobre o meio-ambiente, mas sobre a responsabilidade daqueles que, em meio à pandemia, optaram por passar o recesso de fim de ano na praia. Não estava propriamente em questão as festas de quatro dias promovidas por astros do futebol inconsequentes ou eventos da high society em resorts na Bahia. Tratou-se de trabalhadores invisíveis que se aglomeram cotidianamente nas idas e vindas da labuta e que não viram razões para não se aglomerarem num raro momento de lazer. Decerto, essa não é uma prática recomendável, e nenhum dos debatedores se mostrou favorável a ela. Mas o que causou estranhamento, aparte pela rara fissura na programação normal, foi o sociólogo ousar afirmar que compreendia o comportamento desleixado da massa ignara.


Peter Bond (Unsplash)

Quero deixar claro que esta não é uma defesa do cada um por si ou da supremacia do indivíduo sobre o coletivo, muito pelo contrário. Trata-se de não cometer a injustiça de responsabilizar o cidadão comum pelos problemas estruturais forjados no topo da pirâmide. Se ninguém se importa com o transporte público superlotado ou com a garantia de um subsídio digno para que se cumpra o isolamento, por que tanta comoção com as férias do trabalhador? Já que virou hábito responsabilizar o pobre pela sua pobreza, imagina-se razoável repassar o fardo da solução das mazelas do mundo àqueles que já estão ocupados com a tarefa de se manter vivo.

O que isso tem a ver com banhos de cinco minutos ou sacolinhas no mercado? A produção de um quilo de plástico gasta mais água que o banho de uma família inteira. Mas não são as margens de lucro das empresas que vendem produtos de plástico embalados em mais plástico que estão sendo vigiadas, são as torneiras abertas dos Josés e das Marias. Também não se costuma apontar o dedo para a estrutura social perversa que obriga a esmagadora maioria a enfrentar o vírus sem escudos para garantir a própria sobrevivência, ao passo que poucos felizardos, entre os quais me incluo, podem se dar ao luxo de ver a desgraça pela televisão.

O lema “faça sua parte”, embora sugira ação individual e altruísta, só reteria algum sentido na forma de um movimento coletivo. Mas este chamado jamais encontrou contrapartida nos verdadeiros responsáveis pela dilapidação do planeta, seja pelo vírus ou pelo plástico. Refrear o individualismo e combater o consumismo como estilo de vida desejável são ações prementes, mas a distopia para a qual caminhamos, que fique claro, não será causada por aquela ecobag que deixamos de comprar.

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