Óscar Romão em Valquírias: Festina lente sicut aqua (1)

Benoit Beaumatin (Unsplash)

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A primeira sensação que Óscar Romão teve quando rumou à quinta perdida foi a impiedosa queimadura do pó seco na boca e o desejo ardente de água fresca.

Percorria um caminho de cabras de terra vermelha, ferrosa, muito embora não tivesse avistado sinais de mamíferos em quilómetros, pelo menos dos grandes, já que um pequeno animal com 20 cm se tinha atravessado há dois minutos à frente do jeep, sobressaltado com a intrusão.

Poderia ter sido um coelho ou um rato, não sabia. Esticou a cabeça, recuou e finalmente tentou a sorte num gesto suicida.

O jeep era grande e levantava bolas de pó aos solavancos, que de longe pareciam pequenos cogumelos nucleares em travessa fila indiana; seriam plantados por crianças indigentes que andavam a aprender os segredos dos átomos; o efeito era ampliado pela luz dos faróis, que incendiava as partículas de hematita.

O lagarto gigante, que também viu, provavelmente já estava habituado ao pó rasteiro e não se incomodou muito.

Os pequenos taludes das bermas tinham sido roídos, espalhando uma estranha mistura de pedras, raízes, folhas e figos podres. Devia ser um porco selvagem, que nunca avistou, provavelmente por fazer o seu trabalho à noite.

Parou e colheu uns tantos figos da árvore, gordos e melosos. Fez mal, pois a sede recrudesceu, depois de ter aproveitado a folga do coelho para se por à fresca, debaixo de carvalhos e azinheiras.

Esticou automaticamente o braço para o depurador a carvão vegetal, que trazia sempre consigo e que lhe permitia beber qualquer água, de preferência a de riachos ou fontes. Mas estava vazio. Só lhe restava uma réstia de água do radiador na mala do jeep, quente e de origem incerta.

E os poucos riachos que encontrou, denunciados por novelos sinuosos de fetos acastanhados, estavam secos. Alguém lhe disse que a única fonte natural das redondezas também tinha secado, há precisamente dois meses.

Não há memória que tal tenha acontecido nos últimos 40 anos.

Se fosse necessário pararia de novo e colheria uma generosa quantidade de catos carnudos, que esmagaria e depuraria. Mas seria um gesto extremo. E talvez um exótico produto da sua imaginação.

Encontraria alguém entretanto, estava certo.

Passaram 84 minutos, bem espremidos pela sua ampulheta de punho a energia solar, e o carreiro alargou-se e aplanou-se, liberto de pedras e madeiros de pontas afiadas. Tinha pedido ao seu cérebro disciplina militar, e ele aquiescera, libertando-o saudavelmente de catos gordos, fetos secos, fontes furadas e radiadores sequiosos.

Pensou para si que tinha reagido como sempre, mais uma vez. Em miúdo tinha passado por provações duras.

Uma interminável estadia dentro do mar, enrodilhado por uma onda do tamanho do farol, que já tinha quebrado há uns bons 3 minutos; a névoa do hospital, depois de ter batido com a cabeça num pilar do recreio da escola, quando girava a 100 à hora; a agonia da espera da sucção perversa de um viscoso pântano de lama, que o obrigou a fingir de morto durante uns longos 20 minutos, agarrado a cabelos, até ter sido salvo pelo pastor de ovelhas com ouvidos de tísico; a morte do seu melhor amigo, ao seu lado na sala de aula, vítima de um tenebroso ataque epilético, durante um interminável interrogatório de matemática, desses que se faziam antes, ad libitum, porque sim. E poderia continuar.

Era duro porque tinha sido forjado assim, coriáceo, em sucessivas camadas de vida.

Não reprovava os pais, que lhe tinham dado rédea larga. Provavelmente tinham-no salvo das traições assépticas, físicas e mentais, que hoje matam mais do que se pensa, de putos a velhos.

Se lhe perguntassem se tinha um lema de vida, provavelmente diria dura sicut aqua. Era duro mas sensível, ou assim pensava. E não torcia, ou pelo menos tentava, como a água.

Também poderia dizer festina lente. Gostava de chegar às coisas de forma lenta e ponderada, muito embora sem queimar tempo desnecessariamente.

Festina lente sicut aqua…

Viam-se agora peugadas de gente e alguns trilhos de carros comuns.

Uns metros mais e avistou uma casa com um avançado de colmo, ponteado de pequenas mesas e bancos. Era provavelmente a tasca ou pequeno restaurante de que Sílvia tinha falado.

Era afinal a sua árvore do Ténéré. Significava vida. O que para ele, neste momento, era apenas água e um pouco de queijo de cabra, de preferência bem curado.

(Parecia ser assim um pouco por todo o lado, segredou-lhe o seu irmão gémeo, o que tinha lá dentro. Encontravam-se pequenos sítios para comer e beber quando menos se esperava. A secura e a penúria poderiam apertar, mas havia sempre um copo de vinho, um pedaço de chouriço e uma mão cheia de azeitonas. E, por detrás, uma alma carinhosa, embora frequentemente parca em palavras. Os minhotos poderiam fazer aqui uma cura de jejum.)

Óscar despiu a camisa molhada e deixou-a ali mesmo, em cima do capot. E trocou as botas por sandálias de couro.

Com a brisa que já soprava mansamente ao fim da tarde sentiu-se fresco e leve, apesar da sede que gemia em segundo plano, e foi invadido por uma sublime onda de exaltação, um sopro de bem-estar mental, a divina sensação de que sim, que sim.

Olhou-se ao retrovisor, um hábito que vinha de longe.  Era alto e magro, mas rijo. Os cabelos eram negros e encaracolados, como pequenas molas misturadas num saco.

Confirmou que já tinha umas brancas. Sílvia enterrava as mãos no saco de molas e fazia-as tilintar. Chamava-lhe o seu apolo. Devia estar enganada, porque era mais complexo do que ela pensava.

Trinta e quatro anos. Seria?

«Posso pôr-lhe a mesa? A sua mulher ligou há pouco a dizer que chegaria em qualquer momento».

Não era a sua mulher, mas não importava. Ele devia ter imaginado que era, pois a Sílvia jamais diria que era.

Se lhe dissessem que era o seu amante, isso sim. O seu apolo, também. Mas a sua mulher, para Sílvia, ficava reservada aos casais oficiais. Os pais dela, por exemplo, que tinham um contrato de vida.

Entre eles o contrato não era de vida. Gostavam um do outro, e era tudo.

Sentou-se e tragou dois jarros de água. Mordiscou o queijo.

Sentiu-se estranhamente bem, como se tivesse escrito um livro. Então era aquele o sítio?

«Confesso que não sei onde estou. O GPS não funciona nestes sítios e foi um milagre ter chegado aqui. Como se chama este sítio?»

«Valquírias, senhor». Eram poucas as casas, e dispersas, mas tinham um nome.

Valquírias parecia o nome certo. Será que era ali que iam cair os mortos pela dignidade das terras à volta? Pareciam poucos. Seria aquilo Valhalla? Talvez fossem fantasmas…

Seria ele, Óscar, um deles?

Beliscou-se discretamente e sentiu-se real. Mas olhou à volta e viu umas tantas cabras que lhe pareceram bodes, lá longe. Já o teto de colmo não estava revestido de escudos, o que o deixou mais tranquilo.

Bom, se fosse Valhalla a batalha final poderia ser também a deles, Óscar e Sílvia. Valquírias era um bonito nome, um nome mágico mas preciso, quase matemático.

«E ela disse quando chegava?», perguntou enquanto mordiscava uma azeitona gorda e molhava os lábios num branco que lhe soube a água do mar gelada, depurada e borbulhada com o gás do granito. 

«Disse que chegava pouco depois de o guerreiro chegar. Pensei que fosse o senhor, por graça.»

Era Sílvia no seu melhor. Sempre a brincar com as pessoas, que nem sempre entendiam o que dizia.

Por vezes sentiam-se mesmo um pouco humilhadas, o que não parecia ser o caso. O homem pigarreou e afastou-se.

O dia caía e já se viam as sombras do bosque, ao longe. A lua desenhava-se em meia concha, perdida entre centenas de pontos brilhantes, ainda ténues, mas definitivos.

Um azul forte projetava-se na paisagem, como se saísse em golfadas da boca de um artista, extasiada com o infinito.

Uma gralha piou, ou ralhou, o que parecia deslocado e sem sentido. Mas sentiu vontade de pegar nela e de a colocar ao ombro. Aceitaria?

Sílvia. Conheceu-a melhor numa festa quando era estudante de doutoramento. Fazia design gráfico e ela medicina natural.

O ambiente era de estrangeiros e teve de lutar com um estudante mexicano, de bigode e barbas cerradas, que queria ficar com ela. Preparava-se para rodopiar com ela, música atrás de música.

Segredava-lhe coisas aos ouvidos. Pareciam-lhe propostas vagas, que ela despedia com um sorriso tímido.

Sílvia não era tímida, e isso funcionou como sinal de alarme.

Uma vez olhou para ele prolongadamente e com ar implorativo, pareceu-lhe. Não se conheciam bem, mas sentiu. Foi uma espécie de corrente de ar entre duas frinchas pequenas num pavilhão de futsal.

Aproveitou uma troca de música e que o mexicano fosse encher o gin para lhe pegar num braço e a fazer atravessar metade da sala. Ela deixou-se navegar.

Felizmente a música reapareceu e puderam dançar. Olhou pelo canto do olho e viu o mexicano perdido, a fazer o raio X à sala.

Pareceu-lhe que verteu metade do gin sobre o casaco de um amigo, que dançava ao lado. Silvia, cariño, ¿dónde estás?

Esse foi o começo. O fim era hoje.

Com eles o fim acontecia todos os dias, o que era o mesmo que dizer que a vida continuava. Não tinham planos pessoais, só uma ideia vaga. O esboço de um projeto.

Pediu um pouco mais de pão, queijo e vinho branco enquanto esperava.

O azul passou de cobalto a prússia em minutos.

Uma árvore sem folhas recortava-se agora claramente no céu, como se tivesse sido torturada e esbracejasse. A lua estava de braço dado e parecia um confete prateado e brilhante, atirado por uma criança.

Os bodes, ténues manchas com patas esbatidas, pareciam afastar-se, talvez para o curral.

O homem aproximou-se e pousou o queijo.

«Eu e a minha mulher fomos os primeiros em Valquírias». Óscar estremeceu, pois estava bem longe, sentado num galho da árvore.

«Não havia ninguém na altura, éramos só nós».

Contou-lhe que corria uma lenda na região, segundo a qual teria havido uma enorme batalha há umas centenas de anos, matando milhares.

Olhou perplexo para ele e interrogou-o duramente com os olhos. Teriam sido os primeiros a chegar a Valhalla?

Ou seriam eles mesmos as valquírias, o homem e a mulher? Não era indiferente. Se assim fosse, ele e Sílvia poderiam ser os guerreiros falidos de uma batalha perdida.

Não tinham planos pessoais, mas sim uma ideia, um projeto. Valhalla não fazia parte dele.

«Há quanto tempo chegou?», murmurou.

«Não posso precisar, senhor, aqui o tempo é como se não existisse». E virou o frasco da pimenta ao contrário, como se fosse uma ampulheta.

«Depois começaram a aparecer outros. Nós começámos logo a montar a tasca, mas eles vagueavam por aí e nunca cheguei a perceber bem o que faziam.»

«Ao princípio eu e a minha mulher pensámos que podiam ser mendigos ou mesmo fantasmas. Depois habituámo-nos».

O olhar duro passou a perplexo, mas continuou a fitá-lo.

«Sim, senhor, confesso que tive uma impressão estranha quando chegou. Pensei que era mais um».

Óscar olhou alternadamente para as calças, para a árvore torturada, para o umbigo e para a lua.

Tentou ver o seu reflexo no espelho da lua, mas não conseguiu. Beliscou o umbigo e descalçou as sandálias. O chão estava morno debaixo dos pés.

«Mas sei agora que não é. Os outros têm um olhar ferido e alguns parecem que choram. O seu tem uma luz diferente».

Precisava de tempo e inventou mais uma caneca de vinho. «É para já», trauteou.

Uma bola de pó difuso rolava pelo caminho lá ao longe. Ainda não chegavam sons, mas o luar era suficientemente intenso para perceber.

Devia ser Sílvia no seu velho Ford. Quando ouvisse o primeiro som contaria os segundos e multiplicaria por 0,365, para obter a distância em quilómetros.

Não, não era definitivamente um guerreiro de Valhalla. Esses jamais fariam os cálculos.

Sílvia chegou finalmente. Os seus cabelos ruivos pareciam incendiados pelas lanternas. Vestia uma t-shirt branca e shorts laranja. Tinha várias pulseiras em ambas as mãos, algumas de flores secas.

Cheirava a limão.

«Apanhei rebanhos de ovelhas e cabras, que me atrasaram um pouco. O pastor apontou-me o caminho».

Mais tarde disse-me que o pastor tocava flauta e que não encontrou sinais de bodes.

«Ah, e passei por um enorme cabo elétrico que parecia ir em direção à quinta».

As notícias deram-lhe alento. As cabras davam leite e os mortos não tocam flauta.

E não tinha que se preocupar com a eletricidade, se bem que pudesse fazer um pacto com o sol e pô-lo a trabalhar para si.

Concentrar-se-ia na água, nos animais, nos vegetais e na internet.

Estava escuro, mas parecia avistar já o esboço da quinta, que ergueriam com as suas quatro mãos.

E já tinham um amigo, cabras, figos, tempo e uma incrível árvore Ténéré.

Festina lente sicut aqua.




NOTA: O presente conto corresponde à primeira parte de uma pequena série, intitulada “Óscar Romão em Valquírias: Festina lente sicut aqua”. Os diferentes contos desta série poderão aparecer intercalados com contos singulares.


Pode contactar o autor do conto através de: pratas-young@theyeofhorus.net

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