OVA ORTEGRAFIA

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O título é da escritora Maria Velho da Costa falecida este sábado, aos 81 anos, na sua casa, em Lisboa. Vencedora do Prémio Camões (2002), a escritora deixa uma obra densa e extensa, embora seja, sobretudo conhecida internacionalmente, como uma das “Três Marias” (Isabel Barreno e Teresa Horta, são as outras duas) que em 1972 abanaram a ditadura com a obra Novas cartas portuguesas.

“Poucos ficcionistas portugueses contemporâneos escreveram livros tão cultos e inventivos, tão exigentes e insubmissos”, referiu o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito do legado literário que a escritora — que nem apreciava muito colecionar livros ou possuir uma grande biblioteca — nos deixa.

Em plena ditadura, Maria Velho da Costa decidiu ridicularizar a censura vigente e vigilante, com esta pérola irónica e sarcástica que aqui recordamos e cujo nome do texto é o título que atribuímos a esta notícia como forma singela de homenagear a sua memória:

Ecidi escrever ortado; poupo assim o rabalho a quem me orta. Orque quem me orta é pago para me ortar. Também é um alariado, Também ofre o usto da ida. Orque a iteratura deve dar sinal da ircunstância, e não tem ustificação oral.E ais: deve ter em conta todos os ofrimentos, esmo e rincipalmente os daqueles ujo trabalho é zelar pela oralidade e ordem ública – os ortadores.

Eu acho que enho andado esavinda omigo e com a grei, com tanta liberdade de estilos e emas e xperimentalismos e rocadilhos que os ríticos e eitores dizem arrocos e os ortadores, pelo im, pelo ão,ortam. A iteratura eve ser uma oisa éria,e esponsável. Esta é a minha enúncia ública. (Eço desculpa de esitar nalguns ortes, mas é por pouco calhada neste bom modo de scrita usta ao empo e aos odos),

Izia eu que o ortoguês que ora, nesta ora de rudência e sforço, se não reduz a orma imples, não erve a vera íngua da Pátria. (Por enquanto só orto ao omeço, porque a arte de ortar não é fácil; rometo reinar-me até udo me air aturalmente ortado e ao eio e ao im.)

Outros jovens me eguirão o rilho. Odos não eremos emais para ervir na etaguarda os que, em árias frentes por nõs se mputam.

A issão do scritor é dar estemunho e efrigério aos e dos omentos raves da istória, ao erviço dos ideais da sua comunidade, ervir a oz do ovo, espeitar a oz dos overnantes egítimos.

Olegas, em ome da obrevivência da íngua,vos eço, pois: Reinai-vos a ortar-vos uns aos outros, omo eu me ortei.

Maria Velho da Costa, Desescrita (1973)

Na sua conta do Twitter, a escritora Inês Pedrosa dedicou a sua página pessoal da rede social a relembrar fragmentos da obra de Maria Velho da Costa, que foi, ainda, a primeira mulher a presidir à Associação Portuguesa de Escritores (APE).  Da sua ação cívica e política é de salientar os cargos que desempenhou como secretária de estado da Cultura no Governo de Maria de Lurdes Pintasilgo e, anos mais tarde (1988-1991) como adida cultural em Cabo Verde.

Em 2013, quando recebeu o prémio Vida Literária da APE, chamou a atenção para o facto de a literatura não se limitar a ser apenas “uma arte, um ofício”, porque ela é, sobretudo, “a palavra no tempo, na história”. Daí, sustentou, que os regimes totalitários saibam que tanto “a literatura como a poesia sejam um perigo. Por isso queimam, ignoram e analfabetizam, o que vem dar à mesma atrofia do espírito, mais pobreza na pobreza”.

O Primeiro ministro António Costa também sublinhou, na sua conta do Twitter, o percurso literário e intelectual de Maria Velho da Costa:

Autora de romances marcantes, como Maina Mendes (1969), Casas Pardas (1977) e Myra (2008), Maria Velho da Costa é, ainda, reconhecidamente, um dos nomes fundamentais no processo da renovação da literatura portuguesa, a partir da década de 1960.

Em 1975, à conversa com Fernando Assis Pacheco para a RTP, Maria Velho da Costa diz a certa altura que escrevia para se “entender e entender as coisas”. Mas o melhor é mesmo ouvi-la e vê-la:

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