Pandemia e banalização das mortes

Evgeni Tcherkasski (Unsplash)

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No dia em que terminei esse breve artigo, o Brasil alcançou a trágica marca de 230 mil mortes provocadas pela covid 19. Ainda somos o segundo país com maior número de óbitos associadas à pandemia. Apenas os Estados Unidos estão à nossa frente, com o dobro de vidas perdidas, apesar de terem uma população apenas 50% maior do que a nossa. A Índia vem em seguida, com maior número de casos, mas ainda um menor número de mortes. Enfim, trata-se claramente de uma tragédia que não respeita fronteiras nem limites geográficos.

Mas o objetivo aqui não é tratar dessa espécie de corrida entre diferentes países e sua maior ou menor dificuldade em lidar com essa novidade, tão mortal quanto desconhecida. Um pouco como o enigma da esfinge de Tebas, a doença atual lança um desafio à humanidade: “Decifra-me ou te devoro!”. E já ultrapassamos o total de 2,3 milhões de óbitos em todo o globo, segundo estimativa conservadora da própria Organização Mundial de Saúde (OMS).

Mas como explicar esse número de quase ¼ de milhão de mortes em um país e seu Presidente da República continuar com um índice de popularidade relativamente razoável para esse quadro? Já são 10 meses de vigência da pandemia como uma realidade epidemiológica consolidada por todos os continentes e Bolsonaro segue com sua estratégia negacionista. Não apenas ele busca desacreditar as instituições de saúde pública no plano internacional e em seu próprio país, como impediu que o Estado brasileiro assumisse uma posição de vanguarda no combate ao vírus e à doença.

No início, Bolsonaro desdenhava da doença, afirmando se tratar de uma mera “gripezinha”, como dizia Donald Trump. Em seguida, apesar de nunca ter entrado em uma faculdade de medicina em toda sua vida, passou a prescrever de forma pública medicamentos para a doença, em um suposto “tratamento precoce” para a mesma. Além disso, ele nunca usou máscaras em suas manifestações presenciais e sempre estimulou a confraternização e o contato com os seus admiradores, sem qualquer respeito pelas regras básicas de segurança ou pelo isolamento social recomendado de forma unânime por entidades da área.


Amin Moshrefi (Unsplash)

Ora, frente a esse quadro, a pandemia seguiu avançando e os óbitos também. Percebe-se uma espécie de banalização das mortes, como se a maioria da sociedade brasileira terminasse por se resignar frente a esse volume de perdas tão dolorosas. Apesar de evidente responsabilidade de Bolsonaro no agravamento do quadro já dramático da pandemia, parcela da população segue acreditando que as causas são outras. A proximidade com a morte e o risco inequívoco de contágio não impediram a continuidade dos eventos festivos, com aglomerações durante a época do Natal, do Ano Novo e em outras datas comemorativas em todo o território nacional. Idas às praias ao longo das férias e dos finais de semana se somam à presença constante, massiva e rotineira em bares e outros locais de aglomeração bastante comprometedora para saúde individual e coletiva.

Mas por que permanece esse tipo de comportamento, ao mesmo tempo em que as mortes se avolumam?

Talvez uma das questões que nos possam a ajudar na compreensão deste fenômeno paradoxal esteja no comportamento exibido e vivenciado pela sociedade em situações similares. Como se sabe, a questão da violência faz parte há muito tempo do cotidiano da maioria da população brasileira. E podemos enumerar um lista ampla de tipos de conflitos de natureza violenta. Então vamos pela violência doméstica, violência racial, violência policial, violência homofóbica, violência urbana, violência no ambiente rural, violência no trânsito, violência nos ambientes esportivos, violência no trabalho, entre tantas outras situações.

O mito do “homem cordial” que vários pensadores sociais clássicos usavam para caracterizar o “tipo brasileiro” no passado parece não ser mais adequado para os tempos atuais. Atualmente, esse personagem idealizado pratica a violência contra seus pares, ao mesmo tempo em que é submetido a atos e situações violentas em seu cotidiano. E uma das faces mais duras desse comportamento reside no brutal aumento das mortes associadas às mesmas. A transformação da violência em morte passa a fazer parte do cotidiano das pessoas.

Com o protagonismo adquirido pela questão da segurança ao longo das últimas décadas, ela passa a compor com prioridade o universo das agendas de políticas públicas no país. E as estatísticas relacionadas ao tema também ganham espaço e destaque nos meios de comunicação, na administração pública e nas próprias instituição de pesquisa Assim, as pautas de violência e segurança passam a concorrer com os temas já considerados tradicionais como saúde, educação, previdência e outros.


Artem Kniaz (Unsplash)

No que se refere à dinâmica da banalização das mortes, podemos considerar dois tipos de fenômeno que fazem parte do cotidiano da população e que terminam por facilitar esse mecanismo psicossocial de uma espécie de resignação frente à perda de vidas humanas. Eles possuem uma estatística consolidada e nos permitem algum tipo de avaliação com uma série temporal mais longa. São eles: i) mortes violentas; e, ii) mortes em acidente de trânsito. Em ambos os casos os números impressionam.

No caso das “mortes violentas” estão incluídos os casos de homicídio doloso, de latrocínio e lesão corporal seguida de morte. Alguns estudiosos consideram que mesmo assim existe o risco de subnotificação, em razão de as estatísticas oficiais passarem por atos lavrados pelas próprias polícias. No caso das “mortes em acidente de trânsito” estão incluídos todos os óbitos, englobando os eventos ocorridos nas vias dos espaços urbanos e nas rodovias intermunicipais e/ou interestaduais.

A tabela abaixo identifica o total de mortes para esses dois casos registrados para o período disponível, no caso os nove anos compreendidos entre 2011 e 2019. Isso permite considerar a hipótese de que o processo de naturalização ou acomodação da sociedade frente a eventos como esses já vem ocorrendo há um certo tempo. Assim, entre “mortes violentas” e “mortes em acidentes de trânsito” o total para o novênio atingiu a impressionante marca de 836 mil. A maior parcela corresponde às mortes violentas com 478 mil (57%) e em seguida as mortes no trânsito com 358 mil (43%).


Brasil –  Mortes (em milhares)
Fontes: Monitor da violência e DATASUS.

Entres as vidas perdidas em ambas as classificações tivemos uma média anual de 93 mil ao longo do período. Ainda não existe consenso entre os analistas a respeito da queda observada a partir de 2015, mas com certeza devem ter contribuído bastante os efeitos da longa recessão econômica que tem início naquele ano.       

Assim, colocada em perspectiva essa tendência de pelo menos uma década de convivência com número elevado de perdas de vidas humanas, talvez esse processo de conformismo coletivo com o fenômeno das mortes em consequência da covid 19 não devesse ser assim tão inesperado. Além disso, é bem provável que os mecanismos de válvula de escape para essa convivência social cotidiana com o quadro generalizado da violência sejam mais pulverizados.


Nathana Reboucas (Unsplash)

Percebe-se um crescimento de situações de linchamento público pelo país afora, em um contexto típico de apelo à lei da selva e da justiça com as próprias mãos para solucionar quadros de conflito ou transgressão de uma ordem legal ou moral indefinidas. Esse movimento se vê combinado com o aumento expressivo das situações de manifestação violenta de intolerância de todo o tipo no cotidiano das cidades.

Por outro lado, observa-se também o crescimento de situações de tiroteios em ambientes urbanos, em razão do aumento de territórios nas grandes metrópoles que passaram para o domínio de facções ligadas ao tráfico e a milícias armadas. Esse descontrole do próprio poder público sobre tais regiões levou ao surgimento trágico de assassinatos que passaram a ser qualificados, de forma enganosa, como sendo causados por “bala perdida”.

Esse processo todo ganha em qualidade e em impulso com a eleição, com a maioria dos votos em segundo turno em 2018, de um presidente que sempre defendeu soluções extremadas para esse domínio da vida social, com especial destaque para segurança e violência. Bolsonaro jamais deixou de propor a instituição da pena de morte e a redução da maioridade penal como pretensas soluções para essa violência crescente. Além disso, na mesma linha de buscar apagar o incêndio com gasolina, ele está implementando um processo de liberalização generalizada de porte de aramas para os cidadãos, declarando sempre sua admiração e inspiração no modelo norte-americano. Esse movimento ainda está sendo mais bem estudado e compreendido, mas há analistas que chegam a propor uma nova tipificação conceitual em gestação, a exemplo do proposição do “homo bolsonarus”.

Uma sociedade que vem convivendo há tanto tempo com fenômenos associados à violência e à morte talvez esteja recolhendo e incorporando também, mais uma vez de forma passiva, os óbitos mais recentes provocados pela pandemia. A banalização das centenas de milhares de vidas perdidas desde o início de 2020 deve ter, com certeza, suas raízes em características mais profundas de nosso tecido social.



*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal no Brasil.

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